Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938


 Os institutos históricos e geográficos e a memória da abolição



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4. Os institutos históricos e geográficos e a memória da abolição. 

 

Pioneiro  do  seu  gênero  no  Brasil,  e  uma  das  primeiras  organizações  científicas  cuja 



criação  estava  voltada  exclusivamente  para  a  pesquisa  e  divulgação  da  história  nacional,  o 

Instituto  Histórico  e  Geográfico  Brasileiro  era,  em  1938,  uma  instituição  quase  centenária. 

Fundado  em  1838  por  figuras  de  destaque  na  hierarquia  do  governo  Imperial,  seu  principal 

objetivo  era,  nas  palavras  de  Lilia  Schwarcz,  “construir  uma  história  da  nação,  recriar  um 

passado,  solidificar  mitos  de  fundação,  ordenar  fatos  buscando  homogeneidades  em 

personagens  e  eventos  até  então  dispersos”.

122

  Fortemente  amparado  pelo  estado  imperial  a 



ponto  de  do  próprio  monarca  ter  se  tornado  seu  patrono,  presidido  por  membros  da 

aristocracia carioca e freqüentado por literatos como Gonçalves Dias, Francisco de Varnhagen 

e  Visconde  de  Taunay,  o  IHGB  foi  ao  longo  do  século  XIX  um  verdadeiro  fundador  da 

historia nacional, uma organização cuja estreita vinculação ao governo que lhe deu origem e 

suporte  a  tornou,  em  última  instância,  “um  estabelecimento  voltado  para  uma  produção 

unificadora e estreitamente vinculada à interpretação oficial, fosse ela qual fosse”.

123

 

Dentro  do  IHGB,  a  preocupação  com  interpretações  históricas  que  necessariamente 



incluíssem a especificidade da formação étnica do país já podia ser observada em 1844, num 

concurso  promovido  pelo  Instituto  cujo  objetivo  era  premiar  o  melhor  projeto  sobre  “como 

escrever  a  história  do  Brasil”,  vencido  pelo  naturalista  alemão  Phillip  Von  Martius,  cuja 

proposta era uma procurar “correlacionar o desenvolvimento do país com o aperfeiçoamento 

específico  das  três  raças  que  o  compunham”.

124


  Na  visão  de  Martius  –  que  tenderia  a  ser 

periodicamente reciclada ao longo do restante do século XIX – existiria uma hierarquia entre 

as  raças  que  constituíram  o  Brasil:  ao  branco  caberia  o  papel  civilizador,  ao  indígena  (em 

conformidade com os ideais românticos da época) a necessidade de recuperar sua “dignidade 

original” vilipendiada pelo processo de colonização até alcançar o mesmo status civilizatório 

do  branco,  enquanto  o  africano  era  visto  como  eternamente  inadaptável  e  um  entrave  ao 

progresso nacional. A partir da República, as interpretações brasileiras do determinismo racial 

europeu  encontraram  no  instituto  a  mesma  acolhida  que  tiveram  nos  círculos  médicos  e 

literários  do  país,  e  a  produção  intelectual  da  instituição  também  passou  a  ver  os  afro-

brasileiros  e  a  escravidão  como  grande  “fator  de  atraso  na  civilização”,  enquanto  a 

                                                 

122


 SCHWARCZ, 1993. p. 99. 

123


 Idem, p. 108. 

124


 Idem, p. 112. 


 

62

miscigenação trilhou o caminho característico de ser vista primeiro como um problema para 



depois se tornar a solução. 

Editada a partir de 1839, a revista do instituto foi o veículo oficial de divulgação das 

pesquisas dos seus sócios e colaboradores. Na passagem do Império para a República o tipo 

de  história  abordada  pelos  artigos  publicados  na  revista  sofreu  uma  nítida  inflexão:  se  entre 

1839 e 1889 versavam basicamente sobre aspectos políticos e religiosos da história nacional, 

entre 1890 e 1938 tornaram-se mais centrados em aspectos econômicos e sociais do país. 

Em seu volume de número 173, referente ao ano de 1938, a revista do Instituto não se 

furtou de celebrar a data do cinqüentenário. Mas a maneira com que a fez não foi de acordo 

com  a  tendência  de  anos  anteriores,  sob  a  ótica  de  um  estudo  social  ou  econômico  da 

escravidão e da abolição. Do contrário, o que se desvela nas páginas da publicação, na forma 

da  apresentação  da  ata  da  reunião  ocorrida  no  dia  12  de  maio  de  1938,  é  uma  narrativa  da 

história política do movimento abolicionista. Em conformidade com as tendências históricas 

do  instituto  de  imortalizar  grandes  eventos e  grandes  personalidades  da  história  do Brasil,  o 

discurso replicado na revista, proferido naquela sessão comemorativa do cinqüentenário pelo 

político  e  historiador  carioca  Antônio  Feijó  Bittencourt  tratou  realmente  de  uma  história  de 

grandes  políticos,  oradores,  intelectuais  e  aristocratas.  No  entanto,  contou  com  duas 

diferenças  cabais  em  relação  às  publicações  sobre  a  história  da  escravidão  e  da  abolição 

verificadas  nos  jornais  e  revistas  discutidos  no  capítulo  anterior,  onde  os  grandes  vultos 

nacionais  deixavam  pouco  espaço  para  as  outras  forças  que  impulsionaram  o  fim  da 

escravidão  no  Brasil.  No  discurso,  embora  muito  veladas,  existem  menções  de  que  o 

movimento emancipacionista (especialmente em suas fases finais) teve um caráter realmente 

amplo  e  popular  e,  além  disso,  as  figuras  públicas  insignes  do  abolicionismo,  embora 

apareçam  e  sejam  pintadas  com  as  tintas  heróicas  de  costume,  são  apresentadas  não  como 

forças  isoladas,  mas  como  integrantes  de  um  grande  jogo  político  que  agitou  e  dividiu  a 

nação. 

É impossível, no entanto, analisar o discurso de Bittencourt sem levar em consideração 

algumas  opiniões  valiosas  sobre  o  processo  abolicionista  emitidas  por  um  de  seus  mais 

famosos  contemporâneos.  Militante  enérgico  da  fase  final  do  abolicionismo,  o  político  e 

estadista  baiano  Rui  Barbosa  revelou-se  nos  anos  finais  de  sua  atuação  pública  um  crítico 

arguto  do  legado  que  ele  próprio  havia  ajudado  a  construir.  Embora  muito  de  sua  retórica 

estivesse relacionada a aspirações eleitorais, não é possível dissociá-la de um esforço legítimo 

em  interpretar  os  problemas  sociais  da  primeira  república.  É  assim  que  em  artigo  de  1919, 

intitulado A questão social e política no Brasil, Barbosa expressa sua profunda decepção para 



 

63

com  a  maneira  com  que  sucessivos  governos  esquivaram-se  de  “completar”  a  tarefa  da 



libertação: 

 

Mas  que  fizeram  dos  restos  da  raça  resgatada  os  que  lhe  haviam  sugado  a 



existência  em  séculos  da  mais  ímproba  opressão?  [...]  Que  movimento  de 

caridade tiveram por esses destroços  humanos os  árbitros do bem  e do  mal 

nesta terra? 

