Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938



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Apontamentos  para  a  história  da  abolição,  o  discurso  é  ligeiramente  maior  em  sua  forma 

impressa do que o de Blum porque ao contrário deste, Barbosa não se furta de esmiuçar todos 

os principais aspectos concernentes ao processo abolicionista brasileiro, incluindo mesmo os 

“suplícios e martírios” que Heitor Blum havia se recusado a tratar. A maneira com que o faz é 

através  de  uma  linguagem  de  grande  eloqüência,  da  qual  chegam  a  respingar  (pela  primeira 

vez  em  todos  os  textos  analisados  e  de  maneira  surpreendente)  críticas  à  classe  de 

latifundiários, que empedernidos, objetavam à libertação da sua força de trabalho: 

 

O esclavagismo, permitido, pelo prêço ínfimo do salário, em espécie, que se 



cifrava ao custo misérrimo da subalimentação, e nada mais, se fez o segredo 

que mantinha de pé a chamada aristocracia rural, montando guarda, vigilante 

e devoradora, à instituição anti-econômica do latifúndio, e perpetuada à sua 

sombra,  despida  da  visão  real  do  mundo,  e  sem  descerrar  olhos  ávidos  dos 

resultados  da  ganância,  círculo  acanhado  onde  morriam  as  empolgantes 

perspectivas da época...

158

 

 



No  entanto,  essa  inesperada  crítica  é  na  verdade  um  preâmbulo  para  incisivas 

reprovações  de  cunho  moral  àqueles  que  Barbosa  via  como  produtos  da  ganância  daquela 

aristocracia:  as  sinhazinhas  “supersticiosas”,  “indolentes”  e  “mal-instruídas”,  que  pela  vida 

“amena  e  fácil,  se  perdiam  pelos  ambientes  solarengos  das  fazendas  e  dos  engenhos”,  e 

principalmente (na verdade de maneira bastante gráfica) aos sinhozinhos, que sendo “filhos de 

pais enriquecidos pelo suor escravo”, 

 

[...]  chapinhavam,  pelos  eitos  e  senzalas,  no  imenso  lodaçal  das  bastardias, 



desvirginando  donzelas  negras,  sem  lei  e  sem  Deus,  como  se  triturassem, 

entre  dedos  longos  de  sangue  azul,  indefesas  flores  de  ébano;  ou,  nas 

capitais,  igualmente  inúteis,  se  entregavam  ao  desbragamento  e  à  orgias  de 

poderosos herdeiros de papás escravocratas.

159

 

 



Se  a  fez,  a  leitura  de  Casa  grande  &  senzala  absolutamente  não  convenceu  Renato 

Barbosa. O que se observa neste preâmbulo é como o autor salta de um parágrafo de críticas 

agudas aos defensores da escravidão, utilizando-se até de uma terminologia quase “marxista” 

para  outro  em  que  reprova  a  dissolução  moral  da  família  escravocrata.  Isso  se  explica  pelo 

teor  da  sua  explanação  sobre  os  anos  do  cativeiro,  na  qual  procura  constantemente  compor 

imagens vívidas, que impressionem seus ouvintes ou leitores. É o caso, por exemplo, de sua 

descrição da travessia do Atlântico quando o escravo, 

                                                 

158

 BARBOSA, Renato de Medeiros. Geração abolicionista. Florianópolis: IHGSC/IOESC, 1940. p. 7. 



159

 Idem, pp. 7-8. 




 

81

 



Preso,  tolhido  para  qualquer  movimento,  sob  a  pressão  de  cordas  ou  de 

algemas,  deixam-no  uns  dias  sem  comer,  para  que  se  lhe  quebrem,  com  a 

fraqueza  física,  os  últimos  resquícios  de  rebeldia  e  altivez.  Embarcam-no, 

depois,  num  exíguo  porão,  sem  ar,  sem  luz.  Um  sacerdote  católico,  nessa 

hora do embarque, vem aspergir água benta por sôbre a carga humana. Faz-

se mister que ela chegue, com ajuda de Deus, inteirinha ao seu destino.

