Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938



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1. Introdução. 

 

Apesar  de  a  escravidão,  suas  transformações  e  sua  extinção  na  segunda  metade  do 



século XIX serem dos assuntos mais diletos da historiografia brasileira, seus desdobramentos 

e conseqüências naquele final de século, ou nos cinqüenta ou cem anos que se seguiram, não 

desfrutam do mesmo prestígio dentro da disciplina histórica. A preocupação com o legado e a 

influência  da  escravidão  na  sociedade  brasileira  do  século  XX  é  geralmente  creditada  a 

pesquisas  com  enfoque  na  sociologia  e  antropologia  cultural,  disciplinas  para  as  quais 

entender a etiologia dos lugares sociais ocupado pelos brasileiros de origem africana e mestiça 

é  de  grande  importância  para  tentar  esclarecer  alguns  dos  grandes  problemas  do  Brasil 

contemporâneo. 

O presente trabalho procura partir da importância do processo abolicionista brasileiro 

para tentar  refletir o lugar que ele passou a ocupar na memória nacional nos anos seguintes, 

usando como janela as comemorações do cinqüentenário da lei áurea em 1938 e tendo como 

objetivo  final  realizar  uma  aproximação  entre  dois  momentos  distintos  da  história  nacional 

que a princípio podem parecer desconexos, mas que através da leitura crítica e interpretação 

de fontes característica da pesquisa histórica revelam possuir vínculos muitos particulares. 

De  fato,  para  além  da  distância  de  meio  século  que  os  separam,  suficientemente 

pequena para que os contemporâneos da abolição ainda estivessem vivos para relembrá-la de 

maneira vívida, e suficientemente grande para que as inevitáveis apropriações e reconstruções 

da memória já tivessem realizado seu processo característico de ressignificação do passado, os 

anos de 1888 e 1938 são particularmente importantes por se situarem imediatamente antes e 

imediatamente depois de grandes eventos da história nacional que ensejavam a construção de 

mitos  políticos  que  dessem  conta  de  sustentar  suas  diferentes  concepções  de  história  e 

sociedade. 

Ambas  as  datas  também  se  situam  entre  momentos  em  que  a  participação  popular 

havia sido decisiva no encaminhamento dos eventos, embora de maneiras distintas. Se durante 

os últimos anos da década de 1880 a mobilização dos escravos e das camadas médias logrou 

triunfar sobre os interesses dos proprietários e da classe política conservadora precipitando o 

fim  do  trabalho  escravo,  o  momento  imediatamente  posterior,  em  que  se  dissolveu  a 

instituição monárquica e em que se instaurou o regime republicano foi de procurar esvaziar o 

sentido  daquela  luta.  De  fato,  como  aponta  Renata  Figueiredo  Moraes  em  trabalho  sobre  os 

usos  do  passado  na  construção  dos  símbolos  e  heróis  no  maio  de  1888,  os  próprios 

contemporâneos daquele ano pareciam imbuídos de um sentimento de que, finda aquela fase 



 

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turbulenta  da  história  nacional,  “todo  o  passado  deveria  ser  passado”,



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  sentimento  que  as 

elites republicanas iriam levar ao extremo após derrubarem o regime monárquico, ao procurar 

insistentemente  sepultar  as  idéias  de  pressão  e  participação  popular  que  a  campanha 

abolicionista  na  sua  fase  radical  parecia  sugerir,  fechando  com  seus  argumentos  do  racismo 

científico dirigidos contra a imensa população de origem africana e mestiça do país o círculo 

de uma república liberal e excludente. 

