Tambortec: sistema musical interativo para performance de música eletrônica dançante Tambortec: sistema musical interativo para performance de música eletrônica dançante



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2.1 -  Breve história  
 
No  início  da  segunda  metade  do  século  XX  estabelece-se  uma  relação  com  a  música 
caracterizada por um culto à reprodução eletrônica calcado por uma produção musical focada no 
público  consumidor.  Fruto  do  contínuo  desenvolvimento  dos  meios  de  difusão  e  reprodução 
sonora,  iniciado  com  fonógrafo  de  Edison,  “marco  na  era  da  reprodução  mecânica  do  som” 
(Miller, 2007:1), essa evolução atende ao ouvinte em suas demandas por vários estilos musicais e 
com vários propósitos de fruição, da audição privilegiada de música em alta qualidade vinda dos 
aparelhos  Hi-Fi  aos  discos  com  gravações  de  big  bands  tocando  música  para  dançar.  O 
entretenimento  foi  o  foco  da  indústria  fonográfica  que  alimentava  seu  público  com  música  de 
caráter dançante. 
Nos Estados Unidos, o discurso da reprodução eletrônica voltado à dança teve nos clubs 
seu ambiente propulsor. Ao final dos anos 60, os clubes de dança eram locais frequentados por 
celebridades  e  por  um  público  interessado  em  participar  mais  pelo  frisson  que  estes  ambientes 
promoviam do que por uma identificação com um estilo musical dançante específico. Um local 
de  “[...]  pessoas  bonitas  que  dificilmente  inspirariam  qualquer  novo  movimento  musical” 
(Brewster;  Broughton,  1999:  140).  O  início  dos  anos  70  são  marcados  por  atos  violentos  em 
concertos de rock e em protestos contra a guerra do Vietnã, um prenúncio da decadência que se 
instauraria nessa década, marcada pelo fim do sonho hippie e por uma crise do petróleo aliada à 
recessão econômica. Por essa ocasião, um definhamento instaurou-se também nos clubs desde a 
entrada  do  crime  organizado  em  seu  ambiente,  repelindo  os  frequentadores  e  promovendo  uma 
atmosfera  sórdida  e  violenta.  Em  consequência,  a  intervenção  de  autoridades  propiciou  o 
esvaziamento  de  público  nestes  espaços.  Era  necessário  a  busca  de  um  novo  perfil  de 
frequentador. Na década de 70, as discotecas transformaram-se em redutos de minorias excluídas 
como  negros,  gays  e  latinos,  permanecendo  Nova  York  com  seus  locais  públicos  em 
funcionamento, como referência para esse público encontrar na dança um meio de liberação. A 
trilha sonora que movia as minorias não era mais o rock, gênero que assumia nesta década uma 
forma progressiva, não dançável. 