160

 

 



Já sua resenha dos acontecimentos históricos relativos à escravidão no Brasil do século 

XIX  segue  o  mesmo  e  batido  percurso  de  uma  história  destinada  a  acontecer,  de  uma 

evolução  de  acontecimentos  conduzida  sob  a  influência  dos  “traços  morais”  do  povo 

brasileiro,  que  desde  sempre  viu  na  escravidão  uma  incompatibilidade  com  suas  elevadas 

aspirações  civilizatórias.  Mais  do  que  isso,  a  memória  abolicionista  que  ele  evoca  deixa 

pouquíssimo espaço para qualquer clamor popular que não seja conduzido por alguma grande 

figura política como Luiz Gama, José do Patrocínio ou Joaquim Nabuco. De certa forma, sua 

interpretação da história do abolicionismo brasileiro compõe-se da materialização de todos os 

receios anteriormente expressos por Rui Barbosa a respeito da tradição dos acontecimentos se 

“corromperem logo no nascedouro”. Há pouquíssimo espaço para o povo, para a rua, na fala 

de Renato Barbosa. 

A parte final de seu discurso - quando entra propriamente nos aspectos de Desterro à 

época da abolição - é bastante breve e extremamente peculiar. Sua fala replica a enumeração 

feita  por  Heitor  Blum  das  sociedades  beneméritas  que  batalharam  pela  alforria  dos  escravos 

desterrenses, das listas de cidadãos presentes nas reuniões festivas e bazares promovidos pela 

causa abolicionista e da exaltação das figuras eminentes da política da cidade que se bateram 

pelo emancipacionismo. 

No entanto, sua descrição da Desterro de fins do século XIX é saturada de carinho e 

saudosismo,  como  se  estivesse  falando  de  um  tempo  de  simplicidade  e  pureza,  que  mesmo 

perpassado pela instituição escravista ainda era digno de admiração: 

 

Destêrro da abolição... 



Êste salão, o tradicional Clube Doze de Agôsto, regorgitava de gente. 

Caleças estacionavam à frente do velho prédio. 

No  borborinho  amável  dêstes  salões,  a  tafularia  e  a  garridice  de  nossas 

moças  emprestavam  ao  ambiente  a  nota  encantadora  da  alta  elegância  da 

província. 

E, acompanhadas dos papás, vigilantes e energéticos, ou dos manos, graves e 

sisudos,  davam  entrada  nas  salas,  que  os  bicos  de  Auler  iluminavam,  as 

ligeiras figurinhas de seda, - breves bonequinhas da época da abolição...

161

 

 



                                                 

160


 BARBOSA, 1940, p. 11. 

161


 BARBOSA, 1940, p. 43. 


 

82

Esta  e  outras  passagens  perpassam  a  maior  parte  da  breve  explanação  de  Barbosa 



sobre  a  Desterro  abolicionista.  Mais  do  que  uma  explanação  histórica,  a  parte  final  de 

discurso  é  uma  espécie  de  “memória  sentimental”  da  época  da  abolição,  época  que  o 

pesquisador do Instituto não viveu, mas que via com enorme admiração, talvez em contraste 

com a flagrante modernização que nos últimos anos a cidade de Florianópolis vinha sofrendo, 

liquidando  com  os  resquícios  de  um  tempo  mais  tranqüilo  e  idílico,  que  povoava  a 

imaginação do orador naquele ano de 1938. 

 

Tomados  em  conjunto,  as  notícias  e  resenhas  históricas  publicadas  pelos  jornais  de 



Santa  Catarina,  e  as  conferências  realizadas  pelos  pesquisadores  dos  Institutos  Históricos  e 

Geográficos Brasileiro e Catarinense apresentam uma série de características que merecem ser 

enumeradas para delimitar com clareza a forma com que a história e a memória do 13 de maio 

de 1888 foram tratadas cinqüenta anos depois. 

