Tambortec: sistema musical interativo para performance de música eletrônica dançante Tambortec: sistema musical interativo para performance de música eletrônica dançante



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32 
2.3
 - 
A performance da dance music
 
 
2.3.1 – O papel dos DJs nos clubs 
 
 O  ato  de  discotecar  consiste  em  executar  uma  série  de  discos  para  a  apreciação  de  um 
público. Num conceito mais simples, o DJ é um apresentador (Brewster; Broughton,1999: 14). A 
evolução  da  profissão  apontou  novos  papéis  ao  longo  do  século  XX,  que  ultrapassaram  as 
fronteiras  da  transmissão  radiofônica  e  galgaram  processos  mais  criativos.  Os  clubes  de  dança 
foram  o  ambiente  propulsor  desta  mudança  de  atitude  em  relação  à  reprodução  eletrônica,  a 
transição do que era considerado um introduzir de discos para um ato de performance com essas 
mídias (Brewster; Broughton, 1999: 14). 
A  cultura  disco,    fundamentada  nesses  espaços  públicos  voltados  à  dança,  estabeleceu  
novas  funções  aos  DJs  a  partir  das  inovações  trazidas  por  Francis  Grasso,  apontado  como  o 
primeiro  disc  jockey  a  apresentar  uma  performance  voltada  à  interligação  de  músicas  em 
sucessão. Os autores de Last Night a DJ saved my life comparam a abordagem de Grasso aos disc 
jockeys que o antecederam no trabalho nos clubs americanos: 
 
“Ele foi o primeiro a mostrar que uma avalanche de discos podia ser uma 
coisa  simples:  uma  viagem,  uma  narrativa,  um  set.  Antes  dele  um  DJ 
podia  saber  que  alguns  discos  tinham  o  poder  de  afetar  o  humor  e  a 
energia  da  multidão;  somente  depois  dele  fez-se  reconhecer  que  este 
poder pertencia ao DJ, não aos discos” (Brewster; Broughton, 1999: 142). 
Com  o  trabalho  de  Grasso,  firmaram-se  as  noções  de  performar  com  discos,  um  novo 
conceito  apresentado  por  esse  profissional  presente  nos  procedimentos  dos  DJs  atuais,  e  que 
baseia-se  na  utilização  do  material  gravado  nos  discos  na  construção  de  blocos  dentro  de  uma 
narrativa improvisada, que permite a conexão entre músicas, combinando-as por justaposição ou 
sobreposição  através  do  uso  de  aparatos  dedicados  a  este  fim,  os  mixers.  Os  procedimentos 
adotados  na  performance  de  DJs em clubs  apontavam  para  uma  criação  ao  vivo  de  uma  nova 
música,  fruto  da  combinação  de  discos  proporcionada  por  esse  mesa  misturadora  de  fontes 
sonoras. 


 
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A  performance  dos  disc  jockeys  na  dance  music  passou  a  requerer  habilidades 
multifacetadas  como  conhecimento  musical  para  compreender  a  estrutura  das  faixas,  uma  boa 
memória  para  reconhecimento  do  repertório  disponível,  bem  como,  um  senso  rítmico  para 
sequenciar as músicas mantendo-se o pulso entre elas e um ouvido musical para sobrepor faixas 
dentro de um sentido harmônico.  
 O discurso caminhou por uma continuidade e fluidez na reprodução de faixas de forma 
ininterrupta,  efeito  direto  da  era  disco  e  do  Hi-Nrg  (Verderosa,  2002:  24).  A  execução  de  uma 
seleção  de  faixas  implicava  em  se  criar  transições  e  sobreposições  presentes  no  trabalho  de 
mixagem, procedimento fundamental no trabalho do disc jockey
O caráter non-stop da música eletrônica dançante requer do disc jockey um conhecimento 
sólido sobre o material que tem a sua disposição na realização de sua arte, isto é, como selecionar 
o repertório frente a estética de uma narrativa longa, formada da soma de várias faixas, e como 
alinhar essa seleção à empatia com o público.  O DJ leva em conta o estilo específico de música 
eletrônica de pista com a qual trabalha, apresentando as faixas em andamentos aproximadamente 
similares, recurso importante na transição entre músicas que detêm uma semelhança estilística e 
notadamente  decisivo  num  discurso  que  engloba  várias  composições  tocadas  continuamente.  O 
performer  especializa-se  em  um  gênero  que  definirá  sua  execução  e  produção  musical. 
Juntamente  aos tracks,  agregam-se  elementos  extras,  disparados  por  um sampler,  por  exemplo. 
Desse  modo,  fragmentos  com  intervenções  sonoras  inusitadas  e  loops com  elementos  rítmicos 
passaram a fazer parte do material a ser empregado na sucessão de faixas.  
Manter um platéia dançando por horas requer compreender as gravações registradas nos 
discos, não somente sua estrutura musical mas também entender “seus efeitos precisos na platéia” 
(Brewster;  Broughton,  1999:  16).  O  conhecimento  sobre  impacto  da  faixa  dentro  ambiente  de 
dança faz-se a partir da sensibilidade ao que cada faixa pode suscitar no público, e agrega-se à 
atitude  do  DJ  frente  ao  comportamento  da  pista,  “[...]  controlando  a  relação  da  música  com 
centenas de pessoas” (Brewster; Broughton, 1999: 17).  
Sendo  o  DJ  um  especialista  em  fazer  pessoas  dançarem,  foi  natural  que  dominasse  os 
processos  de  produção  de  sua  própria  música,  que  levasse  aos  estúdios  toda  sua  experiência 
adquirida nos ambientes onde executa sua arte.  Produzir seu material previamente e levá-lo ao 
seu ambiente de trabalho passou a ser uma tarefa fundamental, que foi se popularizando à medida 


 
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que  os  equipamentos  de  estúdio  se  tornaram  mais  acessíveis.  O  DJ buscou  uma  marca  em  seu 
discurso, atitude presente na implantação de seu prestígio artístico. 
 
“ Fazer suas próprias gravações ou reconstruí-las a partir de outras, é uma 
extensão  natural  de  suas  tarefas  em  clubes,  uma  maneira  de  por  sua 
estampa no mundo. É um caminho de destilar um som particular por ele 
favorecido  nas  performances  em  uma  forma  mais  tangível  e  , 
fundamentalmente,  é  como  o  DJ  pode  clamar  seu  status  como  artista” 
(Brewster; Broughton: 1999: 379). 
Norman  Cook,  disc jockey   e  produtor   inglês,  enfatiza  também  a  tradução  das  emoções 
do público como elemento composicional para a música dançante produzida em estúdios: 
 
“  Quando  você  está  discotecando,  gasta  horas  observando  pessoas 
dançarem e começa a perceber a qual trecho da gravação o público reage, 
[...] você aprende o que as faz dançar. Quando estou em estúdio, eu volto 
à noite anterior, penso no tipo de coisa que funcionou com os dançarinos. 
Você  se  lembra  como  sentiu-se  ao  colocar  uma  faixa  que  agitou  a 
multidão;  ou  quando  você  tocou  uma  batida  que  na  qual  o  público 
mergulhou,  mesmo  se  eles  nunca  ouviram  a  gravação  antes.  Isto  não 
significa  necessariamente  que  você  faz  uma  grande  música  pop,  mas  se 
sua música atinge as pistas de dança, você tem um ponto  para  começar” 
(1999: 380 apud. Brewster; Broughton). 
 


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