Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938



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Progresso em 1929, ficavam bem longe do fraternal.

72

 



 

Embora,  conforme  aponta  Siegel,  a  disseminação  dessa  “ideologia  da  fraternidade” 

pudesse funcionar como um obstáculo a impedir que a hierarquia social vigente no país fosse 

seriamente  questionada,  os  escritores  afro-brasileiros  que  militavam  na  vicejante  imprensa 

negra da época enxergavam na idéia um meio oportuno de fazer valer suas reivindicações de 

cidadania. 

O  ponto  alto  da  ebulição  política  em  torno  da  exaltação  dos  valores  e  da 

reivindicação do avanço econômico, moral e intelectual da gente negra do país seria o ano de 

                                                 

71

 ANDREWS, 1998, p. 227. 



72

 SIEGEL, Micol. Mães pretas, filhos cidadãos. In: CUNHA; GOMES (Org.), 2007. p. 325. 




 

39

1931, quando foi fundada em São Paulo a Frente Negra Brasileira, fruto de uma convergência 



das aspirações de intelectuais e jornalistas que vinham militando em periódicos da imprensa 

negra como o Progresso e o Clarim d’Alvorada e propondo a organização de instituições que 

apoiassem  as  causas  sociais  dos  afro-brasileiros,  como  o  Centro  Cívico  Palmares  e  o 

Congresso  dos  Homens  de  Cor.  Seus  arquitetos  e  edificadores  eram,  sob  todos  os  aspectos, 

pertencentes ao que se poderia denominar de “elite negra”: a pequena parcela da população de 

origem  africana  do  Brasil  que  além  de  letrada  era  também  ilustrada,  como  os  jovens 

jornalistas José Correia Leite, Gervásio de Moares e Jaime de Aguiar, e a parcela menor ainda 

dos  que,  logrando  romper  barreiras  sociais  ainda  mais  rígidas,  haviam  conquistado  um 

diploma acadêmico, como o dentista Francisco Lucrécio, o bacharel em direito Raul Joviano 

do Amaral e o filósofo e professor Arlindo Veiga dos Santos. 

Surgida  num  momento  de  grave  crise  econômica  e  agitação  política,  a  FNB 

rapidamente angariou milhares de seguidores: embora sua base fosse centrada em São Paulo e 

Santos, foram abertas filiais na Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. A 

razão para tamanha adesão à causa da gente negra do Brasil, segundo Flávio Gomes foi que 

para a população negra, “costumeiros períodos de dificuldades estavam então mais do nunca 

acompanhados  de  expectativas  de  mudanças”.

73

  Não  seria  exagero  afirmar  que  da  mesma 



forma que o 1889 despertou grandes esperanças nos libertos em relação ao seu futuro dentro 

da nova sociedade que se prometia igualitária, o 1930 também se revelou como um momento 

emblemático, quando 

Juntamente  com  os  trabalhadores  brancos  e  com  a  classe  média  branca,  os 

negros clamaram para ser incluídos na participação política mais ampla que 

aquela  revolução  parecia  pressagiar.  Uma  reportagem  de  um  dos  principais 

jornais negros sobre os encontros de organização da Frente comentou sobre a 

atmosfera palpável de esperança e expectativa. “A reunião de ontem à noite 

foi  realmente  notável,  tanto  sob  o  ponto  de  vista  de  assistência,  que  foi 

vultosíssima, quanto pelos discursos oferecidos... Sente-se visivelmente uma 

consciência nacional despertando entre os negros brasileiros, impelindo-os a 

uma participação mais direta na vida social a política do país...”.

74

 

 



Contando com diversos departamentos como instrução e cultura, musical, médico, de 

imprensa, esportivo, de artes e ofícios, jurídico-social, doutrinário e de comissão de moços, a 

Frente  se  propunha,  conforme  ditavam  seus  estatutos  registrados  em  novembro  de  1931,  a 

realizar  “a  união  política  e  social  da  Gente  Negra  Nacional,  para  a  afirmação  dos  direitos 

históricos  da  mesma,  em  virtude  da  sua  atividade  material  e  moral  no  passado  e  para 

reivindicação  de  seus  direitos  sociais  e  políticos,  atuais,  na  comunhão  brasileira”  ao  mesmo 

                                                 

73

 GOMES, 2005, p. 48. 



