Tatyane dissertaçÃo final


Figura 4 -A história de Babar, o pequeno elefante,   de Jean de Brunhoff (Jardin des modes, 1931)



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Figura 4 -A história de Babar, o pequeno elefante,  
de Jean de Brunhoff (Jardin des modes, 1931) 
 
 
Essa  concepção  do  livro  infantil  como  um  todo  tem-se  intensificado  desde  a  segunda 
metade do século XX, diversificando a produção literária para crianças, tanto em termos 
materiais quanto em relação aos temas e conteúdos. Surgem produções inovadoras que 


 
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transgridem  a  ordem  narrativa  e  incorporam  tendências  artísticas  contemporâneas, 
consolidando o status da imagem e a forte preocupação visual na criação desse produto. 
Além disso, muitas obras, através de palavras e imagens, rompem com a funcionalidade 
pedagógica, permitindo a representação do imaginário infantil e a abordagem de temas 
provocadores  (questões  de  gênero,  diversidade,  sentimentos  complexos,  como  tristeza, 
depressão, perda, entre outros). 
 
As  escolhas  editoriais  buscam  explorar  ao  máximo  as  possibilidades  significativas  da 
imagem  e  do  suporte,  atribuindo-lhes  função  narrativa.  Camargo  (1998)  esclarece  que 
as  ilustrações  de  um  livro  podem  assumir  diversas  funções,  sendo  uma  delas  a  função 
narrativa. Segundo o autor, 
 
A imagem terá função narrativa [...] quando situar o ser representado 
em  devir,  através  de  transformações  (no  estado  do  ser  representado) 
ou  ações (por  ele  realizadas).  [...]  a  função  narrativa pode  apresentar 
diferentes  graus  de  narratividade,  por  exemplo,  narrar  uma  história, 
uma cena ou uma ação (ou apenas sugeri-las) (CAMARGO, 1998, p. 
45). 
 
Embora  uma  única  imagem  possa  comunicar  a  ideia  de  acontecimento  em  curso,  a 
dimensão narrativa das imagens de um livro infantil se concretiza no passar de páginas, 
no  encadeamento  entre  uma  imagem  e  outra,  dando  a  noção  de  um  fluxo  temporal,  o 
que  depende,  obviamente,  da  forma  como  o  conjunto  de  imagens  está  organizado  nos 
livros.  No  livro  com  ilustrações,  os  lapsos
9
  entre  uma  imagem  e  outra  tendem  a  ser 
extensos,  tornando  a  compreensão  da  narrativa  pelas  ilustrações  difusa  e  a  leitura  do 
texto verbal imprescindível para a compreensão da obra. Já no livro de imagens, a outra 
ponta  do  espectro  na  relação  palavra-imagem  nos  livros  infantis,  os  lapsos  são,  em 
geral, curtos ou inexistentes, permitindo que o encadeamento de imagens comunique a 
narrativa sem o auxílio do texto verbal. 
 
 
No  livro  ilustrado,  a  capacidade  narrativa  visual  varia  de  acordo  com  a  quantidade  de 
imagens  e  com  a  sua  distribuição  ao  longo  do  virar  de  páginas.  As  decisões  editoriais 
são  fundamentais,  assim  como  uma  articulação  entre  os  trabalhos  do  escritor  e  do 
ilustrador. Nikolajeva e Scott (2011) dedicam o primeiro capítulo de seu livro à questão 
                                                 
9
  Entende-se  por  lapso  os  acontecimentos  entre  uma  imagem  e  outra,  não  retratados  nas  ilustrações, 
cabendo ao leitor reconstituí-los. 


