Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938


Revista de Ciências Sociais



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Revista de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, vol. 45, n° 4, 2002. pp. 677-704. p. 679. 


 

27

primeira  vez  se  oferecia  a  possibilidade  de  um  “tratamento  científico  do  criminoso”  com  o 



intuito de proteger e a sociedade.

42

 



O pensamento da “escola italiana” aparece no Brasil em fins do século XIX, quando 

João Vieira de Araújo, professor da Faculdade de Direito do Recife começa a ensinar as teses 

lombrosianas  aos  alunos  da  faculdade  e  a  defendê-las  em  artigos  publicados  em  revistas  do 

Rio de Janeiro. Ao longo do início do século XX, diversos pensadores e cientistas brasileiros 

como Viveiros de Castro e Cândido Mota escrevem obras profundamente influenciadas por 

homem  delinqüente,  obra  máxima  de  Lombroso  publicada  em  1876.  Seu  mais  conhecido 

defensor  brasileiro,  no  entanto,  viria  do  caldeirão  étnico  da  Bahia,  e  da  Faculdade  de 

Medicina  de  Salvador:  o  médico  legista,  psiquiatra,  professor  e  antropólogo  maranhense 

Raimundo de Nina Rodrigues – ele próprio um mulato. 

Em  1894,  no  ensaio  As  raças  humanas  e  a  responsabilidade  penal  no  Brasil,  o 

pensamento  racial  de  Nina  Rodrigues  atinge  um  ponto  radical,  quando  propõe  uma 

reformulação  da  legislação  penal  para  que  esta  solucionasse  o  grande  problema  do  país:  “a 

‘inexistência de uniformidade étnica’ e a excessiva mistura da população brasileira”.

43

 O autor 



aponta que as gerações resultantes da “excessiva mistura” estavam condenadas a padecer de 

alcoolismo, epilepsia,  loucura, e toda  uma coleção  de  outras  doenças  físicas  e  psíquicas  que 

via  de  regra  compunham  o  perfil  dos  criminosos  colhidos  pela  justiça.  A  única  saída  era 

esquecer o  crime e atentar para o criminoso, pois era impossível aplicar a mesma legislação 

penal  para  raças  com  níveis  diferentes  de  evolução.

44

  Conforme  Nina  Rodrigues  afirmava 



categoricamente, “não pode ser admissível em absoluto a igualdade de direitos, sem que haja 

ao mesmo tempo, pelo menos, igualdade de evolução”.

45

 Assim, 


 

Se  as  características  raciais  locais  influíam  na  gênese  dos  crimes  e  na 

evolução  específica  da  criminalidade  no  país,  conseqüentemente  toda  a 

legislação penal deveria adaptar-se às condições nacionais, sobretudo no que 

diz respeito à diversidade racial da população.

46

 



 

Além das propostas de reformar a legislação da República de maneira a acomodar as 

diferenças étnicas da população, a partir dos anos 1920 os projetos de uma política eugênica 

começam  a  ganhar  força  nas  publicações  médicas  do  país,  especialmente  na  Bahia.

47

  Era 


preciso  “cuidar  das  raças”,  e  as  sugestões  iam  desde  a  introdução  da  educação  física  como 

                                                 

42

 ALVAREZ, 2002, p. 679.  



43

 SALES JÚNIOR, 2008, p. 125. 

44

 SCHWARCZ, 1993, p. 209. 



45

 Idem, p. 212. 

46

 ALVAREZ, Op. Cit., p. 694, 



47

 SCHWARCZ, Op. Cit., p. 215. 




 

28

forma  de  aperfeiçoar  corpos  e  mentes  até  a  “profilaxia  matrimonial”,  que  visava  evitar 



casamentos  entre  indivíduos  que  carregassem  doenças  transmissíveis  ou  sinais  dos  diversos 

tipos  de  loucura  identificáveis.  No  entanto,  o  que  invariavelmente  acabava  dando  alento  a 

quase todos os estudiosos que de uma forma ou de outra se abatiam com a degeneração racial 

do Brasil do século XX era sempre a miscigenação, cujo resultado final ao cabo de algumas 

gerações era finalmente homogeneizar o caudal de etnias que atrapalhava o desenvolvimento 

do país. 

