Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938



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Revista Esboços. Florianópolis, UFSC, v. 14, nº 17, 2007. pp. 106-108. 


 

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Tabela 1: Percentual da população brasileira e catarinense por raça em 1890 e 1940. 

 

 

B



RASIL

 

S



ANTA 

C

ATARINA



 

Cor 

1890 

1940 

1890 

1940 

Brancos 


43,97% 

63,47% 


84,78% 

94,44% 


Pretos e Pardos 

56,03% 


35,84% 

15,22% 


5,55% 

Amarelos 

0,59% 


0,00% 


De cor não declarada 

0,10% 



0,01% 


 

Fonte:  IBGE.  Recenseamento  geral  do  Brasil  [1º  de  Setembro  de  1940],  Série  nacional,  volume  II.  Rio  de 

Janeiro:  Serviço  Gráfico  do  IBGE,  1950.  p.  1.  &  IBGE.  Recenseamento  geral  do  Brasil  [1º  de  Setembro  de 

1940], Série regional, parte XIX – Santa Catarina. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, 1952, p.1. 

 

 

Conforme pode ser observado, se o Brasil do final do século XIX estava muito longe 



do  sonho  de  “europeização”,  com  mais  da  metade  de  sua  população  composta  por  pretos  e 

pardos,  o  estado  de  Santa  Catarina  apresentava  uma  realidade  inteiramente  distinta:  sua 

população  declaradamente  branca  era  de  vultosos  84%  do  total,  enquanto  a  população  de 

origem africana ainda se fazia sentir de maneira considerável, com cerca de 15%. Cinqüenta 

anos depois, no entanto, essa diferença se tornou ainda mais acentuada: sob o tremendo fluxo 

da imigração européia que desde os idos do século anterior vinha transformando a sociedade e 

a  economia  brasileiras,  o  percentual  da  população  branca  de  Santa  Catarina  saltou  para 

impressionantes  94%,  enquanto  que  no  cômputo  da  população  nacional,  o  percentual  de 

brancos suplantou o de negros e mestiços, alcançando bem mais do que a metade – cerca de 

63% da população total. 

Com  todas  as  ressalvas  que  devem  ser  feitas  no  tocante  à  coleta  de  dados  e  à 

metodologia de pesquisa de ambas as contagens populacionais, é impossível não atestar que a 

população de origem africana do estado de Santa Catarina sofreu um acentuado decréscimo, 

seja  em  comparação  a  época  imediatamente  subseqüente  ao  fim  da  escravidão,  seja  em 

comparação com a realidade nacional. O fluxo da imigração européia na primeira metade do 

século  XX  não  foi  suficiente  para  fazer  com  que  o  Brasil  deixasse  de  ser  uma  nação 

essencialmente mestiça, como atestam os seus mais de 14 milhões de cidadãos pretos e pardos 

em  1940,  em  relação  a  uma  população  total  de  41  milhões.  Já  em  Santa  Catarina,  cuja 

população  no  mesmo  censo  ultrapassou  1.1  milhão  de  habitantes,  pouco  mais  de  65  mil 

declararam-se pretos ou pardos. Em suma, sua população negra e mestiça passou de cerca de 

15% em 1890 para cerca de 6%  às vésperas do treze de maio de 1938. 



 

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Com  base  nesses  dados,  pode-se  concluir  que  a  imigração  européia  em  Santa 



Catarina  mostrou-se  extremamente  bem-sucedida  não  somente  no  sentido  de  povoar  e 

desenvolver  economicamente  a  região,  mas  também  de  transformar  profundamente  as 

características  dos  seus  habitantes.  Os  milhares  de  imigrantes  que  afluíram  em  direção  ao 

território  catarinense  ao  longo  do  século  XIX  atuaram  não  como  fator  de 

“embranquecimento” e “diluição” da população negra e mestiça como esperavam os teóricos 

do  racismo  científico,  mas  como  força  demográfica,  no  sentido  de  impor  como  principal 

característica da população do estado de Santa Catarina a presença de cidadãos brancos e de 

origem européia. 

É analisando as repercussões do treze de maio de 1938 na imprensa catarinense que 

essa imposição de uma grande maioria branca se torna particularmente evidente, no trato que 

seus veículos de comunicação deram à data e na importância com que viam as comemorações 

da  abolição  naquele  ano.  O  painel  de  periódicos  consultados  inclui  os  principais  centros 

urbanos  do  estado  na época:  além  da capital  do estado,  as  comemorações  do  cinqüentenário 

foram  repercutidas  em  jornais  de  Joinville,  Blumenau,  Laguna  e  Rio  do  Sul.  Em  menor 

escala,  também  jornais  de  Canoinhas  e  Porto  União,  na  divisa  norte  de  Santa  Catarina 

publicaram matérias e notícias acerca do cinqüentenário, além de Jaraguá do Sul e Brusque, 

cidades com forte presença de imigrantes alemães. 

