Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938



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abolicionista, a ênfase estava na maneira com que essas mesmas autoridades 

interpretaram  a  lei  e  a  aplicaram,  protegendo  os  escravos  e  criando 

jurisprudência. 

[...]  Dessa  forma,  a  lei  teria  desempenhado  um  papel  fundamental  na 

determinação da forma com que a transformação se realizou, possibilitando 

que  a  “evolução”  seguisse  seu  melhor  curso,  dentro  da  ordem  e  com  a 

manutenção da harmonia. No caso da abolição, a lei era ainda mais relevante 

porque,  tendo  a  propaganda  abolicionista  atingido  também  os  escravos,  fez 

surgir neles a “consciência do seu valor pessoal”, a crença de que era “lícita 

e possível a reação”.

59

 

 



A  lucidez  com  Evaristo  analisa  o  processo  abolicionista  brasileiro  em  sua  fase  dita 

“radical”,  entre  1879  e  1888,  e  presente  na  principal  compilação  de  suas  pesquisas  sobre  o 

assunto  publicado  em  1933  sob  o  título  A  escravidão  africana  no  Brasil  é  extremamente 

relevante  ao  se  procurar  entender  a  influência  que  aquele  tumultuado  período  da  história 

brasileira teria nas décadas seguintes. 

Se como já foi apontado, havia uma preocupação das classes políticas e intelectuais 

que conduziram o abolicionismo brasileiro a partir de 1871 de que aquela luta extrapolasse o 

âmbito das discussões parlamentares, travadas entre homens ilustrados e bem-preparados para 

comandar uma questão de tamanha importância e tomasse a direção de fugas e levantes que 

concorreriam  para  a  convulsão  da  ordem  social,  o  historiador  Evaristo  de  Moraes  revela  o 

quanto esse temor era fundado. Embora sua obra de 1933 seja uma história política da gradual 

extinção da escravidão legal no Brasil, de 1831 a 1888, fica evidente em seu texto a maneira 

como a partir da década de 1880, os políticos do império não conduziram o abolicionismo, e 

sim foram conduzidos por ele. 

Evaristo aponta que mesmo tendo a intensificação da campanha abolicionista a partir 

de 1881 logrado abalar o país inteiro, os empedernidos interesses escravistas representados no 

parlamento permaneceram intransigentes no seu receio de que a extinção do trabalho escravo 

                                                 

59

 MENDONÇA, 2007, pp. 339-340. 




 

33

fosse  acarretar  uma  total  desestruturação  da  vida  econômica  e  social  do  país,  e  que  foi 



somente a partir do momento em que temeram que a torrente representada pelas debandadas 

massivas  de  cativos  em  direção  a  refúgios  como  a  Serra  de  Cubatão  em  São  Paulo,  e  as 



retiradas  de  fazendas  seguidas  por  incêndios  de  canaviais  como  em  Campos,  no  Rio  de 

Janeiro,  representassem  uma  ameaça  às  próprias  instituições  políticas  do  Brasil  que 

finalmente  começaram  a  transigir,  carregados  pela  onda  abolicionista  que  unia  escravos  e 

libertos,  jornalistas  e  intelectuais,  magistrados  e  o  exército.

60

  O  contexto  das  deliberações 



finais na sessão onde seria aprovada a lei de 1888 era de uma câmara “como que sitiada” pelo 

clamor popular, o que fez da tão celebrada Lei Áurea, nas palavras do autor, nada mais do que 

“um gesto oficial, forçado pelas circunstâncias”.

61

 



É impossível não atentar para o quão traumáticos foram esses acontecimentos para as 

elites  políticas  do  Brasil,  pela  primeira  vez  acossadas  por  um  movimento  popular  de 

extraordinário  vigor,  e  de  como  o  receio  de  que  campanhas  do  mesmo  tipo  novamente 

viessem  a  influenciar  em  assuntos  de  competência  das  classes  ilustradas  da  nação  foram 

decisivos  na  elaboração  dos  projetos  políticos  subseqüentes.  A  república  oligárquica  e 

excludente, o racismo científico defendido pelos intelectuais daquele início do século XX, as 

expectativas  de  que  a  miscigenação  resultasse  num  país  mais  branco  e  civilizado,  são  todas 

idéias que carregam em si um tanto daquele convulsionado período em que a escravidão caiu 

junto com a monarquia. 

Um  adolescente à  época  daqueles acontecimentos,  Evaristo  atravessou  grande  parte 

do regime republicano que se sucedeu batendo-se constantemente contra a desqualificação e 

marginalização  dos  herdeiros  daquela  liberdade  de  1888,  os  negros  e  mulatos,  estivadores, 

operários e prostitutas dos subúrbios do Rio, sempre com fé inabalável no rigor da justiça e na 

sua capacidade de transformação social. 

Ganhando  respeito e notoriedade, com o fim da República Velha foi escolhido para 

compor a equipe do Ministério do Trabalho de Lindolfo Collor, envolvendo-se diretamente na 

elaboração das primeiras leis trabalhistas elaboradas pelo governo de Getúlio Vargas. 

Se para o mulato carioca de origens humildes a experiência da década de 1930 seria 

de  certa  forma  “a  história  se  cumprindo”,

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  para  os  milhões  de  descendentes  de  africanos  a 



década de Vargas – e a década do cinqüentenário - seriam da história se reinventando. 

 

                                                 



60

 MORAES, Evaristo de. A escravidão africana no Brasil: das origens à extinção. Brasília: Editora 

Universidade de Brasília, 1998 [1ª Ed. 1933]. pp. 119-120 

61

 Idem, p. 129. 



62

 MENDONÇA, 2007, p. 365. 



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