Embora  amplamente  assimiladas  e  defendidas  pela  intelectualidade  da  época,  as 

interpretações  deterministas  da  herança  africana  do  Brasil  não  fizeram  coro  único  na  época. 

Vozes dissonantes e fortemente imbuídas de um novo tipo de nacionalismo que atingiria seu 

ponto máximo dali a pouco mais de uma década se faziam ouvir, como o jornalista e político 

sergipano  Gilberto  Amado,  que  em  seu  discurso  de  posse  como  deputado  federal  em  1916, 

intitulado As instituições políticas e o meio social no Brasil, atacava as certezas exageradas a 

respeito  das  diferenças  entre  as  raças  e  propunha  uma  análise  histórica  dos  problemas  do 

Brasil, ou o educador mineiro Basílio de Magalhães que à mesma época se punha a louvar o 

ímpeto  desbravador  da  civilização  mestiça  gestada  no  Brasil  através  de  quatro  séculos  nos 

seus livros didáticos.

48

 

Ao  entrar  a  década  de  1920, as  preocupações em  relação  à raça sofrem  um  ponto  de 



inflexão, de uma visão pessimista do presente para a preocupação em agir de forma concreta 

para transformá-lo. É o advento do discurso higienista, que não vê tanto a mestiçagem como 

fruto do atraso intelectual dos brasileiros e sim a insalubridade em que vivem as populações 

pobres e, por extensão, de origem africana do país. 

Como aponta Lilia Schwarcz, mais do que um projeto legítimo de adaptar de maneira 

original  doutrinas  e  ideologias  de  origem  estrangeira  à  realidade  brasileira  a  fim  de  fundar 

uma  ciência  capaz  de  exercer  um  papel  de  transformação  na  sociedade,  as  teorias  raciais 

desempenharam um papel muito mais importante no Brasil: 

 

Em  meio  a  um  contexto  caracterizado  pelo  enfraquecimento  e  final  da 



escravidão,  e  pela  realização  de  um  novo  projeto  político  para  o  país,  as 

teorias  raciais  se  apresentavam  enquanto  modelo  teórico  viável  na 

justificação do complicado jogo de interesses que se montava. Para além dos 

problemas  mais  prementes  relativos  à  substituição  da  mão-de-obra  ou 

mesmo  à  conservação  de  uma  hierarquia  social  bastante  rígida,  parecia  ser 

preciso estabelecer critérios diferenciados de cidadania.

49

 

 



                                                 

48

 SKIDMORE, 1976, pp. 183-184. 



49

 SCHWARCZ, 1993, p. 18. 




 

29

Assim,  para  os  ideólogos  e  defensores  da  República,  era  extremamente  difícil 



conviver com o passado escravista do Brasil, visto como retrógado e causa direta dos males 

que se abateram durante séculos sobre o país e que ainda surtiam seus efeitos nefastos sobre a 

sociedade  republicana.  Porém,  no  sentido  que  essa  mesma  escravidão  “moldou  condutas, 

definiu  hierarquias  sociais  e  raciais,  forjou  sentimentos,  valores  e  etiquetas  de  mando  e  de 

obediência”,

50

 era ainda mais difícil para os defensores da modernidade aceitar uma possível 



quebra  dessas  hierarquias  e  condutas  de  deferência.  As  teorias  do  determinismo  racial,  as 

tentativas  de  estabelecer  “critérios  diferenciados  de  cidadania”  e  a  constante  expectativa  de 

que  a  miscigenação  trouxesse  um  futuro  mais  branco  e  civilizado  para  o  país  vinham  ao 

encontro  das  necessidades  da  intelectualidade  positivista  e  republicana  de  descaracterizar  a 

ameaça  representada  pelo  imenso  apelo  público  com  que  a  campanha  abolicionista  havia  se 

imbuído  na  sua  fase  mais  radical,  e  que  no  início  da  República  se  traduzia  no  crescente 

aumento das tensões entre ex-escravos e senhores no campo e na cidade. 

