Tambortec: sistema musical interativo para performance de música eletrônica dançante Tambortec: sistema musical interativo para performance de música eletrônica dançante


 -A influência das vanguardas na cultura DJ



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 1.2 -A influência das vanguardas na cultura DJ 
 
A cultura DJ emerge nos anos 70 com as mixagens da disco music e o nascimento do hip-
hop. Autores como Cox e Warner (2004), Verderosa (2002) e Blánquez e Morera (2002) denotam 
que,  num  plano  mais  geral,  as  raízes  da  cultura  DJ  residem  no  trabalho  pioneiro  das  correntes 
musicais do século XX, que se apoiaram na tecnologia na definição de suas estéticas.  
A  primeira  vanguarda  que  incorporou  a  presença  tecnológica  foi  o  futurismo  (Rossell, 
2002:41  apud.  Blánquez,  Morera).  Hugill  destaca  em  seu  artigo  “As  origens  da  música 
eletrônica”  a  importância  do  texto  intitulado  L’arte  de  rumor  (“A  arte  dos  ruídos”)  de  Luigi 
Russolo como a “primeira tentativa de seriamente classificar os sons e tratá-los potencialmente 
como  música”  (2002:17  apud.  d’  Escrivan,  Collins)  e  a  antecipação  da  íntima  relação  entre 
criação e tecnologia quarenta anos antes da apresentação do primeiro computador, afirmando que 
“[...] a evolução musical é paralela a multiplicação das máquinas que colaboram com o homem 
em todas as frentes” (2002:43). 
Se  as  máquinas  de  ruído  de  Russolo  imitavam  o  rugido  das  fábricas  e  dos  motores,  a 
música concreta, criada por Pierre Schaeffer no final da década de 40 baseava-se no uso de sons 
gravados,  manipulados  e  justapostos,  tomados  diretamente  da  realidade.    Sem  apresentar  uma 
direção tonal, rítmica ou tímbrica e utilizando a fita magnética como suporte e ao mesmo tempo 
obra,  a  música  concreta  não  requer  uma  interpretação,  mas  sim  uma  atitude  de  escuta.  Sua 
execução não se alia à subjetividade de um músico e se relaciona com os recursos de gravação e 
reprodução atribuindo uma função composicional aos estúdios. Essa incorporação da tecnologia 
nos procedimentos criativos é destacada por Rossell, em seu texto no livro Loops


 
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“  A  erupção  da  música  concreta  presumiu  a  maior  revolução  sonora 
acontecida  no  Ocidente,  desde  o  dodecafonismo  de  Schönberg  e  das 
serenatas  industriais  de  Luigi  Russolo,  e  seu  impacto  no  panorama 
artístico  posterior  resultou  ainda  maior,  posto  que  descobriu  o  potencial 
criativo  do  estúdio  de  gravação  até  o  ponto  de  convertê-lo  em  um 
elemento  determinante,  muitas  vezes  único,  do  processo  composicional” 
(2002: 51 apud. Blánquez, Morera). 
Apesar das colagens experimentais através do uso da fita magnética, mídia preponderante 
na  música  criada  por  Schaeffer,  o  toca-discos  (mais  especificamente,  o  gramofone)  serviu  de 
suporte para suas primeiras composições. Juntamente com Pierre Henry compôs o “concerto de 
barulhos”  e  posteriormente  fundou  o  Groupe  de  Recherche  en  Musique  Concrète  (Grupo  de 
Pesquisa em Música Concreta) onde dentre várias obras calcadas na colagem de sons, destaca-se 
o “Étude Pathétique” (1948), cuja descrição dos procedimentos foi feita por Palombini (1999: 3): 
“  Trabalhando  num  estúdio  de  rádio  um  pouco  modificado,  Schaeffer 
empregou  um  prato  para  gravação  de  acetatos,  quatro  pratos  para 
reprodução, um misturador de quatro canais, filtros, uma câmara de eco e 
uma  unidade  móvel  de  gravação.  As  técnicas  empregadas  envolviam 
variações das velocidades de gravação e reprodução, amostragem e edição 
de sons por manipulação do braço, fechamento em anel do sulco gravado, 
movimentação  do  disco  em  sentido  reverso,  modulações  de  intensidade, 
fade-ins  e  fade-outs.  Os  corpos  sonoros  amostrados  incluíam,  em  pé  de 
igualdade:  seis  locomotivas  com  vozes  pessoais,  pára-choques  e 
maquinistas  regidos  por  Schaeffer  na  estação  de  Batignolles  (a  seguir 
combinados  com  sons  pré-gravados  de  vagões  em  movimento);  uma 
orquestra  amadora  respondendo  à  chamada  de  um  lá  de  clarinete, 
ornamentado assim de fiorituras, na Sala Érard (a seguir combinada com 
improvisações  pianísticas  de  Jean-Jacques  Grunenwald,  ao  vivo,  no 
estúdio);  Boulez  ao  piano,  em  harmonizações  clássicas,  românticas, 
impressionistas  e  atonais  de  um  tema  dado  (a  seguir  cortadas, 
retrogradadas  e  montadas).  Encerrando  a  série,  uma  mixagem  ad  libitum 
de  objects trouvés,  reunia  a  música  de  Bali,  uma  gaita  americana  e  uma 
embarcação fluvial francesa em torno da voz de Sacha Guitry [...]”. 
Embora  o  resultado  sonoro  desse  estudo  não  tenha  sido  um  consenso,  com  o  próprio 
Schaeffer  estabelecendo  dúvidas  na  sua  apreciação,  os  procedimentos  técnicos  no  levantar  e 
baixar das agulhas do toca-discos em pontos precisos do vinil, marcam técnicas que anos adiante 
fundamentariam  o  trabalho  de  bricolagem  sonora  dos  DJs.  Com  efeito,  o  registro  do  estudo  de 

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