Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938



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A Notícia de Joinville (o mais prolixo dos periódicos do estado no tocante a publicações sobre 

o cinqüentenário) a maior emissão de notas da Agência Nacional sobre o programa oficial de 

comemorações  celebrado  no  Rio  de  Janeiro.  Entre  os  dias  1º  e  14  de  maio,  informações  a 

respeito das cerimônias aparecem esparsamente distribuídas entre as páginas do jornal. 

Logo  no  início  do  mês,  uma  nota  inusitada  dá  o  tom  das  prioridades  colocadas  pelo 

Estado  Novo  no  tocante  às  celebrações  ao  informar  que,  “no  próximo  dia  13  de  Maio,  as 

classes patronaes e trabalhistas prestarão uma homenagem ao presidente Getulio Vargas, por 

motivo  do  50º  aniversário  da  Abolição  da  Escravatura”.

93

  Reitera-se  a  homenagem  que  será 



feita ao presidente cinco dias depois, quando outra nota  (onde mais uma vez celebram-se os 

feitos  da  Cruzada  Nacional  de  Educação)  alerta  para  a  realização  de  “uma  grande  parada 

trabalhista em homenagem ao presidente da República”.

94

 



As  notícias  a  respeito  das  comemorações  organizadas  pelo  governo  central 

curiosamente não apareceram nos três grandes jornais de Florianópolis, talvez pelo motivo de 

a capital tiver estado envolvida em suas próprias celebrações em conjunto com o IHGSC. No 

entanto,  as  reportagens  publicadas  pelos  demais jornais  do estado  (principalmente  A  Notícia 

de  Joinville)  permitem  divisar  de  maneira aproximada  o  roteiro  das celebrações  organizadas 

pelo  governo  Vargas,  onde  se  torna  evidente  que  o  cinqüentenário  da  abolição  não  foi 

realmente visto pelo Estado Novo como uma celebração da memória do abolicionismo ou da 

escravidão,  e  sim  como  um  subterfúgio  para  solenizar  a  figura  do  presidente,  tendo  como 

pano de fundo a efeméride da abolição. 

                                                 

92

 AS BRILHANTES comemorações do meio centenário da abolição. O Comércio, Porto União, 3 de mar. 1938. 



p. 6. 

93

 CINCOENTENARIO da Abolição; Uma homenagem ao presidente da Republica. A Notícia, Joinville. 1º de 



mai. 1938. p. 5 . 

94

 AS COMMEMORAÇÕES do 13 de Maio; Milhares de escolas serão inauguradas no paiz. A Notícia



Joinville, 6 de mai. 1938. p. 3. 


 

49

Determinada a suspensão do expediente às 14 horas pelo próprio presidente, o dia 13 



de  maio  viu,  no  Palácio  do  Catete,  cerca  de  “30  mil  trabalhadores”  prestando  a  já  referida 

homenagem  à  Getúlio  Vargas,  que  na  mesma  oportunidade  teria  recebido  uma  mensagem 

“conferindo-lhe  o  título  de  grande  bem-feitor  da  Cruzada  Nacional  de  Educação”.

95

  Na 



ocasião,  a  multidão  de  dezenas  de  milhares  de  cidadãos  pertencentes  às  classes  trabalhistas 

manifestou o seu grande apreço ao presidente, e demonstrou “intenso jubilo por ter o ilustre 

chefe da nação escapado ileso, na criminosa intentona dos camisas-verdes”.

96

 



Associando  entretenimento  e  civismo,  o  Departamento  de  Propaganda  e  Difusão 

Cultural  irradiou  uma  “peça  fonocênica”

97

  de  autoria  do  dramaturgo  Joracy  Camargo 



intitulada  “A  Lei  Áurea”.

98

  Uma  sessão  cívica  no  Teatro  Municipal  do  Rio  foi  organizada 



pelos  então  luminares  da  antropologia  nacional,  Artur  Ramos  e  Edgar  Roquette-Pinto,  com 

discursos  e  apresentação  de  canto  orfeônico  com  regência  de  Heitor  Villa-Lobos.  No 

programa ainda constou, segundo reportava A Notícia mais de uma semana depois 

 

[...] a inauguração de uma placa com a ephigie da princeza Izabel, no antigo 



edificio do Paço Imperial, onde hoje funcciona o Departamento dos Correios 

e  Telegraphos,  á  praça  15  de  Novembro.  Á  essa  cerimônia,  além  de 

innumeras  personalidades  officiaes  e  pessôas  da  sociedade  estiveram 

presentes  a  exma.  Senhora  Dª  Darcy  Vargas,  esposa  do  presidente  da 

Republica  e  o  principe  d.  Gastão  de  Orleans,  neto  da  princeza  D.Isabel. 

Outra  das  cerimonias  commemorativas  foi  a  missa  solemne  mandada 

celebrar na Igreja de Nossa Senhora do Rosario.

99

 



 

A  primeira  dama  ainda  participou  de  um  evento  pitoresco  realizado  nos  jardins  do 

Palácio do Catete, quando em companhia de netas da princesa Isabel, ofereceu um chá a ex-

escravos mantidos por instituições de caridade da capital. 