[...] Cumpria às leis nacionais acudir-lhe na degradação, em que tendia a ser 

consumida,  e  se  extinguir,  se  lhe  não  valessem.  Valeram-lhe?  Não. 

Deixaram-na  estiolar  nas  senzalas,  de  onde  se  ausentara  o  interesse  dos 

senhores  pela  sua  antiga  mercadoria,  pelo  seu  gado  humano  de  outrora. 

Executada  assim,  a  abolição  era  uma  ironia  atroz.  Dar  liberdade  ao  negro, 

desinteressando-se, como se desinteressaram absolutamente da sua sorte, não 

vinha a ser mais do que alforriar os senhores.

125

 

 



Embora  seja  um  discurso  de  cunho  político  e  de  oposição  a  uma  república  que  via 

como  corrupta  e  inepta  para  lidar  com  os  problemas  sociais  do  país,  a  argumentação  do 

conselheiro  era  mesmo  assim  coerente  com  sua  visão  histórica  do  movimento  no  qual  se 

engajou.  Barbosa  via  a  abolição  como  uma  revolução,  mas  uma  revolução  inacabada,  que  a 

república tratou de sepultar. O próprio movimento abolicionista era visto com ressentimento 

pelo político baiano, já que não tinha sequer tentado concluir sua obra: 

 

Era  uma  segunda  emancipação  o  que  se  teria  de  empreender,  se  o 



abolicionismo  houvera  sobrevivido  à  sua  obra,  para  batizar  a  raça  libertada 

nas fontes da civilização. Mas o abolicionismo degenerara da independência 

das suas origens, adotando o culto da princesa redentora, os cabeças da causa 

vencedora adormeceram nos seus lauréis, e a república, reacionária desde o 

seu  começo,  desde  o  seu  começo  imersa  no  egoísmo  da  política  do  poder 

pelo poder, traidora desde o seu começo aos seus compromissos, tinha muito 

em  que  ocupar  a  sua  gente,  para  ir  desperdiçar  o  tempo  com  assuntos 

sociais.


126

 

 



As  palavras  de  Barbosa  em  1919  são  reveladoras,  mas  não  são  as  melhores  para  se 

traçar  um  paralelo  entre  a  forma  com  que  um  contemporâneo  dos  acontecimentos  de  1888 

enxergava a história, e de como lamentava que a memória dos acontecimentos estivesse sendo 

talvez modificada e resumida a um “culto”, e a maneira com que esta memória estava sendo 

representada no 13 de maio de 1938. 

Um  ano  antes  do  artigo  supramencionado,  em  1918,  Rui  Barbosa  foi  convidado  por 

Osório  Duque-Estrada  a  escrever  o  prefácio  de  A  Abolição,  esboço  histórico  escrito  pelo 

crítico  literário  e  ensaísta  fluminense  em  1913,  e  publicado  exatamente  trinta  anos  após  a 

                                                 

125


 BARBOSA, Rui. Pensamento e ação; Organização e seleção de textos pela Fundação Casa de Rui Barbosa. 

Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 1999. pp. 375-376. 

126

 Idem, p. 376. 




 

64

abolição. Neste prefácio, Barbosa põe sua posição de testemunha ocular dos acontecimentos 



daquela década de 1880 a serviço de um importante esclarecimento a respeito de quais foram 

as forças  sociais  que  realmente  precipitaram  o fim  da escravidão  legal  no  Brasil.  A  maneira 

com que o faz é atribuindo aos dois grandes acontecimentos da política brasileira no fim do 

século  XIX  –  a  abolição  da  escravidão  e  a  proclamação  da  república  -  o  caráter  de 

“revoluções”, com o intuito de contrastá-las. O movimento republicano, para Rui Barbosa 

 

A  nação  acceitou-o.  Mas  não  era  seu.  Não  havia  sido  elaborado  por  ella 



mesma. Não lhe derivava das entranhas, como o abolicionismo, que evolveu 

com  exuberância  irresistível  do  seio  do  povo,  do  âmago  da  sociedade 

brasileira,  do  enthusiasmo  nacional  em  conflicto  com  as  tres  unicas  forças 

então  organizadas  no  paiz:  a  riqueza  territorial,  a  política  conservadora  e  a 

corôa. 

[...]  Os  partidos,  arrastados  pela  caudal  abolicionista,  desde  que  aspiração 

que  ella  exprimia  se  pronunciou  declaradamente  no  terreno  dos  factos,  não 

representaram, no desdobrar dos acontecimentos, senão um papel subalterno, 

constrangido  e  impotente  contra  a  marcha  torrencial  das  idéias,  que  se 

apoderou  dos  espiritos,  inflammou  o  povo,  invadiu  o  elemento  militar, 

promoveu  o  êxodo  irreprimivel  dos  escravos,  e  arrancou  ao  trono  a 

capitulação, que elle envidava todos os meios por illudir e retardar.

127

 

 



Barbosa toca, enfim, num ponto crucial: já cético, em 1918, de um “meio moral” que 

por conseqüência das “tendências do nosso temperamento” e dos “vícios da nossa educação” 

se  mostrava  “extremamente  desfavorável  à  preservação  da  verdade”  e  onde  “a  tradição  dos 

acontecimentos  corrompe-se  logo  ao  nascedouro”,

128

  ele  antecipou  em  duas  décadas  as 



tendências  que  seriam  seguidas  nas  comemorações  do  cinqüentenário,  do  esquecimento  das 

feições  essencialmente  populares  da  emancipação  até  o  estabelecimento  de  uma  memória 

magnânima centrada no “ato redentor” da Princesa Isabel. 

Seus  sentimentos  eram  invariavelmente  compartilhados  pelo  autor  da  obra  que 

prefaciou. Na introdução do seu esboço histórico, Duque-Estrada explicita que o objetivo de 

sua pesquisa era uma “decantação” das concepções sobre o abolicionismo brasileiro, que nos 

últimos  anos  da  república  vinham  acumulando  falsificações  e  usurpações,  construindo  uma 

memória de “heróis de fancaria” e “adesistas de última hora”. Para ele, 

 

Os  factos,  os  documentos  e  o  testemunho  dos  archivos  hão  de  depôr  com 



mais eloquencia e mais circumspectamente que as palavras, para reconduzir 

ao  plano  inferior  de  onde  nunca  deviam  ter  sahido,  as  figuras  apagadas,  e, 

antes,  reactoras,  dos  estadistas  e  dos  principes,  que  a  solidariedade 

congregou  no  momento  da  capitulação  extorquida  pelo  povo,  pretendendo 

                                                 

127


 BARBOSA, Rui. In: DUQUE-ESTRADA, Osório. A Abolição (esboço histórico) 1831-1888. Rio de Janeiro: 

Livraria Editora Leite Ribeiro & Maurillo, 1918. pp. IX-X. 

128

 Idem, p. V. 




 

65

metamorphoseal-os  irrisoriamente  em  heróes  e  pioneiros  daquella  santa 



cruzada.

129


 

 

Como  se  pode  concluir  pelas  evidências  das  versões  históricas  apresentadas  pelos 



jornais em 1938, centradas numa história pátria de grandes figuras políticas capitaneando um 

processo irrevogável de libertação e pelas festividades organizadas pelo governo Vargas, onde 

a  efeméride  da  abolição  serve  como  um  subterfúgio  para  celebrações  cívicas  monumentais 

que  amalgamassem  o  povo  e  o  governo,  as  preocupações  de  Rui  Barbosa  e  Osório  Duque-

Estrada eram plenamente justificáveis. 