Pela  sua  importância  como  grandes  centros  urbanos  da  região  sul,  foram  as 

imprensas de Florianópolis (com os jornais O EstadoDiário da Tarde e A Gazeta) e Joinville 

(com os jornais A Notícia e Jornal de Joinville) que realizaram as coberturas mais amplas a 

respeito da data. Com seu maior número de publicações - três grandes jornais mais o Diário 

Oficial  do  Estado  –  e  pela  proximidade  com  o  Instituto  Histórico  e  Geográfico  de  Santa 

Catarina, a imprensa florianopolitana foi quem deu a cobertura mais diversificada a respeito 

do cinqüentenário, publicando notas a respeito das comemorações organizadas pelo Instituto 

Histórico  e  Geográfico  de  Santa  Catarina  e  matérias  referentes  à  história  da  escravidão  no 

Brasil enquanto os jornais de Joinville (secundados pelas publicações das outras sete cidades) 

se  concentraram  na  reprodução  de  resenhas  históricas,  artigos  de  opinião  (na  maioria  sem 

autoria identificada) e notícias a respeito das comemorações realizadas no Rio de Janeiro. 

Neste  aspecto  repousa  um  dos  indícios  da  invisibilidade  ao  qual  foi  sujeitado  o 

passado escravista de Santa Catarina naquele ano de 1938, fruto da pesada influência que sua 

população majoritariamente branca parecia surtir nos veículos de comunicação: com exceção 

de  Florianópolis  –  cujas  publicações  serão  referidas  em  separado  no  próximo  capítulo  em 

conjunto  com  as  comemorações  do  IHGSC  –  nenhum  jornal  do  estado  publicou  qualquer 




 

46

notícia,  resenha  ou  artigo  especificamente  sobre a escravidão  onde ela estava  mais  próxima, 



quer  em  suas  respectivas  regiões,  quer  no  estado  de  Santa  Catarina  como  um  todo.  Ao 

contrário,  as  notícias  concernentes  ao  cinqüentenário  apareciam  quase  todas  em  artigos  de 

escopo amplo sobre  a  história  da  escravidão  no Brasil  ou  reproduções  de  notas  da imprensa 

nacional  a  respeito  dos  eventos  que  ocorriam  na  capital,  todas  eivadas  de  um  tom  oficial, 

recendendo  à  censura  do  Estado  Novo.  Não  raro,  as  mesmas  notas  eram  reproduzidas  em 

jornais diferentes, com alguns dias ou semanas de diferença. 

Além  disso,  por  circunstâncias  peculiares,  o  pouco  trato  dado  ao  cinqüentenário  da 

abolição  não  foi  apenas  específico  no  caso  da  quase  ausência  de  uma  “abolição  em  Santa 

Catarina”,  mas  também  quantitativo,  no  sentido  de  que  as  manchetes  de  todos  os  grandes 

jornais  do  estado  (e  com  certeza  de  todos  os  grandes  jornais  do  país)  preferiram  repercutir 

naquela semana um acontecimento de maior comoção: na madrugada do dia 11 daquele mês 

de  maio,  um  grupo  de  80  integralistas  sob  o  comando  do  Tenente  Severo  Fournier  havia 

atacado  o  Palácio  da  Guanabara  no  Rio  de  Janeiro,  com  o  intuito  de  depor  o  presidente 

Vargas,  sendo  repelidos  pela  própria  guarda  do  palácio  e  pelos  familiares  do  presidente,  no 

episódio que ficou conhecido como a “intentona” ou levante integralista de 1938. 

Nos dias subseqüentes daquela semana, a atabalhoada tentativa de golpe de estado da 

Aliança  Integralista  Brasileira  tomou  de  assalto  as  manchetes  de  todos  os  jornais  de  Santa 

Catarina, deixando as notícias a respeito do treze de maio em segundo plano. Eram chamadas 

impactantes referindo-se “criminosa intentona”

88

 e atestavam estar a capital federal “banhada 



em  sangue”.

89

  Impõe-se,  portanto,  a  análise  criteriosa  das  entrelinhas  desta  imprensa, 



carregada pelos excessos do patriotismo e enevoada pelo peso da censura do Estado Novo. 

 

Cronologicamente,  menções  a  respeito  do  cinqüentenário  da  abolição  aparecem  tão 



cedo  quanto  o  mês  de  fevereiro  daquele  ano,  na  forma  de  notas  a  respeito  da  Cruzada 

Nacional da Educação, uma campanha de salvação pública contra o analfabetismo criada em 

1932 com apoio das forças armadas, da indústria e comércio nacionais, e que visava angariar 

fundos para construção de escolas pelo país.

90

 Seus organizadores naquele ano de 1938 viram 



no treze de maio uma carga de simbolismo muito útil para a causa, conforme atesta uma nota 

do Correio do Sul de Laguna no dia 6 de fevereiro, reproduzida um mês depois n’O Comércio 

                                                 

88

 CAPITAL Federal banhada em sangue. O Estado, Florianópolis. 12 de mai. 1938. p. 1. 



