Teogonia a origem dos Deuses



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Díke,  que em grego veio a significar "Justiça", é cognata do verbo latino 
dico, dicere (= dizer), e designava primitivamente estas fórmulas pré-
jurídicas
2
. Os reis, portanto, dependiam do patrocínio de Memória, para 
preservarem as díkai, do de Zeus, para poder aplicá-las em cada caso, e do 


das Musas, para que esta aplicação fosse eficiente e bem-sucedida, se não 
também para os fins anteriores.
 
2) Cf. Benveniste, Émile. Le vocabulaire des institutions indo-européennes. Paris, Minuit,
 
 
1969,2°vol.,pp. 107ss.
 
 
O bom êxito dos reis em sua função judicatória dependia sobremaneira 
de suas "palavras de mel", do dom da sedução persuasora. Esta capacidade 
de "persuadir com brandas palavras", tanto quanto a conveniência geral da 
sentença dada no julgamento, é que asseguravam aos reis o gozo da boa 
reputação e popularidade. Além disso, a administração da justiça não era de 
modo algum um ato meramente cívico, mas também de caráter religioso e 
até mágico,—na medida em que a ordem social não se distinguia ainda, para 
a mentalidade mítica e arcaica, da ordem natural e até da ordem temporal 
(i.e., cronológica). A injustiça social acarretaria distúrbios nas forças 
produtivas e na ordem da natureza: peste e esterilidade nos rebanhos, 
escassez nas colheitas e portanto penúria e fome, e ainda filhos que não se 
assemelham aos pais ou que já nascem encanecidos (cf. Trabalhos, vv. 180-
200 e 214-247). A manutenção da boa ordem social pelos reis era solidária 
da ordem da natureza e dos acontecimentos, a sacralidade da justiça social 
transcendia o caráter civil das ações ao envolver o próprio cosmo e suas 
forças fecundantes e produtivas.
 
Encontrar a fórmula correta, pronunciá-la com autoridade e incutir a 
aceitação dela no ânimo dos contendentes é praticar a reta justiça, e 
assegurar a pacificação social e a ordem da natureza (pela mutualidade desta 
com a justiça). E essa atividade se funda no uso eficiente das Palavras, tanto 
quanto a do Cantor. Por outro lado, este poder de pronunciar a fórmula justa 
e eficiente é um dom com que as Musas — como fadas madrinhas—dotam 
os reis a cujo nascimento elas assistem e aos quais elas honram,—o que 
implica uma vocação que acompanha o indivíduo ao longo da vida e para a 
qual ele deve ter-se preparado desde idade precoce. — Então, recapitulando 
o paralelo entre reis e cantores:
 
1) a função de ambos tem fundamento no uso eficiente de palavras das 
quais eles são os únicos guardiães, sob o patrocínio de Memória;
 
2) para ambos, o uso desta Palavra é uma especialização, uma qualifi-
cação que os distingue dos demais e para a qual se prepararam
 
longamente e desde cedo, assistidos pelas Musas;
 
3) a autoridade de ambos se estriba na sedução e no fascínio que através 
da Palavra exercem sobre seu entourage;
 
4) o uso que ambos fazem da palavra tem repercussões nos destinos da 
comunidade e na ordem do mundo: o rei-juiz assegura com o bom uso de 


fórmulas  (díkai)  e de palavras persuasivas uma ordem que é ao mesmo 
tempo pública e cósmica, o cantor assegura através de suas canções a 
consciência que a comunidade tem de si e de suas conquistas e presentifica a 
esta comunidade os seus Deuses e as dimensões do cosmo. Em ambos os 
casos a Palavra tem o poder sobre o mundo, sua configuração e suas forças 
produtivas. É uma Palavra poderosa, cujo uso implica Forças divinas e o 
destino dos homens; e,
 
5) portanto, ambos são alunos e protegidos das Musas, ainda que a 
realeza como tal seja para os reis sempre oriunda de Zeus, de quem é a 
Realeza Suprema, e aos cantores, por seu turno, e só a estes, concorra o 
patronato que Apoio dispensa aos citaredos.
 
A ordem social não é senão o aspecto que entre os homens assume a 
ordem da natureza: una e única vige em ambas a harmonia invisível

mais 
forte e mais poderosa do que todas as suas manifestações. Na administração 
da justiça, baseada no uso correto e eficaz da Palavra, os reis colaboram com 
a manutenção desta ordem cósmica, com o que asseguram à sua comunidade 
o equilíbrio, a opulência e o futuro próspero. Os reis são operadores e 
colaboradores dos acontecimentos que se dão no cosmo, porque são 
Senhores da Palavra. O poder que têm da Palavra lhes dá o poder sobre 
acontecimentos sociais e cósmicos.
 
Os poetas também são, igualmente, Senhores da Palavra. Este privilégio 
incomparável, que irmana reis e cantores, é que dá a Hesíodo autoridade 
para repreender e invectivar os reis venais, cujas sentenças e justiça são 
subornáveis mediante presentes (ele invectiva-os nos Trabalhos).—A 
condição dada por este privilégio de custodiar o poder da Palavra, Hesíodo 
designa-a piedosamente pela qualificação de servo das Musas dada ao cantor 


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