 
22 
Nesse  cenário  alternativo,  estabelece-se  o  surgimento  de  um  novo  gênero  musical,  o 
disco.  Inicialmente, o repertório de música soul e funk, gravado por artistas como James Brown 
e  Sly Stone marcou as noites underground nova-iorquinas. À medida que o disco expunha suas 
diretrizes  musicais,  através  de  uma  batida  constante  e  estável  que  promulgava  a  dança 
ininterrupta,  abdicava-se  de  uma  apreciação  baseada  no  aplauso  e  na  contemplação.  As 
produções feitas para a disco music incorporaram os equipamentos eletrônicos lançados nos anos 
1970,  como  os  sintetizadores  nas  linhas  de  baixo  e  as  drum  machines  na  programação  das 
baterias.  A  substituição  dos  músicos  por  aparelhos  eletrônicos  se  fez  em  função  dos  caminhos 
expressivos  percorridos  pelo  novo  gênero,  destacando-se  aqui  a  constante  batida  mecânica, 
chamada  de  “four-on-the-floor”  produzida  nas  baterias  eletrônicas.  Essa  condução  rítmica 
presente no disco agregada à baixos sintetizados define o beat, um elemento musical presente no 
discurso  eletrônico,  cujo  significado  reside  além  do  universo  rítmico,  conjugando-se  com  a 
reprodução  amplificada  que  valoriza  frequências  graves  e  aponta  uma  escuta  associada  a  esse  
beat, “[...] elemento de comunicação verbal que se apóia nas pulsações do corpo e o convida a 
dançar” (Arango, 2005: 107). 
O  discurso  baseado  na  reprodução  dentro  do  cenário  da  música  dançante  teve  um 
personagem central, responsável pela execução do material musical nos clubes de dança: o DJ
Este profissional tem sua trajetória iniciada em meados do século XX dentro da história do rádio. 
A  reprodução  de  música  voltada  ao  entretenimento  dançante  por  DJs  foi  um  marco  na  sua 
importante participação dentro da indústria fonográfica e na produção musical voltada a um novo 
mercado consumidor. A disco music, trouxe à cena o disc jockey comprometido com um discurso 
narrativo, papel que perduraria em gêneros futuros da música dançante, como o house, sequência 
lógica  do  disco  (Lles,  2002:  233  apud.  Blánquez;  Morera).  Essa  narração  fundamenta-se  na 
sequência  contínua  de  músicas  gravadas,  cuja  ordem  de  execução  fica  a  cargo  do  DJ
determinando-se assim um discurso musical ininterrupto guiado por seus critérios e escolhas. 
Muito  além  de  um  estilo  musical,  a  disco music  se  afirmou  como  um  fenômeno  social, 
convertendo-se  já  na  metade  dos  anos  70,  em  um  passatempo  predileto  dos  americanos;  um 
“escapismo comportamental” que liberava a pressões do dia-a-dia regido por uma música simples 
e  pegajosa  como  aborda  o  escritor  e  disc jockey Pratginestós  no  livro  Loops  (2002:  119  apud. 
Blánquez; Morera).  O autor ressalta ainda o contato entre camadas sociais distintas da sociedade 


 
23 
americana,  entre  brancos  e  grupos  minoritários  antes  marginalizados,  assinalando  as  diferenças 
abolidas no ambiente das discothèques.  
Apesar  da  confluência  social  dentro  dos  clubes  de  dança  e  do  sucesso  alcançado  na 
indústria  fonográfica  por  nomes  como  Donna  Summer  e  Giorgio  Moroder,  a  música  disco 
vivenciou seu momento de decadência ao final dos anos setenta, manifestada no fechamento de 
clubes e nas diversas reações iradas do público, através de queima de discos em locais públicos. 
As  emissoras  radiofônicas  voltaram  a  se  concentrar  no  rock  como  fenômeno  comercial. 
Entretanto,  a  música  dançante  manteve  seu  público  fiel  em  busca  do  entretenimento  coletivo  e 
ainda  agregou  uma  “[...]  comunidade  desprovida  de  preconceitos  e  desaprovações  sociais  que 
encontrou na dança um motivo de culto” (Arango, 2005: 127). DJs passaram a recorrer a novos 
materiais para dar continuidade aos seus trabalhos nas pistas dos clubes.  
Frankie Knucles trabalhou como DJ na Warehouse em Chicago no final dos anos 70, um 
clube de dança alternativo para a comunidade afro americana e gay da cidade. Apresentou formas 
específicas  de  mixar,  valorizando  frequências  graves  e  agudas  e  agregando  novas  sonoridades 
eletrônicas  na  percussão,  advindas  das  drum machines disponíveis  no  mercado  de  instrumentos 
naquele momento, como a TR-808 e a TR-909 da  Roland. As técnicas de mixagem de Knucles 
na  produção  de  material  para  a  execução,  as  chamadas  tracks  (faixas  musicais  produzidas  em 
estúdio), durante as sessões na Warehouse influenciaram produtores de Chicago e foram a base 
para o advento de um novo gênero eletrônico dançante, o  house. Knucles esclarece que as novas 
técnicas vinham da necessidade de se buscar um novo repertório frente a morte da disco music
 
“Todas  as  gravadoras  acabaram  com  seu  departamento  de  música  para 
dança, ou departamento de disco, assim não havia mais músicas dance, com 
tempo para cima, apenas downtempo. Foi quando eu percebi que tinha que 
começar  a  mudar  algumas  coisas  para  continuar  alimentando  a  pista  de 
dança.  Ou  então  teríamos  que  fechar  o  clube”  (1999:  319  apud.  Brewster, 
Broughton). 


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