Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938


 Era Vargas, Brasil e Santa Catarina no Cinqüentenário



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3. Era Vargas, Brasil e Santa Catarina no Cinqüentenário. 

 

 

Quem  mandava  aqui  era  eles,  eles  que  eram  donos  do  mundo...  a  Princesa 



Isabel acabou com o  cativeiro, mas depois continuou o aperto ainda. Quem 

derrubou  um  bocado  desse  aperto  foi  Getúlio  Vargas,  em  1930,  foi 

derrubando, derrubando, derrubando e acabou com o cativeiro... até acabou 

com o aperto, não é cativeiro não, é o aperto. 

[...]  Em  30  que  houve  a  libertação,  que  antes  disso,  de  30,  os  fazendeiros 

ainda  prendiam  os  camaradas  à  força.  Botava  na  frente,  levava  a  cavalo... 

não tinha lei. Depois que o Getúlio acabou com esse negócio... botou lei, lei, 

lei  até  que  mataram  ele  depois.  Quem  botou  a  lei  foi  o  Getúlio,  antes  não 

tinha lei não. 

 

Joaquim Elias – Seu Julião, RJ, 27/10/1995



63

 

 



Ah, minha irmã... o Getúlio adiantou nosso povo. O Getúlio começou a lei, 

com Getúlio tinha lei, irmã. Não existia lei antes do Getúlio não, irmã. 

[...] O povo, a gente era bicho. Olha aqui: não foi a Princesa Isabel que nos 

libertou  não.  Ela  assinou,  irmã,  mas  não  fez  nada  não,  irmã.  Ela  assinou  a 

libertação,  mas  quem  nos  libertou  do  jugo  da  escravatura,  do  chicote,  do 

tronco, foi Getúlio, Getúlio Dorneles Vargas. 

 

Cornélio Cancino, RJ, 9/05/1995



64

 

 



Os  depoimentos  acima,  integrantes  do  acervo  do  Laboratório  de  História  Oral  e 

Imagem  da  Universidade  Federal  Fluminense e  apresentados  por  Hebe Mattos e  Ana  Lugão 

Rios em Memórias do Cativeiro são determinantes para compreender a extensão da influência 

da Revolução de 1930 e do Estado Novo sobre o imaginário nacional, e em particular sobre o 

segmento  da  população  brasileira  que  nas  primeiras  décadas  do  século  XX  vinha  lutando 

contra o passado e os estigmas da escravidão, ainda muito recente na memória do país. 

Em  seu  conjunto,  os  relatos  selecionados  revelam  uma  divisão  categórica:  se  até  a 

chegada da década de 1930 o cotidiano dos filhos e netos de ex-escravos era marcado por uma 

extrema mobilidade em busca de melhores condições de trabalho, dificuldade em alcançar um 

melhor  padrão  de  vida  e  convivência  com  a  arbitrariedade  (e  por  vezes  violência)  dos 

fazendeiros  e  proprietários  de  terra,  após  a  Revolução  de  1930  ocorre  uma  inflexão  no  tom 

dos  relatos,  que  de  forma  unânime  passam  a  exaltar  as  enormes  contribuições  sociais  que  o 

governo Vargas teria proporcionado para suas famílias, contrapondo o período de bonança e 

                                                 

63

 RIOS; MATTOS, 2004, pp. 127-128 



64

 Idem, p. 129. 




 

35

justiça  que  se  inaugurou  com  os  tempos  difíceis  que  se  seguiram  ao  fim  do  cativeiro, 



especialmente as três primeiras décadas do século XX. 