 
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da  autoria  nos  livros  ilustrados,  mostrando  como  os  diferentes  arranjos  entre  seus 
criadores – livros em que escritor e ilustrador são a mesma pessoa, livros produzidos em 
estreita  colaboração  entre  escritor  e  ilustrador,  livros  cujo  ilustrador  é  escolhido  pela 
equipe  editorial  e  não  há  colaboração  direta  entre  escritor  e  ilustrador,  entre  outros  – 
tensionam  as  relações  entre  texto  verbal  e  texto  visual  e  as  possibilidades  de 
significação, orientando o olhar do leitor. Segundo as autoras, 
 
um  estudo  de  casos  em  que  autoria  do  livro  é  complicada 
problematiza  a  complexa  relação  entre  a  comunicação  verbal  e  a 
icônica  sedimentada  pelos  livros  ilustrados  –  o  interrelacionamento 
dinâmico e a tensão criativa entre os dois modos de comunicação que 
estamos  explorando.  [...]  As  múltiplas  autoria  e  intencionalidade 
resultam em ambiguidade e incerteza na legitimidade da interpretação 
(NIKOLAJEVA; SCOTT, 2011, p. 49). 
 
 
Como as ilustrações de um livro constituem uma primeira entrada ao texto, conduzem o 
olhar do leitor à leitura realizada pelo ilustrador. Entretanto, assim como o texto verbal, 
as  ilustrações  possuem  lacunas  a  serem  preenchidas  pelo  leitor  no  ato  da  leitura.  
Segundo Oliveira (2008b, p. 32), “são muitos os olhares que podemos ter diante de uma 
ilustração.  Nenhuma  ilustração  possui  uma  leitura  absoluta  do  texto”.  O  autor 
acrescenta  ainda  que  “vemos  aquilo  que  temos  a  expectativa  de  ver.  Tal  fato  exclui 
qualquer processo  coibitivo e limitado de se fruir a ilustração. Sua criação é feita pelo 
ilustrador, mas sua concretização é do pequeno leitor” (OLIVEIRA, 2008, p. 38).  
 
Não  se  trata,  portanto,  de  uma  visão  única  do  texto  verbal;  o  trabalho  do  ilustrador 
orienta  o  olhar  do  leitor,  induzindo-o  a  caminhar  pela  imagem,  cuja  polissemia  deve 
permitir  “leituras  paralelas,  portas  secretas  para  que  as  crianças  possam  transpor  e 
realizar  plenamente  sua  própria  imaginação,  criação  e  fantasia”  (OLIVEIRA,  2008,  p. 
50).  Nesse  sentido,  o  trabalho  do  ilustrador  deve  ser  o  mais  aberto  possível  sem, 
contudo, esquecer-se de sua origem literária. O congraçamento entre palavras e imagens 
é, antes de tudo, verdadeiro sentido da arte de ilustrar.  
 
Embora  seja  difícil  saber  qual  o  limite  exato  para  a  visão  pessoal  do  ilustrador  nas 
imagens  de  um  livro,  é  sensato  esperar  que  haja  um  equilíbrio  entre  a  proposta  do 
escritor  e  a  interpretação  do  ilustrador.  O  que  não  significa  que  a  ilustração  seja  mera 
tradução, espelho do texto verbal, mas sim a possibilidade de criação de uma nova obra 


 
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de  literatura.  De  maneira  semelhante,  Fittipaldi  sugere  considerar  a  presença  da 
ilustração como “criação de ‘mais-estesia’ no âmbito da leitura” (FITTIPALDI, 2008, p. 
105),  as  imagens  expandindo  e  afinando-se  ao  texto  poético  em  uma  expressão 
harmoniosa. 
 
Segundo  Oliveira  (2008b),  o  ato  de  ilustrar  deve  ir  além  dos  aspectos  simbólicos  da 
palavra  e  revelar  mais  aquilo  que  pretendemos  ver  do  que  o  que  realmente  vemos:  “a 
ilustração não se origina diretamente do texto, mas de sua aura” (OLIVEIRA, 2008b, p. 
32). Além disso, nem tudo pode ser ilustrado, cabendo ao ilustrador preservar, quando 
necessário, o universo abstrato do texto. Camargo (1998) comenta, por exemplo, em seu 
estudo,  alguns  casos  de  ilustração  de  textos  poéticos,  cujos  ilustradores,  elidindo  a 
ambiguidade  característica  das  metáforas  literárias,  optaram  por  uma  representação 
literal do objeto, estabelecendo um vínculo semântico empobrecedor com o poema. 
 