Um  dos  atos  mais  eivados  de  significado  daquele  dia,  no  entanto,  não  seu  deu  no 

âmbito de paradas, sessões ou inaugurações, e sim através de um decreto assinado por Getúlio 

Vargas  no  sentido  de  “oficializar”  o  13  de  maio  como  data  nacional  a  ser  comemorada  em 

                                                 

95

 AS COMMEMORAÇÕES do 13 de Maio; Já está organizado o programma official. A Notícia, Joinville. 7 de 



mai. 1938. p. 3. 

96

 AS COMMEMORAÇÕES do “Dia da Abolição” no Rio. Barriga Verde, Canoinhas. 16 de mai. 1938. p. 4. 



97

 CINCOENTENARIO da abolição da escravatura; Parada trabalhista em homenagem ao Presidente – 

Irradiação da “A Lei Aurea” de Joraci Camargo – Inauguração de escolas. Correio do Povo, Jaraguá do Sul. 7 

de mai. 1938. p. 1. 

98

 Joracy de Camargo ficou conhecido durante o Estado Novo por seus dramas históricos, entre os quais constam 



títulos como Retirada de Laguna e Proclamação da República. Cf. FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de 

Almeida Neves (Org.). O Brasil Republicano, v. 2; O tempo do nacional-estatismo: do início da década de 1930 

ao apogeu do Estado Novo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 163. 

99

 50 ANNOS de liberdade e igualdade; As commemorações, no Rio, do meio centenario da abolição. A Notícia



Joinville. 21 de mai. 1938. pp. 3-10. A nota ainda trazia uma fotografia, “curioso flagrante” do príncipe Gastão 

ajoelhado ao lado de um “cidadão carioca, descendente de escravos”. 




 

50

todo o país, conforme ditava o primeiro dos seus três artigos. São outros dois, no entanto, que 



carregam a maior carga de simbolismo: 

 

[...]  art.  2°  -  em  sinal  de  reconhecimento  da  nação  para  com  a  princeza 



Izabel, augusta signataria da lei aurea, o governo federal, por intermedio do 

Ministerio  a  Educação,  providenciará  para  que  seus  restos  mortaes,  bem 

como os do Conde d’Eu, seu perclaro consorte, sejam transferidos da Europa 

para o Brasil e, ainda com a cooperação dos poderes municipaes do Distrito 

Federal e particulares, lhe seja erigido em praça publica, na capital do paiz, 

um  monumento  que  recorde  o  glorioso feito  á  que  se  acha  vinculado  o  seu 

nome,  art.  3°  -  em  todas  as  escolas  primarias,  secundarias,  normaes  e 

profissionaes da Republica, em um dos dias da semana do cincoentenario da 

lei  aurea,  serão  feitas  prelecções  sobre  as  grandes  figuras  da  historia  da 

patria, de cuja actuação e influencia decorreu a abolição da escravatura, bem 

como sobre a segnificação politica e moral desse magno acontecimento.

100


 

 

Escrevendo  sobre  as ambigüidades  das  relações  entre  raça  e  nacionalidade  durante  o 



Estado  Novo,  Olívia  Maria  Gomes  da  Cunha  alerta  que  embora  os  objetivos  oficiais  do 

governo estadonovista estivessem diretamente de acordo com o desejo de erguer monumentos 

e  lembrar  as  grandes  figuras  pátrias  como  exposto  nos  artigos  acima,  os  festejos  levados  a 

cabo  pelo  país  tomaram  as  mais  diferentes  direções  e  enfoques.  Em  Alagoas,  por  exemplo, 

organizou-se  uma  sessão  “histórico-literária”  com  abolicionistas  e  escritores  do  estado, 

enquanto que em São Paulo, o Departamento de Cultura da cidade - então sob o comando de 

Mário  de  Andrade  –  enveredou  por  um  programa  de  cunho  antropológico,  que  visava  a 

exaltação  das  contribuições  “folclóricas”,  “raciais”  e  “musicais”  que  os  descendentes  de 

africanos haviam legado ao país.

101


 

Um  ponto,  no  entanto,  era  comum  a  todas  as  abordagens  a  respeito  da  data:  uma 

espécie  de  aflição  subjacente  em  se  lidar  com  a  história  de  uma  instituição  que  nos  últimos 

cinqüenta  anos  tinha  sido  vista  e  interpretada  como  fonte  inesgotável  de  infortúnios  para  o 

corpo social da nação e de atraso em relação ao restante do mundo. Embora ao longo daquela 

década  de  1930  o  discurso  racialista  tivesse  perdido  grande  parte  da  sua  força,  suas  linhas 

gerais ainda serviam de base para teorias higienistas e de “profilaxia social” que enxergavam 

uma  nação  enferma  que  precisava  ser  curada.  Falar  de  abolição,  então,  significava 

necessariamente  falar  de  escravidão,  o  que  equivalia  a  encarar  a  espinhosa  realidade  dos 

milhões de cidadãos de origem africana do país, que durante os últimos 50 anos conheceram 

um processo de acentuada marginalização social. 

                                                 

100

 O CINCOENTENARIO da lei Áurea; Commemorações determinadas pelo governo. Um monumento á 



princeza Izabel. Transferencia de seus restos mortaes. A Notícia, Joinville. 14 de mai. 1938. p. 1. 

101


 CUNHA, Olívia Maria Gomes da. Sua alma em sua palma: identificando a “raça” e inventando a nação.  In: 

PANDOLFI, Dulce (Org.). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 

1999. pp. 259-260. 


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