 

Foi nesse contexto que IHGB trilhou um caminho peculiar na sua celebração do 13 de 



maio.  Reunido  em  sessão  ordinária  em  12  de  maio  de  1938,  sob  a  presidência  de  Manuel 

Cícero Peregrino da Silva, com um quorum de 24 membros, entre os quais figuravam Barbosa 

Lima Sobrinho (recém-eleito para a Academia Brasileira de Letras), o historiador baiano Brás 

do Amaral (contemporâneo de Nina Rodrigues e apoiador de sua obra) e o diplomata mineiro 

Hélio Lobo, também veterano imortal da ABL, além da presença ilustre do príncipe herdeiro 

D.  Pedro  de  Orleans,  que  no  início  daquela  década  havia  retornado  ao  Brasil,  o  Instituto  se 

punha a relembrar o cinqüentenário. 

Abertos  os  trabalhos  por  Manuel  Cícero,  num  breve  prólogo  no  qual  evoca  a 

importância  da  data  para  a  história  nacional,  alude  à  brava  atuação  de  seus  grandes  líderes 

Patrocínio e Nabuco e lamenta a ausência por motivos de saúde do Conde de Affonso Celso, 

membro do Instituto e um dos últimos signatários vivos das leis emancipacionistas de 1885 e 

1888, passou então a palavra a Feijó Bittencourt, que iniciou sua conferência sobre a história 

da abolição. 

Dividido em capítulos que percorrem de mesma maneira que os demais textos sobre a 

história da escravidão analisados anteriormente as etapas da extinção do trabalho escravo no 

Brasil, o discurso de Bittencourt não difere muito daqueles em sua estrutura e nos principais 

tópicos  que  aborda.  Sua  grande  diferença  é  a  patente  erudição  com  que  discorre  sobre  a 

história  do  Brasil  no  século  XIX,  apresentando  uma  quantidade  muito  maior  e  mais 

diversificada de informações, como não se poderia deixar de esperar de um pesquisador bem 

versado  em  história  do Brasil.  Assim,  expõe  por  exemplo as inúmeras  vozes  que  mesmo  no 

início  da  história  independente  do  país  defendiam  o  fim  do  trabalho  escravo,  como  o 

“magistrado  Velloso  de  Oliveira”  em  1810,  “José  Severiano  Maciel  da  Costa,  marquês  de 

Queluz” em 1821, o “visconde da Pedra Branca” em 1822, até chegar a Bonifácio em 1825, 

                                                 

129

 DUQUE-ESTRADA, 1918, p. 9. 




 

66

passando então a enumerar as sucessivas datas de projetos de leis ou decretos junto aos seus 



idealizadores  de  1831  a  1888,  agrupando  propostas  distintas  formuladas  em  momentos 

distintos da história nacional, e jamais tocando de maneira incisiva na obstinada oposição ao 

fim do trabalho escravo, que foi uma das principais forças políticas no Brasil do século XIX – 

senão a maior delas. 

Para  Bittencourt,  a  abolição  da escravatura  “foi  uma  questão  moral,  foi  uma  questão 

social, e também uma questão política”

130

, e a enumeração que este faz dos grandes episódios 



que a partir de 1831 começaram a precipitar a emancipação no Brasil se presta exatamente a 

dar a dimensão de cada um destes aspectos. 

No  âmbito  da  “questão  moral”,  a  necessidade  da  abolição  se  apresenta  sob  uma 

espécie  de  lento  despertar,  principiado  nos  primeiros  anos  da  história  independente  do  país, 

conforme  já  havia  mencionado.  Seria  uma  tomada  de  consciência  à  qual  estavam 

predestinadas  tanto  as  elites  políticas  brasileiras  quanto  o  restante  dos  seus  cidadãos,  que 

tendo  testemunhado  durante  séculos  a  ignomínia  da  escravidão,  acharam-na  logo 

incompatível  com  os  destinos  de  civilidade  e  grandeza  que  a  nação  independente  aspirava 

para si. 

Desta forma, traçando a gênese da emancipação na tradicional maneira de reportar até 

as  pressões  britânicas  da  primeira  metade  do  século  XIX,  o  autor  faz  o  contraste  entre  as 

legislações  de  1831  e  1850  com  a  de  1871.  Assim,  se  na  década  de  1830  o  governo  não  se 

preocupou  em  fazer  cumprir  a  proibição  do  tráfico  acordada  em  tratado  com  os  ingleses,  o 

que  resultou  na  Bill  Aberdeen  e na campanha  encetada  pelas embarcações  inglesas  contra  o 

tráfico  atlântico  de  escravos,  a  reação  do  parlamento  brasileiro  em  1850  foi  realizar  a 

“redenção”  de  1831  - mas  tão  somente  em  razão  da  pressão  irresistível  da  Grã-Bretanha em 

liquidar o “comércio humano”. 

A lei do ventre-livre, ao contrário, é pintada como um triunfo da razão, uma iniciativa 

pessoal  do  Imperador,  que  arriscou  sua  reputação  e  fez  valer  o  seu  poder  em  meio  ao 

torvelinho  político  da  legislatura  imperial,  buscando  o  apoio  de  sucessivos  líderes  até 

encontrar  na  figura  de  Rio  Branco  o  personagem  ideal  para  obrar  aquela  eminente  peça 

legislativa. Dessa maneira, 

 

A abolição do tráfico é deliberação tomada pelo Brasil que cedia aos golpes 



dados  pela  Inglaterra.  Porém  a  lei  do  ventre  livre,  que  fixaria  um  termo 

inevitável  à  escravidão,  é  imposta  pelo  Imperador  e  resulta  da  sua  atitude 

                                                 

130


 Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. V. 173, 1938. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 

1940. 



 

67

significativa  nas  vésperas  de  fazer  a  sua  primeira  viagem  à  Europa;  seria 



portanto o ato que recomendaria o monarca sul-americano ao Velho Mundo. 

Comparadas,  entretanto,  as  duas  situações,  aquela  em  que  se  proibiu  o 

tráfico  com  esta,  em  que  se  proclama  o  ventre  livre,  encontro  mais  atitude 

moral  na  segunda  e  tudo  o  que  diz  respeito  vem  confirmar  as  razões 

superiores  que  moveram  d.  Pedro  II  a  promover  a  medida  que  libertou  os 

filhos dos escravos.

131

 

 



Entra  pois  a  figura  de  Dom  Pedro  II,  até  então  apagada  nas  menções  a  respeito  do 

processo  abolicionista,  e  o  monarca  brasileiro  na  fala  de  Feijó  Bittencourt  aparece  como  a 

primeira (e maior) das figuras de primeira grandeza a se bater pelo fim do trabalho escravo no 

Brasil, num impulso que é fruto de sua conceituada ilustração, mas também da vontade de ver 

seu nome recomendado quando visitasse o Velho Mundo. 

