Tambortec: sistema musical interativo para performance de música eletrônica dançante Tambortec: sistema musical interativo para performance de música eletrônica dançante



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dance  music  nos  anos  90  inúmeros  subgêneros,  frutos  da  “polinização  cruzada  de  sons  e 
metodologias”  (Griffthis,  2013:  14)  na  produção  de  faixas  que  mesclavam  influências  dos 
gêneros entre si, sem uma linha precisa de definição estilística (Blanquéz, 2002: 507). Os grupos 
interessados  em  se  divertir  ao  som  da  eletrônica  dançante  se  dividiram  em  porções  cada  vez 
menores, consequência do sem-número de subgêneros, como afirma Reynolds: 


 
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“ [...] house techno se adaptaram para preencher os desejos e propostas 
de  diferentes  estratos  sociais,  raças  e  regiões.  Logo  que  iniciado,  o 
processo de subdivisão parece ser irreversível ” (1999: 376). 
Novas  denominações  surgiram  no  decorrer  das  décadas  de  80  e  90  para  subgêneros  do 
house, como o acid house que incorporou as linhas ásperas de baixo sequenciadas e o progressive 
com  um  lado  mais  experimental  (Verderosa,  2002:  36),  além  do  deep  house  com  seus  sons 
atmosféricos, o minimal com o uso esparso sintéticos de sons percussivos e conduções rítmicas 
simplificadas e o latin com um idioma voltado ao jazz e sua fusão com ritmos latinos (Rampling, 
2010: 11). 
Duas  imagens  floresceram  nesse  período  da  história  da  música  eletrônica  dançante. 
Primeiramente, estabeleceu-se o culto ao DJ, cujo trabalho nos clubes underground estendeu-se 
ao  caminho  do  estrelato,  atrelado  à  sua  nova  posição  profissional  como  produtor  musical. 
Paralelo  ao  sucesso  comercial  dos  gêneros,  surgiu  o  produtor  de  estúdios  caseiros,  o  bedroom 
producer.  Este  novo  personagem  usufruindo  da  acessibilidade  à  tecnologia  musical  começou  a 
produzir material para o circuito alternativo de DJs
dance music levada às arenas, a fusão do maquinismo eletrônico ao pop e ao rock e a 
elevação do status do DJ como produtor são fatores marcantes no passado recente deste estilo e 
vem perdurando até hoje. DJs  dividem o palco grandes artistas ou bandas, atuam em eventos de 
alcance global. Quando Brewster e Broughton escreveram seu clássico livro sobre a história dos 
disc  jockeys  podiam  antever  as  mudanças  que  se  faziam  no  estilo,  caminhos  que  afastavam  a 
música dos DJs  do circuito underground
 
“  A  cultura  club    foi  construída  na  união,  na  participação,  igualdade  e 
comunhão, [...] foi fundada na ideia que os clubbers são as estrelas, não o 
cara  pequeno  que  vadia  com  um  toca  discos.  A  cultura  de  dança  foi 
roubada pelas forças do comercialismo” (1999: 438) 
A apresentação conjunta dos DJs com músicos e bandas, a criação de música eletrônica 
em tempo real em computadores e em outras peças de hardware, no chamado Live PA, assunto 
que  será  abordado  mais  adiante,  também  marcam  a  sequência  histórica  da  música  eletrônica 


 
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dançante.  A  internet  abre  o  caminhos  para  os  selos  virtuais,  surgem  lojas  online  para  vender 
música especializada para DJsloops gravados em estúdios profissionaissintetizadores virtuais e 
todo sortimento de produto digital possível de ser descarregado nos computadores. A educação 
online  é  o  atual  estágio  desse  panorama;  a  aprendizagem  de  um  software para  produzir  música 
segundo  uma  estética  específica,  com  vídeos  tutoriais  detalhando  todo  o  procedimento 
composicional e técnico é vastamente oferecido online. Blanquéz aponta um futuro aberto para a 
dance  music,  dependente  da  criatividade  como  guia  nos  processos  evolutivos,  a  mesma 
criatividade que sempre norteou a evolução da eletrônica dançante: 
 
“ Os anos de abundância serão eternos quando se permite o principal: que 
a imaginação assuma o poder. Ao fim, a música eletrônica teve sempre a 
mesma  missão:  jogar  com  o  presente,  avançar  ao  desconhecido.  Existe 
muito por descobrir ”  (2002: 534 apud. Blanquéz; Morera). 
 