É  certo  que  muito  desta  profunda  devoção  à  era  Vargas  não  foi  somente  fruto 

imediato  de  quaisquer  transformações  sociais  efetivas  que  tenham  ocorrido  na  década  de 

1930, mas está diretamente relacionada ao pós-1937, e à bem-sucedida tarefa da máquina de 

propaganda  estadonovista,  constituída  principalmente  pelo  Departamento  de  Imprensa  e 

Propaganda e o Ministério do Trabalho, de construir o maior e mais eficiente mito político da 

história  do  Brasil.  A  extensão  do  sucesso  deste  empreendimento  pode  ser  identificado  no 

relato  de  Cornélio  Cancino  quando  este  afirma  que  “não  existia  lei  antes  do  Getúlio”.  É 

inclusive  curioso  observar  tamanha  admiração  de  um  agricultor  pela  era  de  justiça 

proporcionada pelo presidente já que, conforme aponta Ângela de Castro Gomes, as benesses 

da legislação trabalhista de Vargas não eram estendidas aos trabalhadores do campo.

65

 



Embora  os  debates  historiográficos  em  torno  da  Revolução  de  1930  tendam  a  se 

polarizar, tendo de um lado a interpretação de “ruptura” com os antigos modelos políticos e 

econômicos e do outro a tese da “continuidade” na forma de uma simples troca de poder entre 

oligarquias  regionais,

66

  ao  observar  a  trajetória  do  pensamento  racial  brasileiro,  da 



historiografia  nacional  a  respeito  da  escravidão  e  da  experiência  das  populações  de  origem 

africana ao longo do século XX, é impossível não observar uma profunda mudança a partir de 

1930,  especialmente  nos  anos  imediatamente  subseqüentes  à  chegada  de  Vargas  ao  poder. 

Sob  todos  os  aspectos,  foi  uma  época  em  que  muitas  idéias  sobre  a  herança  escravista  do 

Brasil  foram  abandonadas  e  tantas  outras  foram  criadas  para  se  arraigarem  fortemente  no 

imaginário nacional. 

O próprio uso do termo “revolução” parece apropriado para definir a época a partir 

deste  ponto  de  vista.  Vavy  Pacheco  Borges  aponta  a  analogia  feita  por  Sérgio  Buarque  de 

Holanda  em  seu  Raízes  do  Brasil  de  1936  entre  o  processo  iniciado  em  1888  e  os 

acontecimentos de 1930: uma revolução “à brasileira”, lenta e pacífica, cujo fim seria liquidar 

os  “fundamentos  personalistas”  que  durante  séculos  impediram  o  pleno  desenvolvimento  do 

país.


67

 Não é fortuito que o pensamento de um dos maiores intelectuais brasileiros do século 

XX  esteja  de  certa  forma  contido  nas  falas  de  camponeses  de  origem  africana  do  Vale  do 

Paraíba,  que  de  forma  quase  unânime  identificam  a  Revolução  de  1930  com  “libertação”, 

“leis” e “justiça”. 

                                                 

65

 GOMES, Ângela de Castro. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro: IUPERJ, 1988. 



66

 BORGES, Vavy Pacheco. Anos trinta e política: história e historiografia. In: FREITAS, Marcos Cezar de 

(Org.). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 2005. 

67

 Idem, p. 168. 




 

36

O  marco  dessa  virada  de  pensamento  que  correu  paralelamente  às  transformações 



sociais  advindas  com  a  Revolução  foi  o  destaque  alcançado  pela  obra  de  Gilberto  Freyre, 

principalmente  seu  livro  Casa  grande  e  senzala  de  1933,  cuja  influência  se  faria  sentir  no 

Brasil e no mundo de sua época, bem como nas comemorações do cinqüentenário da Abolição 

que  seriam  realizadas  dali  a  cinco  anos.  É  de  fato  impossível  entender  o  tom  das 

comemorações  de  1938  sem  atentar  para  a  profunda  influência  que  suas  principais  idéias 

tiveram  para  o  cenário  intelectual  da  década  de  1930:  a  concepção  de  uma  sociedade 

paternalista, baseada no poder patriarcal com ênfase nas relações pessoais - onde a extensão 

do  domínio  escravista  e  a  intensa  miscigenação  entre  as  raças  foram  interpretadas  como 

resultado de uma relação amena entre senhores e escravos. Mais do que esse caráter peculiar 

da escravidão brasileira, de “moderação e doçura” dos senhores em relação aos escravos em 

comparação  com  outros  países  onde  também  imperavam  regimes  escravistas,  outros  dois 

aspectos  sobremaneira  importantes  seriam  extraídos  da  obra  de  Gilberto  Freyre  e 

incorporados aos debates nos anos seguintes. 