A  moralidade  volta  a  ser  um  tema  chave  em  seu  discurso  quando  se  põe  a  falar  a 

respeito de Joaquim Nabuco, visto como a grande força motora do abolicionismo em sua fase 

final, principiando com sua atuação na Câmara entre os anos de 1878 e 1881. Mais do que o 

político  dos  discursos  inflamados  e  da  insistência  em  tocar  na  ferida  do  escravismo,  o  que 

cumpre notar a respeito de Nabuco é sua transformação moral. Antes, era um aristocrata que 

entrou na política tão somente pela influência da família, 

 

Porém  o  sibárita  desfrutador  na  Europa  de  uma  vida  incomparável, 



diplomata  por  sedução  da  carreira,  freqüentador  de  todos  os  grandes  meios 

europeus,  lazzarone  –  intelectual,  na  maneira  dele  próprio  dizer,  e  assim 

fruidor da mais pura expressão da vida: evolvera. Sim: a plasticidade de sua 

inteligência,  que  atingiu  toda  subtileza  de  espírito,  fez  com  que,  com  o 

mesmo  colorido  de  um  artista  da  Renascença,  desse  cor  e  verdade  a  sua 

eloqüência  para  seguir  “não  mais  o  diletantismo,  mas  a  paixão  humana,  o 

interesse  vivo,  palpitante,  absorvente,  no  destino  e  na  condição  alheia”, 

abraçando, pois, a questão social, já implantada no país. Elegante, e por isso 

mesmo  um  raro,  só  em  política  viu  diante  de  si  quasi  que  somente  a 

abolição.

132

 

 



Tanto como a de Pedro II, a atuação de Nabuco serve como exemplo de inspiração e 

iluminação  pois  na  história  segundo  Feijó,  os  passos  em  direção  à  ação  política  são  sempre 

necessariamente precedidos por uma espécie de amadurecimento moral obrado no espírito dos 

políticos  e  estadistas  do  Império,  fruto  do  conhecimento  superior  adquirido  pelas  suas 

educações  privilegiadas,  da  convivência  com  os  ultrajes  da  instituição  escravista  ou 

simplesmente  de  seus  gênios  superiores,  corolários  que  eram  das  históricas  aspirações 

nacionais  de  libertar  sua  população  vilipendiada.  O  discurso  é  candente  e  triunfal  nesse 

sentido,  mas  se  exime  de  explicar  de  maneira  mais  detida  contra  quem  se  levantava  a 

                                                 

131


 Revista do IHGB, 1940, p. 715. 

132


 Idem, p. 721. 


 

68

indignação moral  de  Nabuco.  Nas  palavras  do  orador, os  grandes  luminares  da  política e  da 



intelectualidade  nacional  se  levantavam  não  contra  um  parlamento  aferrado  às  suas 

convicções  de  que  libertar  a  força  de  trabalho  cativa  resultaria  num  colapso  econômico  e 

social  da  nação,  mas  sim  contra  uma  espécie  de  entidade  dantesca  que  corrompia  o  país:  a 

escravidão, e tão somente ela. 

Já  a  “questão  social”  é  abordada  por  Bittencourt  na  forma  de  uma  exposição  das 

causas  que  tornaram  o  abolicionismo  uma  questão  turbulenta  na  década  de  1880,  onde  o 

historiador  põe  em  evidência  o  fato  que  na  sua  análise  era  capital:  o  declínio  da  cultura 

açucareira  que  forçou  a  venda  de  escravos  no  norte  para  o  sul,  onde  as  fazendas  de  café 

urgiam  por  braços  que  trabalhassem  para  sustentar  e  expandir  seu  cultivo.  Criava-se  assim, 

uma situação análoga à que alguns anos antes havia precipitado a guerra civil na América do 

Norte: 

 

Esta  passagem  dos  escravos  de  um  ponto  para  outro  do  país,  creando  um 



desequilibro, foi a causa do modo violento com que ocorreu o fato. 

[...] Ora, uma vez o norte virtualmente sem escravos podia atacar o sul onde 

se  encontrava  a  escravidão.  Passou  a  haver  a  mesma  situação  dos  Estados 

Unidos, na Guerra de Secessão. O sul escravocrata, porque tinha escravos; o 

norte  abolicionista,  porque  não  tinha  escravos  e  se  desinteressava  por  essa 

forma de servidão. Que essa foi a questão no Brasil, não há que desdizer. E 

na  ocasião  houve  quem  denunciasse  a  situação  social  no  seu  aspecto  tão 

grave.  “O  norte,  descreve  Agenor  de  Roure,  “foi  acusado  de  vender  seus 

escravos  para  depois  trabalhar  pela  abolição.  Daí  a  frase  de  Martinho  de 

Campos: - Seriam então salteadores e para esses terei o meu revolver!”

133

 

 



Sua  conclusão  ainda  passa  pelo  fato  de  que  abolição  foi  uma  força  que  agiu  “da 

periferia para o centro”, já que o Rio Grande, onde não havia muitos escravos, acompanhara o 

norte,  e  “ficaram  as  províncias  centrais  cercadas  pelos  dois  extremos  que  desfraldaram 

revolucionárias a bandeira do abolicionismo”.

134

 

Embora  bastante  simplista, a  interpretação  de  Bittencourt  dos  motivos  que  levaram à 



agitação  social  pela  emancipação  nas  décadas  finais  do  império  é  conseqüência  da  maneira 

com  que  enxerga  a  torrente  popular  que  tomou  o  cenário  político  daquela  época  a  fim  de 

concorrer para a capitulação do governo na forma da assinatura da lei de 13 de maio de 1888. 

Não haveria outra forma para a consumação daquele fato do que um forte antagonismo, uma 

batalha entre campos que se opunham, e na qual a tremenda força da causa mais justa e mais 

fortalecida seria a garantia do seu triunfo. 

                                                 

133


 Revista do IHGB, 1940, p. 723. 

134


 Idem. 


 

69

É nesses termos que Feijó Bittencourt abre um tímido espaço para o reconhecimento 



da participação popular, quando em sua análise da “questão política” – que na verdade é uma 

constante  que  perpassa  toda  a  sua  conferência  –  apresenta  as  palavras  de  Teixeira  Júnior, 

Visconde de Cruzeiro, protagonista da lei de 1871, que compara as reações daquele ano com 

as de 1888: 

 

“Quem  fez  a  lei  de  13  de  maio  foi  a  rua,  foi  a  Confederação  abolicionista, 



sitiando  a  Câmara  dos  Deputados  e  o  Senado,  com  seus  oito  estandartes, 

com bandas de música e uma turba-malta de mil a três mil pessoas”. Há pois 

completa diferença de atitude dos políticos para com a lei do ventre-livre e a 

13  de  maio:  Cruzeiro  não  se  refere  às  duas  da  mesma  maneira.  Dirá  que  o 

segundo  desses  movimentos  virá da rua  e  esta sua  expressão  é  sem  elogios 

para o que ocorreu.

135

 

 



É  de  fato  notável  a forma  com  que  a  citação  de Teixeira  Júnior  feita  por  Bittencourt 

traduz  nitidamente  os  acontecimentos  de  1888  conforme  citados  por  Evaristo  de  Moraes  no 

seu  Escravidão  africana  de  1933:  a  Câmara  dos  Deputados  e  o  Senado  “sitiados”  pela 

Confederação  Abolicionista,  pela  “rua”,  por  uma  “turba-malta”.  A  própria  etimologia  do 

termo empregado pelo Visconde de Cruzeiro serve para mostrar a dimensão do seu desagrado 

com o caminho que a campanha abolicionista havia tomado em fins da década de 1880, já que 

“turba-malta”  no  vocabulário  da  metade  do  século  XIX  significava  precisamente  uma 

multidão de pessoas de baixa extração social. Em outras palavras, “escória” ou “ralé”. 

