Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938



Baixar 0.87 Mb.
Pdf preview
Página9/26
Encontro17.03.2020
Tamanho0.87 Mb.
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   26
Além da escravidão: investigações sobre raça, trabalho e cidadania em sociedades pós-emancipação. Rio de 

Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 109. 

25

 Idem, p. 123. 



26

 SKIDMORE, Thomas. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. Rio de Janeiro: Paz e 

Terra, 1976. p. 37. 



 

21

só, e de como essa aptidão logrou ao longo da história diminuir o “preconceito de raças” no 



Brasil, em comparação com os Estados Unidos por exemplo.

 27


 

Não  obstante,  o  que  realmente  chocou  os  ex-senhores  de  escravos  no  meio  rural, 

ajudando  a  fixar  as  concepções  dos  intelectuais  conservadores  e  da  classe  média  urbana  do 

início  do  século  XX  de  negros  e  mulatos  como  preguiçosos,  degenerados  e  libertinos  (tanto 

quanto  o  estereótipo  do  quashee  jamaicano),  não  foram  tanto  as  teorias  raciais  que  já 

começavam a aportar no Brasil vindas da Europa, mas o fato de que, na cabeça dos libertos 

brasileiros,  “a  idéia  de  liberdade  fundia-se  perigosamente  com  a  noção  de  igualdade”,

28

  de 



forma que essa população egressa da escravidão utilizava com freqüência os significados da 

experiência do cativeiro para formar suas próprias idéias sobre a liberdade. 

Passada ao longo das gerações até bem depois do treze de maio de 1888, a memória 

dos tempos da escravidão tendia a definir esta instituição como “ausência absoluta de direitos 

e  de  alternativas  personalizadas  de  rompimento  com  esta  condição,  através  da  aquisição  de 

direitos pessoais ou privilégios. Neste contexto, a libertação teria significado a transformação 

definitiva daqueles privilégios efetivamente em direitos”.

29

 



Tais  direitos  chegaram  a  ser  pleiteados  formalmente  nos  meses  que  seguiram  à 

abolição,  como  em  abril  de  1889,  quando  uma  comissão  formada  por  libertos  do  Vale  do 

Paraíba enviou uma petição ao então jornalista Rui Barbosa onde denunciava que a lei 1871 – 

 

[...]  que  previa  recursos  do  governo  imperial  e  principalmente 



responsabilidade  dos  proprietários  de  escravos  em  relação  àqueles  nascidos 

livres e beneficiados pela lei – pouco havia sido cumprida, especialmente no 

caso  da  parcela  do  imposto  a  ser  destinada  à  “educação  dos  filhos  dos 

libertos”.  A  carta  da  comissão  de  libertos  terminava  com  um  alerta:  “Para 

fugir  do  grande  perigo  que  corremos  por  falta  de  instrução,  vimos  pedi-la 

[educação] para nossos filhos e para que eles não ergam mão assassina para 

abater  aqueles  que  querem  a  República,  que  é  liberdade,  igualdade  e 

fraternidade”.

30

 

 



Essa  procura  em  afirmar  direta  ou  indiretamente  os  direitos  e  prerrogativas  que 

foram conquistados pela população negra ao longo do processo abolicionista tornar-se-ia um 

dos pontos principais da experiência de seus descendentes ao longo da primeira república. E 

foi  contra  essas  populações  descendentes  de  africanos  que  a  maior  parte  da  intelligentsia 

republicana voltou o seu aparato intelectual de forma a desqualificá-las como raça e negar-lhe 

a  cidadania.  O  próprio  programa  político  do  Partido  Republicano  tratava  a  abolição  de 

                                                 

27

 SKIDMORE, 1976, p. 40. 



28

 FRAGA FILHO, 2006, p. 130. 

29

 RIOS; MATTOS, 2004, p. 188. 



30

 GOMES, Flávio dos Santos. Negros e política (1888-1937). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. p 10.  




 

22

maneira  superficial  na  década  de  1870,  quando  esta  aparecia  como  a  última  questão  numa 



plataforma de seis pontos destacados,

31

 ocorrendo uma valorização somente a partir de 1880, 



com a radicalização do movimento abolicionista. 

Tendo  como  base  o  interior  da  província  de  São  Paulo  as  idéias  republicanas 

irradiaram-se com  grande  ímpeto em  direção  aos  centros  urbanos  de  país.  Em  1888, a força 

política  dos  republicanos  era  tal  que  a  abolição  -  conforme  é  consenso  na  historiografia 

nacional - representou o golpe de misericórdia na instituição monárquica brasileira, apeada do 

governo só 16 meses depois. Restava então a difícil tarefa de consolidar o novo regime. 