De  um  lado,  a  antropologia  cultural  de  Gilberto  Freyre  inaugurou  uma  nova  era  na 

história e na sociologia brasileiras, ao atentar pela primeira vez para a importância decisiva da 

herança africana para a evolução da sociedade nacional, provocando uma “mudança de curso 

das idéias pseudo-científicas sobre a inferioridade da raça negra, ao destacar de modo incisivo 

as  raízes  africanas  e  a  importância  destas  na  cultura  brasileira”  de  forma  que  em  todos  os 

grandes estudos de história e  sociologia posteriores, essa herança cultural jamais deixaria de 

ser tratada como fator crucial.

68

 

Por outro lado, a obra de Freyre ajudou a cristalizar o conceito (embora para muitos 



não passe de um mito) de “democracia racial”. Em suas linhas mais gerais, a tese sustenta ser 

o Brasil 

[...] uma terra inteiramente livre de impedimentos legais e institucionais para 

a  igualdade racial, e  em  grande parte (particularmente em  comparação com 

os  Estados  Unidos)  também  isento  de  preconceito  e  discriminação  raciais 

informais.  A  nação  oferece  a  todos  os  seus  cidadãos  –  negros,  mulatos  ou 

brancos – uma igualdade de oportunidade virtualmente completa em todas as 

áreas  da  vida  pública:  educação,  política,  empregos,  moradia.  Por  isso,  os 

afro-brasileiros desfrutam de oportunidades para se aprimorar e da liberdade 

para  competir  com  seus  concidadãos  na  luta  por  bens  públicos  e  privados, 

em grau desconhecido em qualquer outra sociedade multirracial do mundo.

69

 



 

                                                 

68

 QUEIRÓZ, Suely Robles Reis de. Escravidão negra em debate. In: FREITAS, Marcos Cezar de (Org.), 2005, 



p. 104. 

69

 ANDREWS, 1998, p. 203. 




 

37

Muito  embora  a  realidade  social  do  país  desmentisse  esse  quadro  de  igualdade  de 



direitos  e  condições,  o  tom  simultaneamente  conciliatório  e  autoritário  da  política  brasileira 

durante  o  Estado  Novo  foi  um  terreno  especialmente  fértil  para  a  consagração  dessa  idéia  a 

respeito  da  história  do  Brasil:  um  caldeirão  étnico  que  serviu  para  amenizar  as  diferenças 

raciais  durante  a  vigência  da  escravidão  e  liquidá-las  com  o  seu  fim.  Numa  sociedade  onde 

emergiam novos valores de trabalho e patriotismo, o conceito de uma sociedade solidária, sem 

distinções entre raças e composta apenas de trabalhadores conscientes do seu dever para com 

a nação era extremamente útil para fins de propaganda política. No entanto, seria apenas com 

a  instauração  da  ditadura  do  Estado  Novo  em  1937  que  tal  conceito  (depurado  de  seus 

aspectos mais radicais de esquerda e direita) seria sistematizado pela máquina de propaganda 

varguista e utilizado como poderosa ferramenta política. Ainda no começo desse percurso, o 

início da Era Vargas traduzir-se-ia num momento de grande agitação política e intelectual, na 

qual a população negra do Brasil veria uma oportunidade de se fazer ouvida. 