É  dessa  maneira  indireta  que  Bittencourt  revela  o  tamanho  do  desagrado  das  elites 

políticas  imperiais  pelos  rumos  que  o  abolicionismo  brasileiro  havia  tomado  e  de  como  a 

conclusão  daquele  processo  em  1888  foi  definitivamente  traumática  para  as  mesmas.  Mas 

certamente  não  foi  essa  sua  intenção,  sequer  subjacente,  ao  expor  as  memórias  de  um  dos 

principais  articuladores  políticos  da  época  da  abolição.  Na  interpretação  de  Feijó,  o  clamor 

popular que precipitou a liquidação da escravidão no Brasil é apenas um aspecto (e longe de 

ser o mais importante) de um processo essencialmente político que se desenrolou desde 1871, 

e que o historiador carioca vê com olhos muito mais elogiosos. De fato, ao longo de todo seu 

discurso,  a  maneira  com  que  descreve  os  acontecimentos,  as  figuras  políticas,  os  débâcles 

entre  conservadores  e  liberais,  as  formações  e  dissoluções  de  gabinetes,  enfim,  todos  os 

acontecimentos daquele período, é inteiramente eivada de solene admiração, de valorização e 

enaltecimento do jogo político que se foi desenrolando até o corolário do dia 13 de maio de 

1888. 

                                                 



135

 Revista do IHGB, 1940, p. 719. 




 

70

De Dom Pedro a Rio Branco, de Cotegipe a Joaquim Nabuco, de Patrocínio à Princesa 



Isabel, o que perpassa em sua longa exposição do processo abolicionista é uma admiração não 

somente  pela  estatura  moral  dos  seus  protagonistas,  mas  principalmente  da  sua  astúcia 

política,  do  vigor  com  que  se lançaram  aos  seus objetivos.  Para  o  autor,  “a  vitória  do  13  de 

maio também representa, no Brasil, uma vitória da mocidade, representa o enlevo com que os 

moços brasileiros entravam para vida pública”.

136


 

É  nesse  sentido  que  o  discurso  proferido  por  Feijó  Bittencourt  pode  ser  diretamente 

relacionado  com  o  contexto  histórico  no  qual  foi  proferido.  Poucos  meses  depois  de 

instaurado  o  Estado  Novo,  com  a  suspensão  dos  partidos  políticos,  o  fechamento  do 

congresso nacional e a instauração da censura, um grupo de literatos, intelectuais, professores 

e  historiadores,  grande  parte  deles  também  políticos  (como  o  era  o  próprio  Bittencourt) 

reunia-se  naquele  pesado  ambiente  para  celebrar  o  cinqüentenário  da  abolição.  E  o  discurso 

proferido na ocasião percorreu insistentemente argumentos que enalteciam o processo político 

que  levou  à extinção  do trabalho  servil.  Um  processo  certamente  longo  e tortuoso, feitos  de 

erros  e  acertos,  mas  invariavelmente  aberto  e  –  dentro  das  possibilidades  da  época  – 

democrático.  No  ambiente  de  autoritarismo  e  censura  daquele  ano  de  1938,  talvez  não  seja 

exagero  dizer  que  o  Instituto  Histórico  e  Geográfico  Brasileiro  escolheu  comemorar  os 

cinqüenta  anos  da  abolição  na  forma  de  uma celebração  da  liberdade  política  -  liberdade  de 

argumentação  e  liberdade  de  organização  que  cinqüenta  anos  antes  eram  desfrutadas  pelos 

abolicionistas  brasileiros,  mas  que  o  governo  Vargas,  mesmo  com  sua  promessa  inicial  de 

revolução e mudança, havia momentaneamente extinguido com o Estado Novo. 

Por  outro  lado,  a  exposição  do  orador  do  IHGB  sobre  a  luta  travada  pelos  políticos, 

jornalistas  e  intelectuais  do  Império  contra  o  fim  do  trabalho  escravo  falha  em  apontar  de 

forma precisa o porquê de o combate ter sido tão renhido, o processo político tão arrastado e a 

duração  da  escravidão  tão  prolongada.  Na  sua  narrativa  da  abolição,  de  sua  “gênese”  na 

década de 1830 até o momento decisivo de 1888 não cabe espaço para senhores de escravos 

ou opositores à emancipação, mas uma espécie de “personificação” da escravidão, que deixa 

de  ser  o  que  realmente  foi  ao  longo  da  segunda  metade  do  século  XIX  -  um  modelo  de 

desenvolvimento  econômico  defendido  por  uma  poderosa  e  influente  classe  de  proprietários 

rurais  dentro  do  parlamento  –  para  se  tornar  algo  parecido  com  um  espectro  ominoso  que 

atormentava a nação há séculos, e contra o qual todos os seus homens ilustres sempre lutaram, 

por considerarem-no incompatível com os destinos de grandeza do país. 

                                                 

136

 Revista do IHGB, 1940, p. 735. 




 

71

Essa visão de uma abolição feita “de cima” certamente pode ser entendida como vindo 



de encontro ao perfil histórico dos membros do Instituto, que durante todo o século XIX foi 

integrado  por  nobres  e  figuras  ilustres  do  governo  imperial.  O  próprio  Bittencourt  era 

descendente de viscondes da província do Rio de Janeiro por lado de pai e mãe, assim como 

também  o  eram  outros  sócios  presentes  naquela  sessão,  aberta  como  já  foi  apontado,  com 

votos de que se visse restaurada a saúde do “presidente perpétuo” do Instituo naquela época, o 

conde  de  Affonso  Celso.  Talvez  não  seja  exagero  afirmar  que  no  final  daquela  década  de 

1930  o  Instituo  Histórico  e  Geográfico  Brasileiro  era  representado  pelos  descendentes 

daqueles parlamentares e tribunos que se viram cinqüenta anos antes cercados pela multidão 

das ruas, capitulando perante as circunstâncias, depois de perderem as rédeas de um processo 

que,  segundo  eles,  deveria  ter  sido  conduzido  estritamente  dentro  do  âmbito  de  suas 

deliberações,  sem  a  interferência  popular.  E  sob  esse  aspecto,  a  conferência  de  Feijó 

Bittencourt  não  deixa  dúvidas,  pois  repetidamente  idealiza  o  abolicionismo  brasileiro  desde 

1871,  reconduzindo  a  primazia  pelo  fim  da  escravidão  às  mãos  das  figuras  tradicionais  do 

Imperador, da princesa Isabel, de Nabuco e da sabedoria da classe política do Império. 

 

Resta  enfim,  voltar  à  Santa  Catarina,  com  as  comemorações  realizadas  em 



Florianópolis  pelo  Instituto  Histórico  e  Geográfico  do  estado,  tornando-se  necessário 

primeiramente  contextualizar  o  ano  do  cinqüentenário  naquela  cidade,  a  fim  melhor 

compreender a maneira com que os membros daquela instituição perceberam a data no âmbito 

da capital do estado. 