Por  outro  lado,  o  escritor,  no  ato  da  escrita,  deve  estar  atento  às  ilustrações  que  serão 
produzidas para compor o livro. Descrições minuciosas de personagens ou de cenários 
podem se tornar  excessivamente redundantes ao  lado de ilustrações que retratam  esses 
mesmos elementos. Um projeto de livro ilustrado bem-sucedido explora o potencial de 
cada linguagem. Segundo Stephens
10
 (1992 apud NIKOLAJEVA; SCOTT, 2011, p. 49-
50), o “livro com ilustração inteligente” fundamenta-se na “capacidade para construir e 
explorar uma contradição entre texto e imagem, de forma que os dois se complementem 
e  juntos  produzam  uma  história  e  um  significado  que  dependem  de  suas  mútuas 
diferenças”.  De  acordo  com  o  autor,  “essa  relação  entre  texto  e  imagem  é  uma  entre 
discursos  construídos  de  maneira  diferente  que  geram  tipos  diferentes  de  informações, 
se não mensagens diferentes. Consequentemente  o público experimentará  um processo 
complicado de decodificação [...]”
11

 
Ainda  que  se  baseie  nas  categorias  da  teoria  da  comunicação,  o  autor  assume  uma 
perspectiva sobre as relações entre palavras e imagens posicionando o leitor não como 
mero  receptor  das  informações  apresentadas  pelas  diferentes  linguagens,  mas  sujeito 
que as ressignifica a partir de sua experiência. 
                                                 
10
 STEPHENS, John. Language and ideology in children’s fiction. Londres: Longman, 1992, p. 164.
 
11
  No  original:  “this  relationship  between  text  and  picture  is  one  between  differently  constructed 
discourses  giving  different  kinds  of  information,  if  not  different  messages”  (NIKOLAJEVA;  SCOTT, 
2006, p. 30). 


 
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Dada a força descritiva da imagem, o texto verbal pode abster-se de exercer essa função. 
No  livro  ilustrado,  o  texto  verbal  é,  por  natureza,  “elíptico  e  incompleto”  (LINDEN, 
2011,  p.  48).  Mas,  se  por  um  lado  as  ilustrações  comunicam  melhor  os  aspectos 
descritivos,  por  outro  a  expressão  temporal  e  a  articulação  de  ideias  complexas  são 
potencializadas pelas palavras. A imagem não comunica, diretamente, noções de tempo 
ou  de  causalidade,  embora  utilize  recursos  que  indicam,  por  meio  de  inferências,  o 
desenvolvimento  de  uma  ação  ou  um  acontecimento  e  de  suas  consequências.    Sua 
apreensão,  no  entanto,  está  sempre  vinculada  ao  contexto  e  ao  domínio  de  códigos 
gráficos  pelo  leitor,  em  geral  importados  de  outras  mídias,  como  histórias  em 
quadrinhos, cinema e artes plásticas.  
 
Um  dos  aspectos  mais  interessantes  dos  livros  ilustrados  são  as  soluções  encontradas 
por  seus  autores  (escritores  e  ilustradores)  para  depreender  das  imagens  aquilo  que 
convencionalmente é atribuído às palavras e das palavras o que normalmente é atribuído 
às imagens. Segundo Nikolajeva e Scott (2011), 
 
Os livros ilustrados apresentam uma oportunidade e um desafio únicos 
no que diz respeito à espacialidade e à temporalidade. Esse campo – o 
cronotopo  do  livro  ilustrado  –  também  é  um  exemplo  excelente  do 
preenchimento  mútuo  das  lacunas  entre  palavra  e  imagem,  ou,  de 
importância  ainda  maior,  da  compensação  de  suas  mútuas 
insuficiências (NIKOLAJEVA; SCOTT, 2011, p. 195).  
 
 



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