Já  os  anos  de  1930  representaram  um  ponto  de  inflexão  fundamental  na  história  do 

Brasil  do  século  XX.  Se  durante  as  primeiras  quatro  décadas  do  regime  republicano  o  povo 

das  ruas  somente  lograva  romper  as  barreiras  do  cenário  político  na  forma  de  sublevações e 

revoltas  dirigidas  contra  o  projeto  civilizador  da  República  Velha,  as  profundas 

transformações advindas com a tomada do poder por Getúlio Vargas pareciam prometer pela 

primeira vez a inclusão da classe trabalhadora no jogo político nacional, e a primeira fase da 

chamada “era Vargas”, analisada neste trabalho sob o ponto de vista das organizações negras 

do  estado  de  São  Paulo, mostrou-se  um  período de admirável  agitação  política  e  intelectual, 

onde  os  mais  diversos  setores  da  sociedade  brasileira  procuraram  reivindicar  seus  espaços  e 

fazer  valer  a  sua  importância.  Mais  do  que  isso,  a  década  de  1930  até  o  momento  da 

instauração da ditadura do Estado Novo foi um período onde se procurou redefinir o que era o 

Brasil  e  quem  eram  os  brasileiros,  e  embora  a  partir  de  1937  esse  esforço  de  construção  da 

identidade  nacional  tenha  se  tornado  prerrogativa  do  governo  autoritário  e  centralizador 

comandado pelo presidente Vargas, as idéias instigadas por aquele período tão efervescentes 

continuaram vivas e influenciando a sociedade brasileira nos anos seguintes. 

 

Seria  neste  ambiente  da  política  simultaneamente  conciliatória  e  autoritária  do 



Estado Novo que se passaria o cinqüentenário da abolição, embora se devam fazer ressalvas 

no sentido do perigo de se padecer de anacronismo ao analisar as comemorações utilizando a 

perspectiva  do  regime  que  havia  sido  instaurado  havia  poucos  meses.  De  fato,  o  que  se 

procurará investigar é em que medida a memória da campanha abolicionista ainda carregava 

as  idéias  que  haviam  se  enraizado  nos  primeiros  anos  do  regime  republicano,  resultado  de 

uma batalha pela memória daqueles acontecimentos que começou a ser travada imediatamente 

após  sua  conclusão.  A  imagem  do  abolicionismo  brasileiro  naquele  ano  de  1938  seria 

tributária  tanto  dos  esforços  da  intelectualidade conservadora  da  República  Velha  quanto  do 

                                                 

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 MORAES, Renata Figueiredo. A abolição da escravidão: história, memória e usos do passado na construção de 



símbolos e heróis no maio de 1888. In: SOIHET, Rachel et alMitos, projetos e práticas políticas: memória e 

historiografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. pp 97-98. 




 

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ambiente político e intelectual da década de 1930, tornando-se essencial compreender ambos 



os  contextos  do  ponto  de  vista  das  discussões  sobre  raça  e  cidadania  que  vinham  sendo 

desenvolvidas nos últimos cinqüenta anos. 

Por  fim,  o  cinqüentenário  da  abolição  será  analisado  pela  perspectiva  do  estado  de 

Santa  Catarina,  sob  a  ótica  da  sua  imprensa  e  aquela  que  na  década  de  1930  seria  a  sua 

principal  instituição  de  pesquisa,  coleta  e  sistematização  do  conhecimento  histórico,  o 

Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, utilizando também o ambiente do Instituto 

Histórico e  Geográfico Brasileiro  para contrapor  visões  e  esboçar  um  panorama  mais amplo 

das  imagens  e  representações  da  escravidão  e  do  abolicionismo  brasileiro,  cinqüenta  anos 

depois  da  lei  Áurea.  A opção  pela abordagem  dos  institutos  históricos  se justifica  por  terem 

sido eles os principais agentes de produção e sistematização da história pátria entre o final da 

monarquia e a década de trinta. 

O ponto de vista de um estado que em fins da década de 1930 se apresentava como 

muito mais branco em comparação com o resto do Brasil, onde a imigração européia logrou 

transformar  profundamente  o  panorama  demográfico  da  sociedade,  e  onde  a  escravidão  era 

vista  como  de  pouca  importância  no  desenvolvimento  econômico  da  região  é  extremamente 

valioso no sentido de dimensionar a forma com que a memória da instituição escravista e da 

sua  extinção  no  ano  de  1888  foi  tratada  por  aqueles  que  nos  cinqüenta  anos  anteriores 

produziram e divulgaram o conhecimento histórico. 

 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 






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