74

 ANDREWS, 1998, pp. 230-231. 




 

40

tempo  que  almejava  a  “elevação  moral,  intelectual,  artística,  técnica,  profissional  e  física, 



assim como assistência, proteção e defesa social, jurídica, econômica e do trabalho da Gente 

Negra”.


75

 

Através  do  seu  periódico  oficial  a  partir  de  1933,  A  voz  da  raça,  a  Frente 



constantemente se posicionou a respeito das questões que agitaram a cena política do Brasil e 

do mundo durante a década de 1930, além de atuar também como “grupo de pressão e lobby 

em  questões  que  envolvessem  a  discriminação  racial”.

76

  Em  1932,  por  exemplo,  a  FNB 



atacou  a  questão  do  impedimento  ao  ingresso  de  negros  na  Guarda  Civil  de  São  Paulo  (que 

passou de formal a velado depois da já mencionada campanha do Centro Cívico Palmares em 

1928), chegando a apelar diretamente ao Presidente Vargas que, “após receber uma delegação 

da liderança da Frente, ordenou à Guarda que alistasse imediatamente 200 recrutas negros”.

77

 

Em  1933,  Arlindo  dos  Santos  Veiga,  presidente  da  entidade,  foi  lançado  como 



candidato a deputado constitucional, simultaneamente a outro candidato negro, José Bento de 

Assis,  que  no  ano  anterior  havia  participado  da  Revolução  Constitucionalista  como 

comandante  da  Legião  Negra  de  São  Paulo.  A  candidatura  de  Assis  surgiu  como  um 

contraponto ao  pensamento  predominante  da  FNB,  na época extremamente  influenciado  por 

Santos  Veiga,  cuja  formação  católica  e  ultraconservadora  fez  com  que  se  aproximasse  do 

integralismo  e  dos  fascismos  emergentes,  além  de  ser  um  veterano  militante  da  causa 

monarquista.  Seus  discursos à época  da campanha  e mesmo  depois, ao  longo  do  restante  da 

década, eram profundamente nacionalistas, contrários à imigração e denunciatórios do perigo 

do  bolchevismo,  em  contrapartida  ao  tom  mais  conciliatório  de  Bento  de  Assis,  cuja 

abordagem da questão racial propunha “um segundo treze de maio” para o negro brasileiro.

78

 

Nenhum dos candidatos alcançou sucesso no pleito. 



Entre  os  anos  de  1933  e  1936,  dissidências  da  militância  negra  paulista  passaram a 

criticar com freqüência o projeto político da Frente, que era cada vez mais influenciado pelo 

conservadorismo de seus líderes, muito embora seu alcance não se estendesse muito além da 

capital  paulista,  já  que  o  núcleo  de  Santos  “apoiava  o  Partido  Socialista  nas  eleições  e 

mantinha fortes ligações com o Sindicato dos Portuários”.

79

 A criação de uma pequena Frente 



Negra  Socialista  evidenciou  esse  afastamento  da  FNB  dos  setores  moderados  e  de  esquerda 

do  movimento  negro  paulista,  ao  mesmo  tempo  em  que  suas  diatribes  contra  estrangeiros  e 

                                                 

75

 GOMES, 2005, p. 52. 



76

 ANDREWS, 1998, p. 234. 

77

 Idem. 


78

 GOMES, op. cit., pp.64-65. 

79

 Idem, p. 60. 




 

41

bolcheviques  se  tornavam  cada  vez  mais  enérgicas,  bem  como  seu  apoio  aos  regimes 



totalitários em ascensão.

80

 



Embora  essa  radicalização  política  dificultasse  a  unificação  dos  interesses  da  gente 

negra do Brasil, 

A  FNB  continuaria  em  1935  e  1936,  quando  se  transformou  em  partido 

político.  Havia  mesmo  a  perspectiva  de  um  partido  com  representação 

nacional.  Mas  em  1937,  veio  o  Estado  Novo  de  Getúlio  Vargas,  fechando 

partidos  e  associações  políticas.  Foi  um  duro  golpe  para  a  FNB.  Houve 

mesmo  um  refluxo  nas  associações  negras  existentes.  De  um  lado,  o  medo 

da  perseguição;  de  outro,  a  decepção  diante  da  impossibilidade  de  uma 

organização nos moldes políticos partidários.