Retornando  ao  censo  de  1940,  que  revelava  Santa  Catarina  como  um  estado 

essencialmente  branco,  a  composição  étnica  da  cidade  de  Florianópolis  no  mesmo 

levantamento  demográfico  é  completamente  distinta.  Com  exceção  de  Lajes,  município  que 

àquela  época  abrangia  uma  extensão  territorial  muito  superior  à  da  capital  do  estado  e  por 

conseqüência possuía uma população maior, Florianópolis era a cidade de Santa Catarina com 

o maior número de negros e mestiços. De seus 46.771 habitantes em 1940, 4.642 declararam-

se pretos ou pardos, o equivalente a 10% da população, e o dobro do percentual do Estado de 

Santa Catarina. 

Essa  considerável  comunidade  havia  crescido  a  partir  de  sua  importante  presença 

durante  a  segunda  metade  do  século  XVIII  e  todo  o  século  XIX  (em  1872,  somente  a 

população  escrava  representava  quase  um  quarto  da  população  total  da  cidade),  quando  foi 

expressiva a ponto de fundar  sua própria sociedade religiosa e de ajuda mútua, a Irmandade 

de  Nossa  Senhora  do  Rosário  e  São  Benedito  dos  Homens  Pretos.  Nas  migrações 



 

72

características do pós-abolição, ao longo dos primeiros trinta anos do século XX um número 



considerável  de  famílias  de  descendentes  de  escravos  teriam  migrado  da  região  do  Alto 

Biguaçu  (atual  município  de  Antônio  Carlos)  em  direção  à  Florianópolis,  vindo  a  aumentar 

sua  população  de  ascendência  africana.

137


  Ao  chegarem  à  capital  do  estado,  essas  famílias 

devem  ter  se  deparado  com  o  torvelinho  de  reformas  urbanas  que  à  época  estava  buscando 

transformar aquele núcleo urbano de vielas e cortiços à beira-mar, onde o transporte de água e 

esgoto era feito manualmente numa cidade à altura de seu status como capital estadual. Deste 

modo, 

 

Com a instalação de serviços de bondes, água e esgoto, aterros e demolições, 



foram  sendo  destruídos  os  antigos  territórios  negros.  Lugares  como  a 

Tronqueira (atual Artista Bittencourt, por ironia da história, um dos poucos 

abolicionistas  populares),  Figueira  (na  Conselheiro  Mafra),  Toca  (rua  São 

Martinho), Beco do Sujo (Hercílio Luz), foram sendo eliminados, a bem da 

tranqüilidade pública.

138


 

 

Em  face  desse  “embranquecimento  dos  espaços  centrais  da  cidade”,



139

  recém-


chegados e habitantes antigos dessas comunidades trilharam o já batido caminho em direção à 

periferia,  iniciando  a  ocupação  dos  morros  que  envolviam  o  núcleo  urbano  do  centro  de 

Florianópolis e formando algumas de suas comunidades mais tradicionais, como o Morro do 

Mocotó, da Mariquinha, Nova Trento, do Céu, da Penitenciária, do Horácio e da Caixa. 

Dentro  dessas  comunidades,  os  descendentes  de  africanos  de  Florianópolis  logo  se 

puseram a construir seus espaços de sociabilidade, na forma de fundação de clubes sociais e 

agremiações que servissem como locais de encontro e lazer para suas populações. Na década 

de  1930,  registrou-se  a  fundação  de  duas  associações  sociais  importantes  no  contexto  da 

sociedade negra de Florianópolis. Em dezembro de 1933, no bairro Agronômica, fundava-se a 

União  Recreativa  25  de  Dezembro,  fruto  de  uma  iniciativa  debatida  entre  alguns  amigos  a 

respeito  da  criação  de  um  espaço  de  lazer  para  que  as  pessoas  pudessem  se  divertir,  sem  a 

necessidade  de  longos  deslocamentos.

140

  Ao  longo  das  décadas  de  1930 e 1940,  o  Clube 25 



protagonizou uma  rivalidade na organização de bailes, concursos de beleza e desfiles com o 

                                                 

137

 MARIA, Maria das Graças. Imagens invisíveis de Áfricas presentes: experiências das populações negras no 



cotidiano da cidade de Florianópolis (1930-1940). Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina. 

Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em História, 1999. pp. 49-52. 

138

 MORTARI, Claudia; CARDOSO, Paulino de Jesus. Territórios negros em Florianópolis no século XX. In: 



BRANCHER, Ana (Org.). História de Santa Catarina – Estudos Contemporâneos. Florianópolis: Livraria e 

Editora Obra Jurídica, 1999. pp. 83-101. p. 92. 

139

 MARIA, op. cit., p. 17. 



140

 MARIA, Maria das Graças. Memória subterrânea: construção das representações de identidades do negro em 

Florianópolis. In: Revista Esboços, nº 2 – 1º semestre 1995. Florianópolis: Universidade Federal de Santa 

Catarina, Programa de Pós-Graduação em História. pp. 58-69. pp. 59-60. 




 

73

Clube  Recreativo  Concórdia,  fundado  e  freqüentado  pelos  brancos.  Outra  organização 



importante  naquela  época foi a  Sociedade  Recreativa  Brinca  Quem  Pode, fundada em  1935. 

Este clube, segundo Mortari e Cardoso, 

 

Por  muitos  anos  dirigido  por  José  Ribeiro  dos  Santos,  o  Bagé,  primeiro 



vereador  negro  da  cidade,  era  segundo  depoimento  de  ex-sócios, 

costumeiramente  freqüentado  pelo  governador,  depois  interventor,  Nereu 

Ramos.  Coincidentemente  ou  não,  regras  de  conduta,  modos  de  vestir  e  de 

comportamento público, eram zelosamente vigiados pela diretoria. Era como 

se  a  respeitabilidade,  fosse  condição  sine  qua  non  para  o  reconhecimento 

público  da  entidade.  [...]  Os  sócios,  inclusive,  eram  aconselhados  a  evitar 

convidar  pessoas  consideradas  de  comportamento  duvidoso.  Ao  que  tudo 

indica,  a  sociedade  se  imaginava  como  o  grande  espaço  da  elite  negra  de 

Florianópolis.

141


 

 

Não se pode dizer com certeza se o Brinca Quem Pode realmente congregava a “elite 



negra” de Florianópolis. Mas levando-se em conta testemunhos orais coletados por Maria das 

Graças Maria, esta elite negra existia, e era composta por professores, jornalistas, suboficiais 

da  Marinha  e  da  Polícia  Militar,  poetas,  políticos  e  literatos.  Entre alguns  nomes  levantados 

pela  autora  figuram  o  Sargento  Osmar  de  Oliveira,  cujo  apelido  “Chocolate”  deu  nome  ao 

campo  de  treinamento  da  Academia  da  Polícia  Militar  da  cidade,  a  professora  e  depois 

deputada  estadual  Antonieta  de  Barros,  o  poeta  Trajano  Margarida  e  o  jornalista  Ildefonso 

Juvenal, que era também sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina,

142


 entre 

muitos  outros  nomes,  lembrados  pela  sua  educação  e  seu  prestígio  dentro  da  sociedade 

florianopolitana nas falas de seus filhos e netos. 

