Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938



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Quase-cidadão: histórias e antropologias da pós-emancipação no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007. p. 

60. 


18

 FRAGA FILHO, op. cit., p. 238. 

19

 Idem, p. 221. 



20

 Idem, p. 237. 




 

19

Um  traço  marcante  dessa atitude  de  inconformidade  com  propostas  de  trabalho  que 



lembrassem  as  condições  da  época  da  escravidão  foi  a  grande  mobilidade  das  famílias  de 

origem  africana  no  final  do  século  XIX  e  início  do  século  XX  -  em  outro  exame  sobre  as 

memórias  passadas  pelos  últimos  libertos  aos  seus  filhos  e  netos,  Ana  Rios  e  Hebe  Mattos 

identificaram  esse  traço  como  a  “maldição  da  mobilidade”.

21

  O  esforço  para  conseguir 



trabalhar  “sobre  si”  e  a  penúria  experimentada  nas  fazendas  (salários  baixos,  péssimas 

condições  de  trabalho,  saúde  e  habitação)  arrastava  muitas  famílias  em  peregrinação  de 

acordo com as safras, condições econômicas ou a simples promessa de uma oportunidade de 

trabalho digna ouvida de um conhecido ou um viajante de passagem. 

Além  disso,  existia  sempre  a  vaga  possibilidade  de  conseguir  um  pedaço  de  terra 

para  viver  e  trabalhar  sem  depender  dos  contratos  e  do  arrendamento  das  propriedades  dos 

fazendeiros. Se para Warren Dean “a abolição e a reforma agrária tenham sido ligadas por uns 

poucos  abolicionistas”

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  e  nunca  tenha  sido  um  tema  central  da  campanha  pelo  fim  da 



escravidão,  os  ex-escravos  não  deixaram  de  esperar  ansiosamente  pela  oportunidade  de 

receber ao menos uma parte da terra onde trabalharam durante tanto tempo. Tal oportunidade 

foi  se  tornando  cada  vez  mais  longínqua  com  a  crescente  demonização  da  mão-de-obra  de 

origem africana, tachada de preguiçosa, sem ambição e com “um juízo exagerado do próprio 

valor”.

23

  O  fim  do  Império  visto  como  redentor  que  se  bateu  para  redimir  a  raça  negra  no 



Brasil, o advento da República oligárquica e o início da densa imigração européia no começo 

do século XX anunciou um horizonte ainda mais carregado para os descendentes de escravos 

do Brasil. Muitos deles voltaram suas esperanças para as grandes cidades. 

 

Ao  delimitar  as  formas  com  que  herança  da  abolição  foi  tratada  ao  longo  das 



primeiras  décadas  de  regime  republicano,  é  interessante  tentar  identificar  o  que  a  ordem 

liberal abraçada pela República, e que acertou em cheio as populações de origem africana do 

Brasil  com  seus  pressupostos  científico-raciais,  suas  políticas  de  exclusão  e  seu  aparato 

judicial inicialmente esperava dos cidadãos libertos do cativeiro. 

Ao analisar o programa de emancipação britânico na Jamaica na segunda metade do 

século XIX, Thomas C. Holt identifica todo um conjunto de idéias a respeito da transição do 

trabalho escravo para o trabalho livre tecido pelas autoridades do Reino Unido, apontando que 

os  responsáveis  pela  condução  daquele  processo  tinham  grandes  expectativas  de  que 

                                                 

21

 RIOS, Ana Maria Lugão; MATTOS, Hebe Maria. O pós-abolição como problema histórico: balanços e 



perspectivas.In: Revista Topoi. Rio de Janeiro: UFRJ: vol. 5, nº 8, pp. 170-198, 2004. p. 181. 

22

 DEAN, 1977, p. 147. 



23

 Idem, p. 149. 




 

20

permanecendo  nas  plantations  e  aceitando  as  condições  de  salário  dos  fazendeiros  ingleses, 



“seu trabalho [dos libertos] seria motivado pelo refinamento de seu gosto e pela expansão de 

seu desejo de possuir bens materiais”.

24

 Na fala dos administradores coloniais, os ex-escravos 



deveriam desenvolver a partir do trabalho diligente toda uma disciplina burguesa de padrões 

de consumo, esferas sexuadas de atividade doméstica e deferência à devida autoridade. 

Ignorando  tanto  as  especificidades  culturais  dos  jamaicanos  quanto  a  herança  que 

trouxeram dos anos do cativeiro, foi grande a frustração dos ingleses ao constatar que aqueles 

tinham  pouco  interesse  nos  alegados  benefícios  que  a  liberdade  vitoriana  lhes  dispunha,  e 

como  resultado,  uma  rápida  virada  no  pensamento  colonial  britânico  levou  a  uma 

desqualificação  da  mão-de-obra  de  origem  africana  da  ilha,  com  a  disseminação  do 

estereótipo  do  quashee: o  jamaicano  “preguiçoso,  moralmente  degenerado,  licencioso e  sem 

preocupações do futuro”.

25

 



É  impossível  fazer  uma  comparação  entre  a  Jamaica  da  metade  do  século  XIX  e  o 

Brasil de fins do mesmo século, principalmente porque a preocupação com o aspecto social da 

população egressa da escravidão raramente fez parte do discurso das elites republicanas antes 

da  década  de  1920,  e  mesmo  alguns  próceres  do  abolicionismo,  apesar  de  se  mostrarem 

confiantes na capacidade dos afro-brasileiros de contribuir substancialmente para o progresso 

econômico  do  país,  não  deixavam  de  transparecer  algumas  das  idéias  sobre  raça  e 

miscigenação  que  iriam  amadurecer  dali  a  poucos  anos.  Sobre  Joaquim  Nabuco,  Thomas 

Skidmore pontua que este 

 

[...]  não  deixava  dúvidas  de  que  seu  alvo  era  um  Brasil  mais  branco.  Era 



suficientemente honesto para dizer que, se tivesse vivido no sec. XVI, ter-se-

ia  oposto  à  introdução  de  escravos  africanos,  da  mesma  maneira  como  se 

opunha  agora  ao  plano  da  “escravatura  asiática”  –  a  proposta  de  importar 

trabalhadores  chineses  para  substituir  os  escravos.  Na  sua  opinião  era  uma 

lástima que os holandeses não tivessem permanecido no Brasil pelas alturas 

do século XVII.

26

 

 



Ao  mesmo  tempo,  seu  contemporâneo  José  do  Patrocínio  já  mencionava  algumas 

idéias  que  iriam  fazer  parte  do  pensamento  racial  do  século  que  se  aproximava,  como  a 

natural  aptidão  do  povo  brasileiro  de  conduzir  a  miscigenação  e  fundir  todas  as  raças  numa 

                                                 

24

 HOLT, Thomas C. A essência do contrato. In: COOPER, Frederick; HOLT, Thomas C.; SCOTT, Rebecca J. 






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