 

De fato, as grandes cidades brasileiras que experimentaram o crescimento econômico 



e  populacional  característico  do  início  do  século  XX  constituem  espaços  privilegiados  para 

observar  as  tensões  sociais  que  emergiram  com  a  virada  do  século,  e  que  estavam 

intimamente  ligadas  com  o  passado  escravista  do  Brasil.  Álvaro  Nascimento  atenta,  por 

exemplo, para o fato de que a expressiva presença de negros na Marinha de Guerra brasileira 

desde  a  Lei  do  Ventre  Livre  teve  relação  direta  com  a  Revolta  da  Chibata  liderada  pelo 

marinheiro negro João Cândido, pois os castigos corporais contra os quais os marinheiros se 

revoltaram  eram  um  “símbolo  marcante  da  escravidão  e  dos  signos  que  ela  carregava”,

51

 



assim  como  também  o  eram  algumas  condições  de  trabalho  rejeitadas  por  ex-cativos  e  seus 

descendentes na zona rural. 

Em São Paulo, George Andrews aponta para o fato de que a política imigratória do 

governo do estado entre os anos de 1900 e 1920, promovendo uma inundação do mercado de 

trabalho com imigrantes europeus surtiu um efeito devastador na mão-de-obra negra da maior 

cidade do país, posto que os recém-chegados eram invariavelmente preferidos para os postos 

da  nascente  indústria  em  detrimento  aos  descendentes  de  escravos,  que  conforme  já  foi 

salientado,  tinham  como  regra  a  busca  constante  da  igualdade  de  direitos  idealizada  em 

conseqüência do fim da instituição escravista. 

                                                 

50

 FRAGA FILHO, 2006, p. 26. 



51

 NASCIMENTO, Álvaro Pereira de. Um reduto negro: cor e cidadania na Aramada (1870-1910). In: CUNHA; 

GOMES (Org.), 2007. p. 310. 



 

30

Na  Bahia,  conforme  atesta  Wlamyra  de  Albuquerque,  os  jornalistas,  pensadores  e 



autoridades  civis  da  cidade  de  Salvador  se  mostravam  cada  vez  mais  incomodados  com  a 

crescente “barbarização” dos festejos pela Independência e o dois de julho baiano, quando a 

imensa população negra e mestiça da cidade conduzia festejos e conferia significados próprios 

às  comemorações  cívicas,  contrariando  o  ideal  de  civismo  e  cultura  urbana  civilizada  das 

classes superiores.

52

 



A experiência urbana das populações de origem africana na República Velha aparece 

de  maneira  particularmente  intensa  quando  focalizada  do  ponto  de  vista  individual,  como 

realizado  por  Joseli  de  Mendonça  ao  analisar  a  trajetória  de  vida  do  advogado  carioca 

Evaristo  de  Moraes.  Mulato  de  origens  humildes,  Evaristo  trabalhou  e  estudou  por  conta 

própria  desde  muito  jovem,  participou  da  militância  abolicionista  e  republicana  durante  a 

adolescência e trabalhou como rábula criminalista até formar-se advogado, tendo nesse meio 

tempo  publicado  centenas  de  obras,  entre  livros,  artigos  jurídicos,  ensaios  históricos  e  suas 

memórias da prática do direito.

53

 

Como  rábula,  esteve  envolvido  em  diversos  casos  que  colocaram  em  evidência  o 



projeto  civilizador  das  elites  cariocas  do  início  do  século,  como  a  defesa  de  prostitutas 

expulsas de forma arbitrária do centro da cidade pela polícia em 1896, de lideranças sindicais 

das  manifestações  operárias  da  cidade  entre  1903  e  1908,  de  marinheiros  envolvidos  na 

Revolta  da  Chibata  em  1910  e  até  do  próprio  pai,  no  caso  célebre  em  que  foi  acusado  de 

violar menores que acolhia em seu próprio asilo de caridade. 

Mais  do  que  defender  ferrenhamente  as  principais  causas  sociais  de  seu  tempo, 

Evaristo  viveu  intensamente  o  clima  político  e  cultural  do  início  da  República,  e  esteve  no 

centro dos grandes debates sobre raça e cidadania travados durante este período, sem escapar 

“da malha fina tramada com os fios do racismo que vicejava na sociedade onde viveu”.

54

 



Em  1921,  época  em  que  a  crítica  à  mestiçagem  arrefecia,  mas  o  ideal  do 

branqueamento  continuava  “firmemente  entrincheirado  no  seio  da  elite”,

55

  a  imprensa 



repercutiu  em  nível  nacional  a  notícia  de  que  uma  empresa  norte-americana,  a  Brazilian-




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