Era, portanto, uma grande quantidade de vozes a representar uma comunidade vultosa 

e  bem-estabelecida  de  cidadãos  negros  na  cidade,  mas  cujas  opiniões  e  idéias  a  respeito  do 

cinqüentenário não podem ser divisadas nas fontes consultadas. Sendo os jornais os veículos 

por excelência para divulgação de idéias e, carecendo as associações mencionadas de recursos 

ou  influência  para  publicar  periódicos  negros  na  cidade,

143

  a  sua  atuação  provavelmente 



restringiu-se  à  rua,  seu  “território  por  excelência”.

144


  E  infelizmente,  a  imprensa  de 

Florianópolis não se interessou por esse lado da data do 13 de maio. 

 

Essa imprensa interessou-se muito mais pelas sessões cívicas e solenes organizadas na 



cidade, a ponto de não fazer nenhuma menção durante os dias que precederam o 13 de maio 

                                                 

141

 MORTARI; CARDOSO, op. cit., p. 94. 



142

 MARIA, 1999. pp. 107-115. 

143

 Idem, p. 169. 



144

 Idem, p. 224. 




 

74

de  1938  aos  festejos  que  estavam  sendo  organizados  pelo  governo  estadonovista  na  capital 



federal. Tampouco foram publicadas as habituais resenhas históricas de grande abrangência e 

sem  autoria.  Os  três  grandes  jornais  de  Florianópolis,  ao  contrário,  preferiam  fazer  uma 

cobertura  modesta,  mas  completa  das  comemorações  que  estavam  sendo  organizadas  pelo 

Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, valorizando os seus eventos e as vozes de 

suas  autoridades,  demonstrando  o  prestígio  que  aquela  instituição  desfrutava  na  sociedade 

florianopolitana da época. 

Fundado  em  1896  por  iniciativa  de  José  Arthur  Boiteux,  e  sob  os  auspícios  de  um 

grupo de trinta políticos e profissionais liberais de destaque na sociedade catarinense de fins 

do  século  XIX,  o  IHGSC  foi  uma  instituição  surgida  no  contexto  do  fim  da  Revolução 

Federalista,  de  reestruturação  política  e  do  desejo  de  modernização  da  capital  do  estado,  no 

sentido de efetivamente transformá-la da provinciana Desterro para a moderna Florianópolis. 

Segundo  Élio  Serpa,  suas  aspirações  e  seus  objetivos  eram  muito  próximos  aos  do 

IHGB, centrados no esforço de “coligir, organizar, redigir e publicar todos os dados existentes 

e  necessários  para  a  elaboração  da  história  e  geografia  do  estado”.

145

  Seus  membros 



almejavam  fornecer  subsídios  para  fundar  e  cristalizar  a  “individualidade  social”  da  gente 

catarinense, e a melhor forma de alcançar tal objetivo seria com o conhecimento do passado, 

já que a história seria “mãe e mestra” para edificar o presente e construir o futuro. 

Seu principal órgão de divulgação era a revista do Instituto, editada a partir de 1902. 

Embora  num  período  que  cobre  o  cinqüentenário  (1920  a  1943)  a  revista  tenha  passado  por 

uma de suas interrupções de publicação, nos seus primeiros anos ela mostra que os membros 

do  Instituto  estiveram  integralmente  comprometidos  “criar  todo  um  imaginário  em  torno  da 

identidade  catarinense”,

146

  exaltando  figuras  ilustres  e  efemérides  relativas  ao  estado, 



essencialmente “construindo a identidade catarinense pelo passado de luso-brasileiros ilustres 

estabelecidos no litoral”,

147

 e o quanto essa atitude pregressa de exaltação das grandes figuras 



históricas de Santa Catarina ainda permaneceu na mentalidade do Instituto em 1938 é o que se 

torna necessário investigar. 

Assim, no dia 12 de maio de 1938, o jornal O Estado divulgou uma pequena nota na 

sua  última  página  onde  dava  conta  da  realização,  por  parte  do  Instituto  de  uma  cerimônia 

oficial onde seria comemorada a efeméride da Abolição alertando que 

                                                 

145

 SERPA, Élio Cantalício. A identidade catarinense nos discursos do Instituto Histórico e Geográfico de Santa 



Catarina. In: Revista Ciências Humanas, v. 14, nº 20, pp. 63-79. Florianópolis: Universidade Federal de Santa 

Catarina, 1996. p. 64. 

146

 Idem, p. 66. 



147

 Idem. 



 

75

O  Instituto  Historico  e  Geographico  de  Santa  Catharina  commemorará, 



amanhã, com uma sessão solenne, o cincoentenario da Abolição. 

Pela  manhã,  ás  7,30  horas,  uma  commissão  irá  ao  Cemiterio  da  Irmandade 

dos  Passos,  depositar  uma  palma  de  flores  naturais  no  tumulo  do  saudoso 

coronel  Germano  Wendhausen,  chefe  abolicionista,  como  homenagem  aos 

abolicionistas catharinenes. 

A’ noite, ás 20 horas, no salão de festas do Clube 12 de Agosto, gentilmente 

cedido,  realizar-se-á  a  sessão  commemorativa,  altamente  solenne,  presidida 

pelo  sr.  desembargador  Henrique  da  Silva  Fontes,  presidente  do  Instituto. 

[...] 

148


 

 

Uma descrição do cerimonial a ser seguido durante a realização da sessão revela o tom 



de  rigidez  cívica  que  marcaria  o  evento.  O  Hino  Nacional  seria  executado  tanto  no  início 

quanto no final da sessão, além da sinfonia O Escravo, de Carlos Gomes, pela banda musical 

da  Força  Pública.  Discursariam  na  ocasião  os  membros  Heitor  Blum  –  orador  oficial  do 

Instituto – e Renato de Medeiros Barbosa, sobre “a Destêrro do tempo da escravidão até á lei 

áurea”. 

Um aspecto importante da sessão de 13 de maio organizada pelo IHGSC é a maneira 

como  ela  parece  ser a  primeira  de muitas ocasiões  onde  seria exibida  a  nova  ordem  política 

recém-implantada  pelo  Estado  Novo,  já  que  nota  do  jornal  O  Estado  elenca  todas  as 

autoridades  que  iriam  ocupar  a  mesa  da  presidência,  cabendo  aos  sócios  do  Instituto  e  suas 

famílias  outros  “lugares  destacados”.  A  quantidade  de  figuras  públicas  que  atenderam  (ou 

pelo  menos  se  comprometeram  a  atender)  à  sessão  é  impressionante:  além  do  presidente  do 

Instituto,  Desembargador  Henrique  da  Silva  Fontes,  compareceriam  ainda  o  interventor 

federal e o prefeito municipal, o arcebispo metropolitano, o capitão dos portos, o comandante 

do 14° Batalhão de Caçadores, o comandante da Força Pública, o presidente do Tribunal de 

Apelação e o presidente da Associação Catarinense de Imprensa. A presença de praticamente 

todas as grandes autoridades da cidade é um indício da importância dada não somente à data 

do cinqüentenário, mas à especial ocasião em que a ordem política do Estado Novo poderia se 

perfilar em cerimônia solene, talvez pela primeira vez. A própria ordem com que os diversos 

representantes  do  poder  público  são  enumerados  é  um  claro  indício  de  que  se  estava 

procurando cristalizar as novas hierarquias: o interventor federal, Nereu Ramos é o primeiro a 

ser  mencionado,  antes  da  autoridade  religiosa  e  das  autoridades  militares,  enquanto  que  o 

prefeito municipal aparece por último, secundado pelo presidente do tribunal de apelação. O 

presidente da Associação Catarinense de Imprensa, ironicamente, aparece por último. 