Em primeiro lugar, em todos os textos fica clara a idéia de que a extinção do trabalho 

escravo  no  Brasil  foi  fruto  de  um  esforço  contínuo,  obrado  desde  o  início  da  história 

independente do país, perpassando que seus objetivos não foram tanto a transformação social, 

mas ultrapassagem de uma lamentável etapa da formação nacional, fruto das circunstâncias de 

ser o Brasil uma terra mundo grande, com muitas riquezas, demandando muitos braços para 

arrancá-las  do  solo,  cabendo  aos  africanos  escravizados  aquele  fardo.  Uma  vez  não  sendo 

mais  necessário  carregá-lo,  empenharam-se  as  forças  políticas  em  extinguir  a  ignomínia 

daquela instituição, dotadas que eram do esclarecimento necessário para resolver uma questão 

tão grave. 

Em  segundo  lugar,  as  duas  grandes  forças  que  se  antagonizaram  durante  toda  a 

segunda  metade  do  século  XIX,  mas  principalmente  a  partir  de  1871,  representadas  pelo 

parlamento composto por representantes de latifundiários francamente contrários à libertação 

dos  cativos  (e  na  melhor  das  hipóteses  timidamente  reformista)  de  um  lado,  e  a  população 

civil  de  todas  as  classes  sociais  que  se  empenharam  pela  causa  abolicionista  de  outro  são 

substituídas por construções muito mais simplistas: o embate que culminou com a vitória na 

forma  da  assinatura  da  lei  de  1888  foi  travado  por  um  panteão  de  figuras  iluminadas  como 

Rio Branco, Nabuco, Rui Barbosa e a princesa Isabel contra uma espécie de gênio deletério, 

aviltante e nocivo ao corpo da nação – a escravidão. 

Fica  evidente  em  todos  os  textos  e  discursos  que  a  memória  da  abolição  evocada 

naquele  ano  de  1938  carregava  profunda  influência  dos  últimos  cinqüenta  anos  de  história 

republicana, que conseguiu sob diversos aspectos “esvaziar” o sentido daquela luta. A história 



 

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do abolicionismo conforme verificado nas fontes não ultrapassa a soleira dos gabinetes e do 



parlamento,  não  comporta  o  peso  da  participação  popular  e  não  vê  qualquer  tipo  de 

antagonismo  ao  projeto  de  libertação  que  não  fosse  a  própria  resistência  incorpórea  da 

instituição escravista em si. Se em 1918 Osório Duque-Estrada afirmava categoricamente que 

“o  que  caracteriza  a  campanha  abolicionista  no  Brasil  é  exatamente  o  fato  de  ter  sido  ela 

transposta vitoriosamente das ruas para o parlamento, como uma imposição e uma conquista 

da imprensa e da tribuna popular”,

162

 o que se verificou naquele ano de 1938 foi exatamente o 



contrário: a representação da abolição como uma conquista do parlamento dada “de presente” 

às ruas. 

Por último, um aspecto importante comum a todos os textos analisados anteriormente 

é a forma com que se esquivam de sequer tentar percorrer o trajeto dos descendentes daquela 

população que havia recebido sua liberdade em 1888. No pesado clima político dos primeiros 

meses  do  Estado  Novo,  talvez  fosse  esperar  demais  que  os  intelectuais  e  pesquisadores  da 

época realizassem uma crítica mais incisiva sobre a desigualdade social que era um resultado 

indiscutível  do  processo  de  marginalização  social  ao  qual  foram  sujeitas  as  populações  de 

origem  africana  nos  últimos  cinqüenta  anos  da  história  do  Brasil.  Mas  seu  silêncio  quase 

absoluto  nesse  sentido  é  um  indício  inconteste  de  que  apesar  da  crescente  importância  dada 

aos  aspectos  culturais  da  herança  africana  e  a  mudança  do  pensamento  racial  passando  a 

valorizar  a  mestiçagem,  essas  idéias  ainda  transitavam  somente  nas  discussões  teóricas  de 

feições culturalistas, antropológicas e folclóricas de pensadores como Gilberto Freyre. 

Diz-se silêncio quase absoluto porque um único artigo de opinião, de autoria de Nereu 

Correia de Sousa, publicado no jornal A Gazeta de Florianópolis no próprio dia 13 de maio de 

1938,  tocou  no  espinhoso  assunto  dos  resultados  da  abolição  da  escravidão  na  sociedade 

brasileira de fins do século XIX, bem como sua relação com a realidade atual. 

