Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938


História, , n° 2, pp. 5-15. Florianópolis, 1994. p. 8.  152  BLUM, Heitor. A campanha abolicionista na antiga Destêrro



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História, , n° 2, pp. 5-15. Florianópolis, 1994. p. 8. 

152


 BLUM, Heitor. A campanha abolicionista na antiga Destêrro. Florianópolis: IHGSC/IOESC, 1939. p. 6. 

153


 Idem, p. 7. 


 

78

Sua  análise  dos  acontecimentos  que  antecederam  a  libertação  total  de  1888  em 



Desterro é de fato uma história de abolicionistas, jamais de escravos ou libertos, ou mesmo do 

lugar social que estes ocupavam na sociedade da época. São como sombras, ou o alvo da idéia 

fixa  dos  abolicionistas  que  campeavam  pelo estado,  compondo  um  texto em  certos  aspectos 

bastante similar ao de Feijó Bittencourt. 

Em  sua  análise  sobre  o  negro  na  historiografia  de  Santa  Catarina,  Patrícia  de  Freitas 

afirma a respeito do seu discurso, que ao deixar a escravidão de lado, Heitor Blum “retirou o 

tema  do  tempo,  deixando  a  cargo  da  literatura  e  da  imaginação  este  regime,  criando  um 

afastamento ilusório”.

154

 De fato o texto de Blum nada faz para esclarecer qualquer aspecto da 



abolição  ou  da  escravidão  na  Desterro  de  fins  do  século  XIX,  deixando  a  sua  interpretação 

inteiramente centrada na sucessão de eventos tramados pelos emancipacionistas da cidade. O 

que  surpreende  em  seu  texto,  no  entanto,  é  que  este  é  pontilhado  por  uma  significativa 

quantidade de dados relativos a manumissões e alforrias de escravos em Desterro e nas vilas 

circundantes,  prova  de  que  o  historiador  catarinense  realmente  entrou  em  contato  com 

documentos,  mesmo  que  fosse  somente  para  elencá-los.  É  desta  forma  que  situando  o 

abolicionismo brasileiro em Santa Catarina, ele é capaz de afirmar que 

 

Em  nossa  Província,  esse  movimento  nacional  se  processou  lentamente  a 



principio,  e  assim  foi  que,  em  onze  anos,  de  1872  a  1882,  foram 

manumitidos  apenas  518  escravos,  sendo  a  maior  proporção  a  de  11%,  em 

1880,  relação  ao número de  cativos, matriculados na  Província,  no referido 

período. 

Aos poucos, foi esse movimento tomando corpo, engrossando  as fileiras do 

pequeno  número  de  combatentes  com  novas  adesões,  até  que,  em  1883,  no 

dia 10 de Junho, neste mesmo salão onde nos encontramos, por iniciativa do 

Secretário do Governo Procvincial, o cearense Dr. João Lopes Ferreira Filho, 

fundou-se  a  primeira  agremiação  abolicionista,  que  tomou  o  nome  de 

“Sociedade Abolicionista do Desterro”[...]

155

 

 



Heitor  Blum  mostra  uma  predileção  especial  ao  longo  do  seu  discurso  por  clubes, 

comícios  e  reuniões,  quando  aproveita  para  desfilar  listas  de  sócios,  membros  fundadores  e 

diretorias das efêmeras sociedades abolicionistas que vicejaram na cidade naquela década de 

1880,  além  de  citar  freqüentemente  proprietários  que  realizavam  alforrias  públicas,  sempre 

mencionando o número de cativos que  eram libertados. Perto de seu final, a leitura do texto 

torna-se imensamente tediosa, pois não passa da simples enumeração de quoruns de reuniões 

e  bazares  beneficentes  pela  alforria,  listas  intermináveis  de  nomes  de  pessoas  cuja 

                                                 

154

 FREITAS, Patrícia de. Margem da palavra, silêncio do número: o negro na historiografia de Santa 



Catarina. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-

Graduação em História, 2005. p. 68. 

155

 BLUM, 1939, pp. 11-12. 




 

79

participação efetiva no movimento abolicionista de Desterro é bastante questionável. Mesmo 



assim, entre  páginas  inteiras  de  nomes,  o  autor  continua  a  desfilar  dados  e  números  de  suas 

pesquisas,  confiando  pesadamente  no  Jornal  do  Comércio,  cujas  tabelas  informando  a 

quantidade de matrículas e manumissões relativas à cada ano são reproduzidas na íntegra. 

Para Heitor Blum, o ponto alto da campanha abolicionista em Desterro foi a fundação 

em  1887  da  “Sociedade  Carnavalesca  Diabo  à  Quatro”,  capitaneada  pelo  Coronel  Germano 

Wendhausen,  personagem  desterrense  que  Blum  havia  perfilado  longamente  no  dia  13  de 

maio  nas  páginas  do  jornal  O  Estado,  destacando  sua  ascendência  européia,  seu  casamento, 

suas  relações  pessoais,  empreendimentos  comerciais  e  sucessos  e  infortúnios  políticos 

(alinhou-se ao Partido Federalista após a proclamação da República, tomou parte das lutas de 

1893-1894 e  chegou  a  ser  preso  pelo  governo  do  Marechal Floriano  após  o  fim  da  revolta). 

Além  disso,  mencionou  também  naquela  ocasião  uma  lista  de  “abnegados  patrícios”  que 

lutaram ao lado do Coronel pela campanha abolicionista, entre os quais se destacam Horácio 

Nunes Pires e Gustavo Richard.

156


 

Através de um bando precatório organizado por Wendhausen, que percorreu a cidade 

em diversas ocasiões naquele ano de 1887 buscando doações para a compra de alforrias, a S. 

C. Diabo à Quatro alcançou a 2 de fevereiro de 1888 que lhes fossem entregues pela Câmara 

Municipal 42 cartas de liberdade. A partir daí, precipitam-se os eventos, e pouco mais de um 

mês  depois,  a  25  de  março,  os  últimos  escravos  de  Desterro  recebem  suas  alforrias.  Heitor 

Blum  finaliza  seu  texto  com  uma  enlevada  exaltação  àquelas  que  considera  as  três  grandes 

figuras da emancipação na capital da província: Germano Wendhausen, Manoel Bittencourt e 

José  Henriques  Paiva,  indivíduos  da  mais  exemplar  abnegação,  “dispostos  a  todos  os 

sacrifícios, não medindo fadigas nem desconfortos, abandonando o convívio das famílias e os 

interesses de suas profissões” para alcançar seus objetivos.

157


 

O  discurso  de  Heitor  Blum  percorre,  enfim,  um  caminho  familiar  de  exaltação  das 

figuras brancas, altruístas e ilustradas que encetaram esforços sem medida para acabar com o 

sofrimento dos escravos. Sua diferença fundamental é no deslocamento de espaço, deixando 

de lado os grandes acontecimentos do âmbito nacional para relatar (e acima de tudo valorizar) 

a  história  de  Santa  Catarina  e  das  suas  figuras  políticas,  de  acordo  com  proposta  defendida 

pelo  IHGSC  desde  a  sua  fundação,  além  de  se  mostrar  um  pesquisador  dedicado,  conforme 

atestam os dados nos quais se ampara. 

 

                                                 



156

 A DATA da Abolição. O Estado, Florianópolis, 13 de mai. 1938, p. 8 

157

 BLUM, 1939, p. 38-39. 



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