Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938



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ontem e hoje. Maceió: EDUFAL, 2007. pp. 27-28. 

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 GAMA, Almerinda Farias. “Raça”. A Notícia, Joinville. 1º de mai. 1938. pp 7-8. 


 

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criança  recebe  nova  explanação  do  seu  pai,  de  que  “entre  os  ‘vira-latas’  encontravam-se 



muitos  cães  de  excelentes  qualidades,  amigos,  de  seus  donos,  fiéis  e  dedicados”.

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Convencida pelas palavras do pai, a criança volta a simpatizar com seu cãozinho, chegando à 

conclusão  que  as  diversas  raças  de  cães  de  forma  alguma  significam  precedência  de  umas 

sobre as outras, mas somente diferentes virtudes. A partir daí, a voz da autora assume, a fim 

de concluir que 

Os  homens  tambem  são  assim.  Há  raças  variadas.  Cada  raça  tem  suas 

qualidades peculiares, quer seja sob o ponto de  vista fisico, quer seja sob  o 

ponto  de  vista  moral.  Umas  e  outras  necessitam-se  e  completam-se.  Como 

poderia  o  pobre  do  homem  branco  lavrar  as  terras  africanas,  se  a  sua  pele 

não resiste ao sol? Exposto á incidencia do sol tropical, recebe queimaduras 

de terceiro gráo como se tivesse recebido um banho de agua fervente. A pele 

fica  toda  empolada.  Só  o  negro  resiste  com  galhardia.  O  nosso  indio  –  de 

raça  vermelha  ou  amarela  –  conforme  queiram  afirmar  os  cientistas,  tras 

comsigo a altivez e o sentimento da liberdade. 

[...]  No  Brasil,  se  reconhece  o  valor  do  individuo  sem  levar-se  em  conta  a 

raça  a  que  pertence.  E  os  maiores  valores  nacionais  não  têm  sido  de  raças 

puras, mas de mestiços bem caldeados e negros.

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Escrito  por  uma  cidadã  de  origem  africana,  que  provavelmente  viveu  durante  sua 



juventude  a  maioria  das  tribulações  aos  quais  estavam  sujeitos  os  descendentes  de  escravos 

brasileiros  no  início  do  século  XX,  o  artigo  de  Almerinda  é  essencial  para  compreender  a 

maneira  com  que  as  teorias  sobre  miscigenação  haviam  se  transformado  desde  o  fim  do 

século  XIX  e  a  dimensão  que  os  conceitos  de  democracia  racial  haviam  alcançado  com 

apenas  alguns  anos  desde  o  início  da  sua  disseminação.  Mais  do  que  isso,  ao  encerrar  seu 

texto proclamando que “no Brasil todas as raças se aclimatam, se fundem, se aperfeiçoam”,

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Almerinda procura responder à sua maneira e do seu ponto de vista – de uma cidadã negra e 



militante política - a uma questão crucial que vinha sendo suscitada nos últimos anos, e que o 

cinqüentenário da abolição iria retomar. Nas palavras de Olívia Gomes da Cunha, 

 

Para  além  do  caráter  público  dos  eventos  promovidos  pelo  Estado,  que 



conclamavam  à  elegia  de  uma  “história  nacional”  construída  sobre  o 

reconhecimento  dos  danos  do  trabalho  servil  e    da  “redenção”  da  “raça” 

através do ato libertador, tanto na produção literária e intelectual quanto no 

âmbito  dos  programas  e  instituições  oficias,  percebe-se  a  permanência  da 

mesma indagação: como definir a população do país, como são e quem são 

os  “brasileiros”?  A  edificação  de  uma  “história  pátria”  e  a  delimitação  das 

fronteiras  culturais  e  humanas  da  “nacionalidade”  se  misturavam  com  um 

mesmo projeto de construção da nação.

121

 

 



                                                 

118


 GAMA, 1938. pp. 7-8. 

119


 Idem. 

120


 Idem. 

121


 CUNHA. In: PANDOLFI (Org.), 1999. p. 273. 


 

60

O Brasil de 1938 era, portanto, um Brasil em reinvenção. Nas páginas dos jornais de 



Santa Catarina, o estado branco por excelência, ele aparecia como promissor, magnânimo, por 

vezes “colossal”, mas essencialmente desligado das tradições e da história de grande parte do 

seu povo. Numa única interpretação pessoal de uma cidadã de origem africana, publicado no 

principal  jornal  de  uma  grande  colônia  alemã,  ele  também  aparecia  como  um  “cadinho  de 

raças”,  onde  as  idéias  correntes  na  Europa  fascista  e  nazista  de  superioridade  racial  eram 

respondidas  com  uma  apologia  à  miscigenação,  e  onde  a  diversidade  racial  teve  o  efeito  de 

fortalecer a nação. 

As interpretações e opiniões acerca “do que era o Brasil e quem eram os brasileiros” 

passavam  necessariamente  por  um  posicionamento  a  respeito  do  peso  e  das  conseqüências 

que a escravidão e o processo de emancipação tiveram na formação do país, quem foram seus 

principais  protagonistas  e  que  legado  haviam  deixado.  Naquele  ano  de  1938,  quando  as 

instituições de ensino superior do país ainda engatinhavam, seriam os grandes centros oficiais 

de produção do conhecimento que iriam se posicionar no sentido de elucidar essas questões. 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



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