 

De fato, os primeiros anos da década de 1930 revelam-se como o ponto alto de um 



longo  processo  de  organização  da  vida  associativa  das  populações  negras  de  todo  o  país, 

especialmente em São Paulo, onde o crescimento industrial dos anos 1930 atraiu um grande 

contingente  de  trabalhadores  nacionais  e  estrangeiros,  estabelecendo  tensões  e  disputas  pelo 

trabalho e por espaços de sociabilidade. Flávio dos Santos Gomes aponta para o nascimento 

entre o início do século XX e o estabelecimento do Estado Novo de uma verdadeira “classe 

dos  homens  de  cor”  no  estado  de  São  Paulo,  baseada  em  clubes,  associações  e  ligas 

recreativas  e  fortemente  amparada  por  dezenas  de  jornais  e  periódicos  que  dialogavam 

intensamente  com  as  idéias  que agitavam  a  cultura  e a  política  da  época. Apesar  de  ter  sido 

protagonizada  pela  pequena  fração  da  população  negra  alfabetizada  da  época,  a  imprensa 

negra paulista desempenhou um importante papel ao produzir durante o período 

 

[...] interpretações diferenciadas sobre os problemas político-sociais do país 



através de um olhar reflexivo. Isso porque, ao fazê-lo, inseria-se num cenário 

em  que  grande  parte  dos  projetos  políticos  de  “direita”  ou  de  “esquerda” 

preferia  ignorá-la  –  como  seguiu  fazendo  a  imensa  maioria  das  narrativas 

historiográficas do período.

70

 

 



Mesmo antes do clima de possibilidades e expectativas instaurado pela Revolução, a 

intelectualidade  negra  de  São  Paulo  expunha  suas  idéias  a  respeito  da  necessidade  do 

progresso da raça negra no Brasil. Em 1925, O Clarim d’Alvorada, de São Paulo, propunha a 

                                                 

70

 GOMES, 2005, pp. 35-36. 




 

38

realização de um Congresso da Mocidade dos Homens de Cor, e um ano depois, era criado o 



Centro Cívico Palmares. Originalmente dedicado à formação de uma biblioteca comunitária, 

 

A organização logo progrediu e passou a patrocinar encontros e conferências 



sobre  questões  de  interesse  público,  e  em  1928  lançou  uma  campanha  para 

derrubar um decreto do governo que proibia aos negros ingressar na milícia 

do  Estado,  a  Guarda  Civil.  O  Centro  foi  bem-sucedido  ao  requerer  do 

Governador Júlio Prestes que suspendesse o decreto, e depois o convenceu a 

derrubar uma proibição similar que impedia as crianças negras de participar 

de  uma  competição  patrocinada  pelo  Serviço  Sanitário  de  São  Paulo  para 

encontrar o bebê mais “robusto” e eugenicamente desejável do Estado.

71

 



 

Além  dessa  atuação  destacada  de  reivindicação  de  direitos,  os  pensadores  dos 

movimentos  negros  ainda  articulavam-se  constantemente  com  seus  pares  norte-americanos, 

realizando  um  intercâmbio  de  idéias  onde eram postas  em  contraste  suas diferentes  visões  a 

respeito  de  mobilização  política,  raça  e  cidadania.  Em  Mães  pretas,  filhos  cidadãos,  artigo 

onde é discutido o envolvimento da intelectualidade negra do Rio de Janeiro e São Paulo em 

torno da proposta de construção de um monumento em homenagem à Mãe Preta na cidade do 

Rio, Micol Siegel, demonstra como as noções de fraternidade e harmonia racial, corroboradas 

através  da  comparação  com  a  realidade  muito  mais  lúgubre  das  relações  entre  negros  e 

brancos  nos  Estados  Unidos,  já  apareciam  como  eixo  mais  visível  da  fama  internacional  do 

país já na década de 1920, muito antes de serem popularizadas pela obra de Gilberto Freyre: 

 

O  jornal  Progresso  [em  1928]  publicou  a  opinião  vigente  de  um  viajante 



hindu  teosofista  que  afirmava  que  os  brasileiros  demonstravam  ter  mais 

“fraternidade” que qualquer outro povo que ele havia conhecido; [em 1926] 

Gervasio  Moraes,  de  O  Clarim  criticou  a  KKK  e  o  ódio  racial  norte-

americano,  enquanto  exaltava  seu  país,  onde  “o  negro  brasileiro  estende  a 

mãe  da  fraternidade  aos  seus  irmãos  brancos...”.  Os  linchamentos  e  outros 

horrores  das  relações  raciais  norte-americanas,  lembrou  um  autor  do  jornal 






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