Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938


Figura 5: Frontispício da publicação do discurso de Heitor Blum, 1939.      Figura 6



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Figura 5: Frontispício da publicação do discurso de Heitor Blum, 1939. 

 

 



Figura 6: Frontispício da publicação do discurso de Renato Barbosa, 1940. 

 

 




 

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Figura 7: Volume da Revista do IHGB relativa ao ano de 1938. 

 

 




 

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5. Considerações finais 

 

Seria  imprudente  estender  para  o  restante  do  Brasil  as  conclusões  a  respeito  da 



maneira como as comemorações do cinqüentenário da abolição foram verificadas na imprensa 

catarinense  e  nos  Institutos  Históricos  e  Geográficos.  Sendo  Santa  Catarina  um  estado  com 

muitas  particularidades,  e  os  Institutos  organizações  comprometidas  com  a  produção  de  um 

tipo  específico  de  produção  histórica,  que  raramente  dialogavam  com  a  realidade  que  as 

circundavam, o trabalho de leitura e interpretação das fontes consultadas serve mais como um 

exame de uma perspectiva singular a respeito daqueles acontecimentos do que um indício que 

aponte para uma possível generalização da forma com que aquela data foi tratada em todo o 

país. 


Parece  evidente  que  em  outras  partes  do  Brasil  (e  mesmo  de  Santa  Catarina), 

comemorações  das  mais  diversas  devem  ter  sido  realizadas,  muitas  delas  inteiramente 

diferentes das passeatas cívicas, sessões solenes e discursos nos moldes que foram verificados 

nos capítulos anteriores. Nesse caso, remete-se à Wlamyra de Albuquerque, que aponta para o 

sincretismo das comemorações da independência na Salvador da primeira república, quando o 

povo  tomava  as  ruas  e  imprimia  seus  próprios  significados  para  os  símbolos  nacionais, 

causando a profunda exasperação das classes eruditas baianas. Não é de se duvidar que ações 

do  mesmo  tipo  tenham  ocorrido  no  Rio,  em  São  Paulo,  ou  qualquer  outra  cidade  do  Brasil 

com expressiva população de origem africana. 

A generalização que pode ser feita é apenas aquela que abarca as publicações e textos 

consultados,  onde  parece  evidente  que,  conforme  alertavam  Rui  Barbosa  e  Osório  Duque-

Estrada, a batalha travada durante os primeiros anos do regime republicano pela memória do 

movimento abolicionista foi perdida pelos herdeiros daquele movimento, a causa popular que 

agitou  a  nação,  cercou  os  políticos  e  fez  com  estes  capitulassem  com  assinatura  da  lei  de 

1888. 

Nos  discursos  e  resenhas  históricas  veiculados  naquele  mês  de  maio  de  1938, 



desapareceu  o  povo  das  ruas,  o  abolicionismo  radical,  as  fugas  e  retiradas  de  escravos  e  a 

convulsão  social  que  amedrontaram  os  políticos  conservadores  do  Império,  verificando-se  a 

institucionalização  de  uma  história  de  figuras  egrégias,  conduzindo  sozinhas  das  tribunas  e 

colunas de jornais um processo lento e seguro, essencialmente político, no sentido de liquidar 

com a escravidão do Brasil. 

Mais  do  que  uma  história  que  atropelava  alguns  fatos  enquanto  se  furtava  de 

mencionar outros, a visão do abolicionismo cinqüenta anos depois de ele ter ocorrido parecia 



 

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fundamentalmente  incapaz  de  dialogar  com  o  presente,  mesmo  sendo  um  presente  que 



propiciava  reflexões  a  respeito  da  participação  popular  na  política  nacional,  como  era  o 

contexto  da  década  de  1930.  Apesar  dos  grandes  esforços  de  redefinição da  nacionalidade e 

dos projetos políticos que permearam o panorama nacional nos anos seguintes à Revolução de 

30,  a  ocasião  do  cinqüentenário  da  abolição  não  foi  capaz  de  chamar  a  atenção  para  muitas 

das principais questões que pendiam a respeito de raça e cidadania, cinqüenta anos depois de 

1888. 


O motivo para esse esquecimento é difícil de ser explicado, pois o pós-abolição é um 

terreno arenoso para o historiador que pretenda traçar os caminhos percorridos pela população 

de  origem  africana  e  mestiça  no  Brasil  depois  do  fim  da  escravidão,  pois  num  espaço  de 

pouquíssimo tempo, essas populações absolutamente deixam de ser o foco das preocupações 

republicanas, já que para o novo regime, a escravidão e a abolição deveriam ser relegadas ao 

esquecimento. E se o tempo não passava rápido o suficiente para deixar bem clara distância, 

caberia à história e ao imaginário realizar essa tarefa. 

Tal é a interpretação de Lilia Schwarcz, que ao analisar as ambigüidades do processo 

abolicionista brasileiro é capaz de ao menos dar uma direção aos porquês desse esquecimento. 

Para  a  autora,  na  história  da  escravidão  brasileira,  o  fato  de  que  durante  tanto  tempo  a 

liberdade  ter  sido  negociada  no  foro  íntimo  das  relações  entre  senhores  e  escravos,  resultou 

numa  arraigada  percepção  de  que  todo  ato  de  receber  uma  “dádiva”  acarretaria  numa 

retribuição, o que na instituição escravista equivalia a um não-questionamento das hierarquias 

que regiam a sociedade da época. Embora o movimento abolicionista tenha sido de fato uma 

conquista das camadas populares e médias sobre uma classe política conservadora, a memória 

da  abolição  acabou  introjetando  essa  relação  de  dádiva,  recebimento  e  agradecimento, 

resultando numa imagem do fim do trabalho escravo como um “grande favor” prestado pelas 

classes ilustradas às vítimas da escravidão. Assim, 

 

De  tão  rotinizada,  a  libertação  como  que  não  existiu.  De  tão  tranqüila,  não 



deveria nem ao menos ser sentida. De tão naturalizada, parecia um desígnio 

dos céus. De tão inserida, passou rapidamente para a ordem do passado mais 

passado.  E  afinal,  que  espaço  sobra  para  a  população  que  foi  efetivamente 

libertada? Apenas uma grande e quase inominável falta.

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Nas comemorações do cinqüentenário da abolição, os “males da dádiva” cobraram um 

preço alto da memória daquelas populações que em 1888 haviam conquistado a sua liberdade. 

 

                                                 



164

 SCHWARCZ, Lilia Moritz. Dos males da dádiva: sobre as ambigüidades no processo da Abolição brasileira. 

In: CUNHA; GOMES (Org.), 2007. p. 51. 


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