81

 



 

Raul Joviano do Amaral, um dos idealizadores da Frente em 1931, ainda tentou, por 

pouco tempo, “manter a organização, sob forma não-partidária, com o nome de União Negra 

Brasileira”,

82

  mas  sem  o  apoio  dos  antigos  militantes,  a  entidade  acabou  sucumbindo, 



ironicamente, às vésperas do treze de Maio. Iniciava-se a partir dali, um dos pontos altos do 

autoritarismo  político  no  Brasil  do  século  XX,  com  o  fechamento  do  Congresso  Nacional, 

extinção  dos  partidos  políticos  e  censura  à  imprensa.  O  Departamento  de  Propaganda  e 

Difusão  Cultural  fundando  em  1934  evoluiria  no  final  de  1939  para  o  Departamento  de 

Imprensa e Propaganda, órgão máximo de censura e divulgação da ideologia do Estado Novo.  

A  promulgação  de  uma  constituição  autoritária  e  centralizadora  em  1937  colocava 

extraordinários poderes nas mãos do chefe do poder executivo, fazendo desta segunda fase do 

governo de Getúlio Vargas 

 

[...] um período durante o qual as liberdades políticas e intelectuais estavam 



severamente circunscritas e não havia vias institucionais para a expressão de 

dissidência  e  oposição  políticas.  As  organizações  de  massa  capazes  de 

constituir  uma  ameaça  ao  governo  eram  reprimidas  (destino  final  do 

movimento  integralista)  ou  mantidas  sob  o  controle  firme  do  Estado  (caso 

dos sindicatos).

83

 



 

Seria  nessa  peculiar  conjuntura  que  o  cinqüentenário  do  treze  de  maio  seria 

comemorado.  A  imensa  maioria  da  sociedade  civil,  suas  associações  e  organizações  e  suas 

respectivas imprensas haviam percorrido em maior ou menor grau de intensidade o caminho 

                                                 

80

 George Reid Andrews aponta para existência na FNB de uma “milícia” policial inspirada nos Camisas Verdes 



de Plínio Salgado, comandada por Pedro Paulo Barbosa (além da adoção do lema “pela família, pelo país e por 

Deus”, acrescentado de “pela raça” ao final). Cf. ANDREWS, 1998, pp. 238-239. 

81

 GOMES, 2005, p. 66. 



82

 FAUSTO, Boris. O crime do restaurante chinês: carnaval, futebol e justiça na São Paulo dos anos 30. São 

Paulo: Companhia das Letras, 2009. p.130. Embora efêmera, a União Negra Brasileira teve importante atuação 

no episódio tratado pelo autor, contratando o jovem advogado Paulo Lauro para defender Arias de Oliveira, 

acusado de assassinar quatro pessoas no Carnaval de 1938. 

83

 ANDREWS, op. cit., p. 240. 




 

42

de contestação à velha ordem representada pela República Oligárquica e apoio ao movimento 



de  1930.  Mas  poucas  escaparam  ilesas  do  torvelinho  de  radicalização  política  da  década,  e 

muitas  delas  –  a  exemplo  da  Frente  Negra  Brasileira  –  foram  pulverizadas  pela  guinada 

antidemocrática representada pelo estabelecimento do Estado Novo. 

O racismo científico já havia sido espanado dos grandes círculos intelectuais do país, 

tendo sido gradualmente desacreditado primeiro, a partir da década de 1920, por um discurso 

de cunho higienista que pregava a aplicação de uma “medicina social” para sanar os males e 

doenças que degeneravam o corpo social, e depois, a partir da década de 1930, pelo cativante 

discurso  de  Gilberto  Freyre,  de  louvor  à  miscigenação  e  do  vigoroso  argumento  de  que  o 

Brasil é um país que “se define pela raça”.