89

 A REVOLUÇÃO integralista. A Gazeta, Florianópolis. 13 de mai. 1938. p. 1. 

90

  PAIVA,  Vanilda.  História  da  educação  popular  no  Brasil:  educação  popular  e  educação  de  adultos.  São 



Paulo:  Edições  Loyola,  2003.  p.  131.  Embora  a  bibliografia  sobre  a  CNE  seja  escassa  mesmo  em  obras  sobre 

história da educação, tudo leva a crer que ela foi encampada pelo Ministério da Educação em algum momento ao 

longo da década de 1930. 



 

47

de Porto União. Sob o título “A Cruzada Nacional de Educação e suas realizações”, os breves 



parágrafos  de  tom  oficial  davam  conta  da  intensa  atividade  com  que  a  Cruzada  vinha  se 

preparando  para  as  comemorações  de  maio,  introduzindo  uma  analogia  propícia  entre  o 

flagelo do passado e o flagelo do presente: 

 

As  commemorações  do  13  de  Maio  feitas  pela  Cruzada,  têm  sentido 



symbolico:  celebrar  a  data  da  extinção  do  elemento  servil,  extinguindo  o 

analphabetismo. 

Assim, entre outras solennidades, pretende-se, este anno, inaugurar em cada 

municipio,  pelo  menos,  tres  escolas  primarias,  além  de  outras,  pelos 

Governos dos Estados, ou sejam, cerca de 5,000 escolas. 

[...] Tudo faz prever que as commemorações do  cincoentenario da abolição 

da  escravatura,  este  anno,  tenham  um  brilho  excepcional  e  um  resultado 

pratico incalculavel em favor da libertação dos escravos da ignorancia, que é 

a mais util e mais patriotica de todas as campanhas em favor da grandeza do 

Brasil.


91

 

 



Adjetivos  como  “patriótica”,  “necessária”  e  “brilhante”  espalhavam-se  por  diversas 

notas  similares  publicadas  ao  longo  dos  meses  de  abril  e  maio  em  jornais  de  todo  o  estado, 

sempre aparecendo  de  maneira  idêntica  com  alguns  dias  de  diferença em jornais  diversos, o 

que indica que provavelmente se tratavam de comunicados divulgados pelo Departamento de 

Propaganda e Difusão Cultural ou algum outro órgão governamental com o intuito de exaltar 

as realizações do governo. 

De  fato,  a  abolição  nesses  artigos  aparece  somente  como  pretexto  tanto  para  a 

propaganda quanto para exaltações patrióticas, estabelecendo um padrão que será seguido por 

quase  todos  os  demais  artigos  que  noticiaram  as  comemorações  do  dia  treze  envolvendo 

autoridades oficiais. Dificilmente deixavam de aparecer enaltecimentos por algum ato de zelo 

patriótico  ou  reverências  à  figura  do  presidente  Vargas.  Em  outra  nota,  publicada  pela 

primeira vez no início de abril n’O Comércio de Porto União e depois reproduzida em jornais 

de  Laguna  e  Canoinhas,  aparecem  feitos  ainda  mais  altaneiros  da  Cruzada,  cuja  obra  às 

vésperas do cinqüentenário  

 

[...] tornou-se um verdadeiro patrimônio da nacionalidade e ela, num grande 



e extraordinário esforço, pretende comemorar aquela data com a inauguração 

do  maior  numero  possível  de  escolas  primarias  em  todos  os  municipios  do 

país. A Cruzada dirigiu a cada Prefeito Municipal uma circular, apelando no 

sentido de que sejam inauguradas ao menos trez escolas municipais. 

[...] Por aí se ve que é apenas uma questão de bôa vontade e de patriotismo. 

Prefeitos  há  que  escreveram  dizendo  ser  a  situação  financeira  da  prefeitura 

                                                 

91

 A CRUZADA Nacional de Educação e as suas realizações – Como será comemorada a grande data de 13 de 



Maio. Correio do Sul, Laguna. 6 de fev. 1938. p. 4. 


 

48

muito  precária,  mas  que  vão  economisar  n’outras  despezas  para  com  essa 



economia abrir escolas.

92

 



 

Os  matizes  intensamente  patrióticos  dessas  notas  põem  em  evidência  duas 

características  que  serão  recorrentes  nos  demais  textos  veiculados  pela  imprensa  a  respeito 

das comemorações oficiais da data, na forma de pequenos press releases oriundos do Rio de 

Janeiro:  o  apelo  constante  ao  civismo  e  uma  velada  indiferença  pelos  aspectos  históricos  da 

abolição.  Longe  de  ser  encarada como  uma  data capaz  de  gerar  reflexões  sobre o  passado e 

presente do país, o treze de maio era visto mais como uma oportunidade de celebração cívica, 

na qual invariavelmente o governo enxergava o ensejo para celebrar a si mesmo. 

No tocante à cobertura das comemorações oficiais no Rio de Janeiro, coube ao jornal 




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