Tcc fernando Bartholomay Filho Memória Abolição sc 1888-1938



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Métis ou Mestiços no Brasil. Neste relatório, Lacerda sentenciava a inferioridade dos mestiços 

em  relação  aos  negros  no  tocante  a  sua  capacidade  como  mão-de-obra,  embora  os  dotes 

físicos e intelectuais dos últimos fossem superiores.

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 Suas observações em relação ao Brasil 



do início do século davam conta de que o “baixo instinto de civilização” dos mestiços quando 

confrontado  com  a  superioridade  das  raças  de  origem  ariana  através  de  casamentos  inter-

raciais  concorreria  para  a  erradicação  destes  no  prazo  máximo  um  século.  Numa  conclusão 

espantosa,  a  mesma  erradicação  aguardava  o  elemento  negro,  já  que  a  falta  de  recursos 

materiais  e  as  péssimas  condições  de  vida  a  que  vinham  sendo  sujeitos  desde  o  fim  da 

escravidão eram a certeza de sua eventual extinção. 

Esse otimismo em relação à perspectiva de um país mais branco era endossado pela 

freqüente  comparação  com  a  sociedade  norte-americana  onde  “a  separação  das  raças 

‘superior’ e ‘inferior’ era sistema muito bem institucionalizado”, e que por esse motivo estava 

fadada a padecer dividida entre as raças branca e negra, ao contrário do Brasil onde estas se 

amalgamavam  para  o  bem  da  nação.

39

  De  fato,  do  ponto  de  vista  das  relações  raciais,  os 



diversos  olhares  de  pensadores  brasileiros  sobre  a  sociedade  dos  Estados  Unidos 

influenciaram  intensamente  a  produção  intelectual  sobre  o  assunto  ao  longo  da  primeira 

metade  do  século  XX  desde  o  “ideal  do  branqueamento”  da  primeira  república  até  a 

                                                 

37

 SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil – 1870-



1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 41. 

38

 SKIDMORE, 1976, p. 82. 



39

 Idem, p. 45. 




 

26

“democracia  racial”  dos anos  1930,  num caminho  que foi  percorrido  da mesma forma  pelos 



intelectuais norte-americanos que observaram as relações raciais brasileiras. 

Tais  comparações  invariavelmente  passavam  pela  interpretação  das  experiências 

escravistas dos dois países, e um dos primeiros textos do século que já apontava as distinções 

entre  a  experiência  escravista  brasileira  e  norte-americana  foi  Nos  Estados  Unidos: 



impressões  políticas  e  sociais,  de  1900,  escrito  por  Manuel  de  Oliveira  Lima,  jornalista, 

diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras que serviu como embaixador do Brasil 

nos  Estados  Unidos.  A  obra  de  Oliveira  Lima,  partindo  do  pressuposto  que  a  presença  dos 

descendentes  de  africanos  nas  Américas  é  essencialmente  “um  mal”,  aponta  em  retrospecto 

para  as  piores  condições  dos  trabalhadores  escravos  no  sul  dos  Estados  Unidos  em 

comparação  com  o  Brasil,  em  decorrência  da  predisposição  natural  das  raças  latinas  em 

afeiçoar-se  das  “raças  inferiores”  ao  contrário  de  desprezá-las,  acrescentando  também  a 

sugestão  de  que  o  governo  encetasse  esforços  para  trazer  mais  imigrantes  europeus,  com  o 

objetivo de corrigir a “extrema mestiçagem” e impedir o “alastramento de raças inferiores”.

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No Brasil, os efeitos desta “mestiçagem excessiva” despertaram atenção especial de 

juristas e médicos, que conjugaram suas respectivas leituras e interpretações sobre a “questão 

da  raça”  para  compor  um  argumento  dotado  de  alicerces  científicos  que  simultaneamente 

justificasse e tentasse institucionalizar as diferenças sociais do país. 

Sua  fonte  de  inspiração  foi  um  grupo  importante  de  médicos  e  juristas  italianos 

liderados pelo médico Cesare Lombroso que, através de várias obras publicadas ao longo da 

segunda metade do  século XIX com grande repercussão internacional, procurou sistematizar 

seu pensamento criminalista, baseado fundamentalmente na rejeição à idéia clássica de que o 

ato criminoso está circunscrito dentro da liberdade individual (significando que o delinqüente 

comete  o  crime  por  sua  própria  escolha,  ou  por  uma  série  de  escolhas).  Ao  contrário, 

postulava a existência de um tipo de “delinqüente nato” cuja tendência à prática criminosa era 

atestada  por  fatores  ambientais,  traços  fenotípicos  (tamanho  dos  membros  e  do  crânio 

interpretados  pela  frenologia)  e  predisposições  genéticas  e  raciais.  Munindo-se  destes  dados 

era  possível  compor  um  perfil-padrão  do  indivíduo  cujo  atavismo  físico  e  mental  seria 

evidente  e  tornaria  fácil  sua  identificação,  isolamento  e  eventual  punição.

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  Tal  perspectiva 



cativou  profundamente  um  setor  expressivo  dos  cientistas  e  pensadores  da  época,  pois  pela 

                                                 

40

 SKIDMORE, 1976, pp. 88-89. 



41

 ALVAREZ, Marcos César. A criminologia no Brasil ou como tratar desigualmente os desiguais. In: Dados – 






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