84

 A importância da herança africana para o Brasil 



já era reconhecida, e a mistura entre as raças que havia marcado os quatro séculos anteriores 

de história já não era mais vista como uma mancha ou empecilho ao desenvolvimento, e sim 

como motivo de orgulho e traço definidor da nacionalidade. 

Em  suma,  os  afro-brasileiros  já  tinham  o  seu  lugar  no  passado  reconhecido,  muito 

embora  no  presente  esse  reconhecimento  fosse  muito  mais  difícil  de  ser  alcançado. 

Imprensado pelo início de um regime que rapidamente se equipava para consolidar e expandir 

a  sua  influência,  conquistando  corações  e  mentes  por  todo  o  país  aparecia  o  treze  de  maio, 

completando  cinqüenta  anos.  Um  momento  encorajante  para  reflexões  a  respeito  de  um 

passado tão recente e que provocava tanto desassossego. 

 

O estado  de Santa Catarina que testemunharia o treze de maio de 1938 apresentava 



no final daquela década duas características que o distinguiam do restante do país, no sentido 

de definir o contexto social no qual a sua imprensa e suas instituições de elaboração do saber 

iriam produzir e reproduzir interpretações a respeito da data da abolição. 

Em  primeiro  lugar,  a  utilização  da  mão-de-obra  escrava  na  província  de  Santa 

Catarina  sempre  foi  significativa  ao  longo  do  século  XIX.  Ao  se  levar  em  conta 

levantamentos populacionais feitos entre 1797 e censo de 1872, o percentual de escravos em 

relação  à  população  livre  sempre  oscilou  entre  aproximadamente  20%  a  22%  da  população 

total  da  província,  com  um  decréscimo  significativo  acontecendo  somente  a  partir  das 

reformas de 1871, quando no censo do ano seguinte a população escrava baixou para cerca de 

9,3%  do  número  total  de  habitantes,  um  número  que  ainda  assim  pode  ser  considerado 

                                                 

84

 SCHWARCZ, 1993, p. 247. 




 

43

expressivo  levando-se  em  conta  o  crescimento  da  população  livre,  principalmente  de 



imigrantes.

85

  



Embora considerável do ponto de vista quantitativo, a presença de escravos em Santa 

Catarina  era  relativamente  pequena  em  comparação  às  grandes  regiões  agroexportadoras  do 

nordeste  e  sudeste  do  país,  onde  a  cultura  extensiva  da  cana-de-açúcar  e  do  café  resultou 

numa demanda muito maior e mais constante pela mão-de-obra escrava, e  onde a população 

de  escravos  africanos  e  crioulos,  especialmente  durante  a  primeira  metade  do  século  XIX, 

geralmente  representava  um  terço  de  todos  os  habitantes.  A  presença  de  escravos  no  estado 

esteve,  portanto,  vinculada  a  uma  realidade  econômica  específica,  de  pequena  produção 

comercial  voltada  para  o  mercado  interno  de  abastecimento,

86

  fazendo  com  que  tanto  em 



observações  de  contemporâneos  da  escravidão  quanto  em  estudos  históricos  ao  longo  da 

maior  parte  do  século  XX  a  escravidão  em  Santa  Catarina  tendesse  a  ser  menosprezada  em 

comparação com o restante do país.

87

 



Em  segundo  lugar,  o  estado  de  Santa  Catarina  às  vésperas  do  treze  de  maio 

apresentava uma população que nos últimos cinqüenta anos havia se “embranquecido” numa 

proporção muito maior do que o resto do país, ao menos no que pode ser auferido através da 

análise  de  dois  censos  cuja  distância  em  anos  corresponde  de  maneira  aproximada  aos 

cinqüenta  anos  passados  desde  a  Lei  Áurea:  o  de  1890  e  o  de  1940.  Neles,  podem  ser 

observadas  diferenças  expressivas  em  relação  às  modificações  das  composições  étnicas  da 

sociedade brasileira e catarinense, segundo aponta a tabela a seguir: 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

                                                 



85

 PEDRO, Joana Maria et alNegro em terra de branco: escravidão e preconceito em Santa Catarina no século 

XIX. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988. p. 19. 

86

 Idem, p. 16. 



87

 LEUCHTENBERGER, Rafaela. Novas perspectivas para a historiografia do trabalho em Santa Catarina. 






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