À  época  um  jovem  escritor  e  jornalista,  Nereu  Correia  iria  mais  tarde  se  tornar 

presidente e um dos membros mais ilustres do IHGSC, publicando volumes de ensaios sobre 

temas  os  mais  variados,  indo  desde  filosofia  política,  linguagem  e  estilística,  até  crítica 

literária, debruçando-se sobre obras de Cruz e Sousa, Cassiano Ricardo e Euclides da Cunha. 

Seu artigo é um dos mais longos verificados nos jornais de Santa Catarina porque ao 

contrário  da  tradição  das  outras  resenhas  históricas  consultadas,  o  autor  procura  deixar  bem 

claro  seu  domínio  inconcusso  do  assunto,  realizando  uma  síntese  histórica  não  somente  das 

grandes  efemérides  nacionais  que  concorreram  para  o  fim  da  escravidão,  mas  também 

                                                 

162

 DUQUE-ESTRADA, 1918, p. 49. 




 

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mundiais, chegando a ser bastante incongruente pela maneira com que procura ligar processos 



históricos  inteiramente  distintos  que  teriam  contribuído  para  a  erradicação  da  escravidão  ao 

longo das idades moderna e contemporânea, indo desde a Revolução Francesa, passando pelo 

Congresso  de  Viena,  a  tomada  de  Constantinopla  pelos  turcos  (exatamente  nessa  ordem  um 

tanto sem nexo) e a libertação dos escravos na Inglaterra, na Suécia e na França. 

Mas isso é apenas um preâmbulo para suas conclusões sobre os resultados da abolição 

no Brasil, pois depois dos louvores de praxe aos políticos abolicionistas ilustres, ele conclui: 

 

E’ sabido, que de quantos atentaram para os resultados dessa eversão social 



no  Brasil,  os  prejuisos  que  acarretou  ao  país,  econômico  e  socialmente,  a 

abolição  da  escravatura.  A  sociedade  brasileira  do  século  passado  não  se 

achava  suficientemente  preparada  para  receber  cêrca  de  dois  milhões  de 

escravos, constituidos de gente inativa e inculta. E, por isso, os efeitos dessa 

dispersão  foram,  não  se  póde  negar,  desastrósos.  Sem  uma  preparação 

antecipada  para  enfrentar,  sosinho,  os  destinos  que  lhe  outorgava  a  lei  da 

Princesa  Imperial,  o  negro,  entregue  a  si  mesmo,  abandonou  o  eito  e  as 

senzalas e dispersou-se, em massa, pelas cidades litoraneas, acoitando-se nos 

morros  e  nos  subúrbios,  especialmente  no  Rio  de  Janeiro,  onde  vive,  até 

hoje, na maior promiscuidade e parasitarismo.

163

 

 



Após  o  caminho  percorrido  até  aqui,  torna-se  quase  desnecessário  esmiuçar  os 

argumentos de Nereu Correia de Sousa sobre a abolição e seus resultados, pois ele emula em 

seqüência  as  razões  contrárias  à  libertação  alegadas  pelos  parlamentares  do  império 

comprometidos  com  o  escravismo,  passando  pelas  desilusões  republicanas  com  a  gente 

“inativa  e  inculta”  que  passou  a  representar  a  sociedade  brasileira,  concluindo  com  uma 

intensa  frustração  perante  o  panorama  da  sociedade  atual,  imbuído  de  um  profundo 

preconceito de classe. 

Atesta-se,  enfim,  que  embora  a  trajetória  dos  últimos  cinqüenta  anos  desde  o  13  de 

maio de 1888 tenha visto muitas mudanças de pensamento, reformulações de teorias raciais, 

mudanças de regime político e transformações econômicas e sociais no Brasil, algumas idéias 

ainda permaneceram profundamente enraizadas no imaginário da intelligentsia nacional. 

 

 



                                                 

163


 SOUSA, Nereu Correia de. A abolição da escravatura através da idade contemporanea. A Gazeta

Florianópolis. 13 de mai. 1938. p.6 



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