Simon  Reynolds  aborda  a  evolução  da  dance music  em  diversas  obras  onde  enfatiza  os 
aspectos  socioculturais  do  estilo,  destacando  a  amplitude  de  um  fenômeno  musical  em  termos 
globais.  O  autor  destaca  a  relação  com  gêneros  vizinhos,  como  o  hip  hop,  a  música  pop 
eletrônica, o dub  jamaicano e a experimentação eletrônica de vanguarda. Em termos de atitudes e 
valores relaciona-se com o rock em todas as suas formas, da psicodelia ao punk (Reynolds, 2002: 
16  apud.  Blanquéz;  Morera).  Musicalmente,  a  dance  music  apresenta  linhas  gerais  que 
tipicamente  aparecem  em  suas  numerosas  vertentes,  como  a  mecanicidade  em  sua  execução 
através de beats precisos e linhas de baixo sequenciadas conduzindo frases melódicas curtas com 
timbres  sintéticos  e  artificiais  gerados  em  sintetizadores  (2002:18).  Reynolds  assinala  uma 
diferenciação  em  relação  ao  rock  no  plano  da  performance.  Na  execução  da  música  eletrônica 
dançante  não se visualiza uma banda composta por músicos, mas sim um disc jockey, fato que 
suscita  distintas  apreciações.  Para  uns,  torna-se  “[…]  algo  desesperante,  e  para  outros,  libera  a 
imaginação;  […]  a  música  se  torna  uma  máquina  abstrata  que  conduz  o  ouvinte  a  uma  viagem 
através  dos  sons”  (2002:18).  A  simplicidade  harmônica  age  funcionalmente  na  valorização  de 
timbres,  texturas  e  cores  conceituando  uma  produção  musical  igualmente  sem  melodias, 
elementos musicais que por sua vez, “[…] distrairiam a pura e brilhante materialidade do som em 


 
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si mesmo: o pigmento é mais importante que o traço” (2002: 19). O ritmo e as texturas presentes 
nas  composições  definem  alguns  elementos  importantes,  tais  como:  o  groove  (ostinato  rítmico-
melódico  que  funciona  como  base  para  o  discurso  musical),  os  hooks  (fragmentos  melódicos  e 
repetitivos  que  entrelaçam-se  ao  groove,  sendo  acrescidos  a  cada  nova  seção)  e  os  beats 
(acompanhamentos percussivos gerados por baterias eletrônicas).  
A música eletrônica dançante dissolve a dicotomia entre cabeça e corpo, entre música que 
se dança ou que se ouve. Procura estabelecer no ouvinte vias de percepção corporal e auditiva, 
onde a “mente dance e o corpo pense” (2002:19). Destinada a ser executada em sistemas de som 
para pistas de dança, permite através do alto volume e da valorização de frequências graves uma 
vibração  corporal,  ampliando  a  percepção  da  música  (2002:20).  O  detalhe  rítmico,  as  novas 
texturas e uma profundidade sonora espacial promovem um aumento da percepção dentro de um 
contexto sonoro mais complexo, definindo-se um sentimento coletivo de sincronia dentro de um 
mesmo  ciclo  rítmico.  Estabelece-se  assim  uma  atmosfera  de  comunhão  promovida  pela  música 
basicamente  instrumental,  sobrepondo-se  ao  caráter  comunicativo  promovido  por  letras,  que 
quando  presentes  funcionam  como  elementos  simples  e  evocativos.  Nesse  ponto,  o  anonimato 
impõe-se  onipresentemente  no  uso  da  voz  e  na  definição  da  autoria  das  composições  na  dance 
music. Os vocais não exercem o mesmo papel de solista presente na música pop, é usado como 
matéria  bruta  para  inserções  durante  um  discurso  eletrônico,  Nos  seus  anos  iniciais,  a  música 
eletrônica dançante não ressaltava a função do produtor como autor das músicas, seu nome não 
era  tão  importante  para  um  público  interessado  em  dançar.  Supunha  uma  “[...]  revolta  contra  a 
cultura da fama e o culto à personalidade” (2002:25). Os narradores desse discurso da reprodução 
voltado à dança, os DJs, também disassociavam-se de uma postura ligada à fama, mantendo-se 
inseridos  discretamente  dentro  do  cenário  alternativo.  A  ideologia   underground   que  guiava  a 
cena  eletrônica  em  seu  surgimento  não  detinha  um  conteúdo  político,  apenas  se  posicionava 
contra a comercialização da pop music, questionando a indústria fonográfica e do entretenimento 
através  da  promoção  de  selos  independentes  e  manutenção  dos  pequenos  clubes  de  dança.  Em 
sua  generalização  do  fenômeno  dance  music,  Reynolds  conceitua  esses  espaços  para  dançar 
como os locais ideais para a fruição do estilo, cujas faixas executadas pelos DJs são produzidas 
em  estúdios  visando  a  reprodução  nesse  tipo  de  ambiência,  onde  o  público  terá  a  percepção 
voltada aos sistemas de som com seus “espaços panorâmicos e subgraves sísmicos” (2002: 24).  

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