 

Os embates ideológicos entre as lideranças políticas antes e depois de 1889 sobre que 



modelo  de  República  haveria  de  ser  implantada  no  Brasil  não  podem  deixar  de  ser 

relacionados  com  o  tipo  de  nação  (do  ponto  de  vista  demográfico)  que  o  Império  -  e  por 

extensão  a  instituição  escravista  -  havia  deixado  como  herança  aos  novos  governantes:  uma 

população essencialmente de origem africana, mestiça ou indígena, cuja extensa maioria vivia 

no  campo  e  do  campo,  era  pobre,  iletrada,  não  tinha  acesso  a  terra  e  se  via  cada  vez  mais 

apartada dos processos eleitorais, numa tendência que se tinha se iniciado com as reformas de 

1881 e acentuou-se ao longo da República Velha. 

O  quadro  era  um  pouco menos  lúgubre  nas  grandes  cidades  do  país,  onde  subsistia 

uma  classe  média  composta  de  pequenos  proprietários,  funcionários  públicos,  profissionais 

liberais,  jornalistas,  professores  e  estudantes  (aos  quais  começavam  a  se  juntar  em  grandes 

levas  os  imigrantes  europeus),  que  estariam em  tese  devidamente  preparados  para  participar 

das  decisões  políticas  do  país.  Ainda  assim,  eram  numericamente  sobrepujados  por  um 

extenso  proletariado  urbano  que  em  cidades  como  Rio  de  Janeiro,  Salvador  e  São  Paulo 

convivia com falta de instrução, baixos salários e péssimas condições de habitação. As classes 

baixas  urbanas,  via  de  regra,  eram  tratadas  como  uma  turba  perigosa  e  naturalmente 

predisposta  a  se  deixar  levar  pelos  instintos  mais  baixos.  Tal  paisagem  demográfica levou  o 

biólogo francês Louis Couty a afirmar em 1881 que do ponto de vista político, o Brasil “não 

tem povo”.

32

 

Foi  essa  “falta  de  povo”  concluída  pela  intelectualidade  positivista  e  republicana 



mediante  o  contraste  entre  o  panorama  social  do  Brasil  e  as  noções  idealizadas  que  estes 

tinham a respeito das nações industrializadas da Europa que levou aquelas a descartar formas 

                                                 

31

 SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retrato em branco e negro: jornais, escravos e cidadãos em São Paulo no final 



do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 73. 

32

 CARVALHO, José Murilo de. Os três povos da República. In: Revista USP. São Paulo, nº 59, set/nov. 2003, 



pp. 96-115. p. 98. 


 

23

de  governo  que  previssem  a  inclusão  de  mesmo  uma  parte  da  população  brasileira  na 



participação  política.  A  república  liberal,  inspirada  no  modelo  norte-americano  e  defendida 

pelo paulista Alberto Sales não convinha àquelas classes médias que anteviam a possibilidade 

de  utilizar  o  aparato  estatal  herdado  do  Império  em  seu  benefício.  A  ausência  do 

“individualismo anglo-saxão”

33

 como explicação da inabilidade dos brasileiros para coordenar 



uma  sociedade  política  eficiente  também  foi  apontada  por  pensadores  do  período.  A  opção 

por uma república jacobina, nos moldes da Revolução Francesa e defendida por Silva Jardim 

era fundamentalmente utópica, já que as virtudes republicanas que capacitavam os cidadãos a 

participarem  da  vida  política  raramente  eram  identificadas  entre  a  população  brasileira  em 

geral. 

Sob  a  importante  influência  dos  militares,  a  solução  encontrada  foi  a  “república 

sociocrática  positivista” de  Miguel  Lemos e  Teixeira  Mendes,  com  suas  idéias  de separação 

entre Igreja e Estado, um  executivo forte e centralizador e a ordem e o progresso orientados 

por  uma  ditadura  republicana  onde  diante  da  inexistência  de  “capacidade  cívica”

34

  da 



população  em  geral,  o  governo  era  encampado  pelos  mais  capazes.  Mas  acima  de  qualquer 

outro traço definidor, foi a crença inabalável na capacidade da ciência e da técnica de orientar 

o  progresso  e  os  destinos  da  nação  que  influenciou  amplamente  as  doutrinas  racialistas  que 

iriam  tomar  conta  da  cena  intelectual  brasileira  ao  longo  dos  primeiros  anos  da  República, 

surtindo  grande  influência  na  maneira  com  que  a  herança  africana  do  país  seria  tratada  nos 

cinqüenta anos seguidos ao fim da escravidão. 

 

Embora  as  teorias  raciais  estivessem  sendo  formuladas  na  Europa  desde  a  primeira 



metade  do  século  XIX,  a  extensa  utilização  do  trabalho  escravo  no  Brasil  e  a  importância 

deste  trabalho  para  a  economia  nacional  impediu  que  aquelas  teorias  tivessem  uma  difusão 

mais significativa no país antes do fim da escravidão. Mas o treze de maio de 1888, junto com 

a  crise  financeira  e  as  diversas  revoltas  populares  que  eclodiram  nos  primeiros  anos  da 

República  fez  com  que os  intelectuais  e  homens  de  ciência  brasileiros  começassem a  adotar 

seriamente aquele pensamento e a tentar utilizá-lo como instrumento para transformar o país. 