Essa  exibição  das  novas  hierarquias  fica  mais  evidente  em  reportagem  a  respeito  da 

passagem da data publicada no dia 14, no Diario da Tarde, repercutindo a realização no dia 

                                                 

148

 INSTITUTO Historico e Geographico. O Estado, Florianópolis. 12 de mai. 1938. p. 8. 




 

76

anterior  de  uma  concentração  de  escolares  promovida  pela  Cruzada  Nacional  de  Educação, 



onde  “os  srs.  Dr.  Carlos  Corrêa  e  o  jornalista  Jau  Guedes  pronunciaram  enthusiasticos 

discursos”, seguidos por um desfile de diversas escolas em direção à praça 15 de Novembro e 

ao Palácio do Governo, para prestar homenagem ao Interventor Federal. Além disso, a notícia 

ainda  dá  conta  da  execução  pelo  Ginásio  Catarinense  de  uma  “solenne  festa  civica  em 

commemoração  da  data”,  realizada  no  galpão  desportivo  da  instituição,  com  a  presença  do 

Inspetor Federal Antenor Moraes. Nela, 

 

Cantando  o  hymno  da  Bandeira,  os  alumnos  Aloisio  de  Almeida  e 



Themistocles  Muniz  arrebataram  seus  collegas,  interpretando  um  os 

sentimentos  do  pobre  africano  preso  e  o  outro  o  seu  jubilo  no  dia  da 

libertação.  O  quintamnista  Waldir  Busch  fez  vibrar  o  auditorio  com  seu 

eloquente  discurso  expondo  a  resenha  historica  dos  factos  precedentes  á 

abolição  da  escravatura.  O  exmo.  sr.  Inspector,  com  palavras  escolhidas 

salientou o nosso dever patriotico de honrar os antepassados, evidenciando o 

feito,  decidido  e  nobre,  da  Princesa  D.  Isabel,  “a  mãe  branca  do  escravo 

negro”. 


O  enthusiasmo  com  que  por  fim  o  hymno  nacional  ecoou  no  recinto  foi 

prova  que  os  jovens  estudantes  brasileiros,  ahi  presentes,  entenderam  o 

grande significativo da “Lei Aurea”.

149


 

 

Única  menção  de  festejos  realizados  fora  do  âmbito  do  Instituto,  estes  dois  eventos 



podem  servir  para  identificar  as  comemorações  na  cidade  de  Florianópolis  como 

essencialmente oficiais e institucionalizadas, verdadeiras ocasiões para o desenvolvimento das 

virtudes  cívicas  dos  alunos  e  do  fortalecimento  de  seus  laços  de  obediência  e  respeito  para 

com  o  regime  político  constituído  havia  poucos  meses:  na  primeira,  uma  concentração  de 

alunos das escolas da capital celebrava a data numa marcha festiva em direção ao Palácio do 

Governo com o intuito de prestar homenagem não ao escravo liberto, tampouco à libertadora 

Princesa Isabel, mas ao interventor federal, representante do presidente Vargas na cidade. Na 

segunda, o drama da libertação dos escravos era encenado na escola para o Inspetor Federal, 

que em suas palavras salientou a importância do “dever patriótico de honrar os antepassados”. 

Embora  a  voz  das  ruas  pudesse  ter  se  feito  presente  na  forma  de  manifestações,  bailes  ou 

encontros, talvez promovidos por algum dos clubes populares mencionados anteriormente, ou 

de  maneira  ainda  mais  informal,  elas  não  receberam  apreciações  pela  imprensa  da  capital, 

cuja pouca cobertura centrou-se na reportagem das cerimônias oficiais. 

Em  Florianópolis,  enfim,  o  que  restou  das  comemorações  do  cinqüentenário  da 

abolição  foram  as  conferências  proferidas  por  Heitor  Blum  e  Renato  de  Barbosa  Medeiros 

                                                 

149

 AS COMMEMORAÇÕES de ontem. Diario da Tarde, Florianópolis. 14 de mai. 1938. p. 6. 




 

77

naquele dia 13 de maio de 1938 no salão nobre do Clube 12 de Agosto – local escolhido para 



a celebração por ter sido fundado naquela agremiação o Clube Abolicionista de Desterro em 

1883.  Publicados  pelo  próprio  instituto  nos  anos  imediatamente  posteriores,  os  trabalhos 

destes dois pesquisadores do Instituto são reveladores, cada um à sua maneira, das concepções 

a  respeito  da  história  da  escravidão  e  da  abolição  em  Santa  Catarina,  no  contexto  daquela 

década de 1930. 

Intitulada A Campanha Abolicionista na Antiga Destêrro, o discurso de Heitor Blum 

foi publicado em volume em  1939. Escrita por um bacharel em direito e político de carreira 

que  ocupou  cargos  de  destaque  no  governo  de  Santa  Catarina  naquele  início  de  século,

150

  e 


que praticava a disciplina histórica por puro diletantismo, a conferência de Blum surpreende 

em  alguns  aspectos,  enquanto  em  outros  se  mostra  profundamente  conectado  ao  tipo  de 

produção histórica (feita principalmente pelo IHGSC) de sua época, que numa periodização já 

bem conhecida, se poderia denominar “abordagem estadual tradicional”.

151

 

Com  seu  subtítulo  de  “subsídio  para  a  história  da  campanha  abolicionista  em  Santa 



Catarina”,  o  texto  de  Heitor  Blum  realmente  oferece  informações  que  servem  de  norte  para 

futuras pesquisas sobre o assunto, mas não sem antes cumprir com o cerimonial tradicional de 

lamento  em  relação à  escravidão,  exaltação  pelo seu  fim,  e agradecimento  às  figuras  pátrias 

que a liquidaram. Assim, ele avisa desde início que 

 

Não descreveremos os  suplicios,  os martírios sofridos pelos  escravos , pois 



raros  serão  os  que  ainda  não  leram  o  romance,  ou  não  assistiram  ao 

desenrolar  do  film  “A  Cabana  do  Pai  Tomaz”,  de  mistress  H.  Beecher 

Stowe. Recordar essa ignomínia seria supliciar-nos, martirizar-nos. 

Não falaremos, tambem, nos horrores do trafico, magistralmente descrito no 

“Navio Negreiro”, de Castro Alves.

152


 

 

Heitor  Blum  agradece  a  todos  os  “paladinos”  do  abolicionismo  brasileiro,  de  Rio 



Branco a Nabuco, de Luiz Gama à Princesa Isabel, “por terem feito desaparecer essa triste e 

desonrosa  mancha  que  empanava  o  brilho  do  augusto  símbolo  da  nossa  nacionalidade”.

153

 

Afirma então, que deseja somente tratar da campanha abolicionista em Desterro, passando ao 



largo da torrente de fatos do panorama nacional, e se concentrando nas figuras destacadas do 

abolicionismo catarinense, todas pintadas como exemplos da mais alta elevação moral. 

                                                 

150


 GOMES, Manoel. Memória Barriga-Verde. Florianópolis: Lunardelli, 1990. pp. 91-92. 

151


 WOLFF, Cristina Scheibe. Historiografia catarinense: uma introdução ao debate. In: Revista Catarinense de 




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