Na virada do século XIX para o século XX, o novo ímpeto na empreitada colonial na 

África  e  a  diferença  de  progresso  econômico  cada  vez  maior  entre  os  países  do  norte  da 

                                                 

33

 CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: 



Companhia das Letras, 1990. p. 30. 

34

 CARVALHO, 2003, p. 99. 




 

24

Europa e as regiões tropicais levaram a uma onda de valorização dos pressupostos raciais para 



explicar a história e o desenvolvimento futuro das nações. 

Roberto Ventura aponta que as teorias de determinismo climático de Thomas Buckle 

e  determinismo  racial  de  Arthur  de  Gobineau  começaram  a  ser  assimiladas  no  Brasil  pela 

chamada “geração de 1870”, formada por escritores, bacharéis e críticos literários ligados às 

mais tradicionais instituições de ensino superior do país, na esteira das acaloradas discussões 

sobre a necessidade de pôr fim ao trabalho escravo, do futuro que aguardava o Brasil com o 

fim da tutela sobre aqueles milhões de indivíduos e do efeito que sua liberação teria sobre o 

país.


 35

 Já em 1871, Sílvio Romero, 

 

[...] adepto da crença na inferioridade das raças formadoras da nacionalidade 



brasileira e de seu povo mestiço, afirmava a condição "bestamente atrasada" 

e  "bestamente  infecunda"  dos  ameríndios  e  a  natureza  "estupidamente 

indolente" e "estupidamente talhada para escravo" dos "selvagens africanos", 

que  explicariam  "o  nulo  desenvolvimento  de  nossas  letras  e  a  nenhuma 

originalidade do nosso gênio" [...].

36

 



 

Sendo  crítico  literário,  Romero  evidentemente  lamentava  muito  mais  a  falta  de 

talento artístico dos seus conterrâneos do que outras habilidades de ordem mais prática. Mas 

conforme se avizinhou o fim do Império, o caráter fundamentalmente degenerado atribuído à 

população  de  origem  africana  passou  a  ganhar  novos  tons  que  tendiam  a  insistentemente 

ressaltar  a  inaptidão  para  o  trabalho  dos  egressos  do  cativeiro,  que  livres  da  disciplina  de 

trabalho  imposta  pela  instituição  escravista  tendiam  quase  sempre  a  cair  num  estado  de 

ociosidade  e  indolência  com  conseqüências  extremamente  nocivas  para  o  desenvolvimento 

econômico e para o corpo social da nação. 

No  Brasil  foram as  ciências  médicas  e  biológicas  que  mais  se  debruçaram  sobre  os 

problemas da raça, mas de uma maneira muito distinta de outras partes do mundo. Enquanto 

na África colonial e nos Estados Unidos as teorias relacionadas com o determinismo biológico 

serviam  para  traçar  linhas  de  hierarquia  e  separação  entre  as  raças,  condenando  a 

miscigenação  e  estabelecendo  “linhas  de  cor”  dentro  daquelas  sociedades,  no  Brasil  a 

convivência desde há séculos com a miscigenação levou a uma interpretação muito particular 

por parte dos cientistas brasileiros das teorias raciais européias, servindo a propósitos que iam 

                                                 

35

 VENTURA, 1991. 



36

  PATTO,  Maria  Helena  de  Souza.  Estado,  ciência  e  política  na  primeira  república:  a  desqualificação  dos 

pobres. In: Revista Estudos Avançados. São Paulo IEA-USP, vol. 13, n° 35, jan/abr. 1999. pp. 167-198. p. 184. 



 

25

da  “justificação  de  uma  espécie  de  hierarquia  natural  à  comprovação  da  inferioridade  de 



largos setores da população”.

37

 



Dentro do contexto da impaciente busca do progresso pela modernidade republicana, 

o  “experimento  brasileiro”  da  miscigenação  era  interpretado  de  maneira  peculiar  pelos 

homens de ciência da época. Ao mesmo tempo em que a imensa população negra e mestiça do 

país  era  vista  como  um  flagelo  que  tolhia  o  desenvolvimento  da  nação,  o  sentimento  de 

patriotismo  do  qual  estavam  imbuídos  aqueles  homens  não  os  deixava  esmorecer  pelo 

panorama  árido,  e  suas  esperanças  passaram  a  ser  depositadas  na  mesma  miscigenação  que 

tanto lhes preocupava, como forma de ao longo de duas ou três gerações depurar o “mascavo 

humano” do Brasil até o ponto de finalmente o país tornar-se uma nação branca e civilizada. 

A tese do branqueamento obteve sanção científica e apoio institucional no início do 

século  XX  quando  João  Batista  de  Lacerda,  diretor  do  Museu  Nacional  compareceu  ao 

Primeiro  Congresso  Universal  das  Raças  em  Londres,  em  1911,  apresentando  o  relatório  




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   26


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal