Sousa, C. R. Literatura e imagologia Pandaemonium, São Paulo, n. 17, Julho/2011, p. 159-186



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brasilianische  Begegnung  -  1979),  cuja  temática  incide  sobre  o  discutível  "milagre 

econômico" brasileiro e sobre a vida no Nordeste, continuaria passando despercebido?

9

 

Tanto  um  como  outro  são  autores  conhecidos  nos  países  de  língua  alemã.  Por  outro 



lado,  também  se  observa  que  determinadas  obras  da  literatura  brasileira,  às  vezes  de 

autores pouquíssimo conhecidos entre nós, obtêm traduções em línguas estrangeiras. É 

                                                           

9

  Há  uma  tradução  não  publicada  feita  por  Jael  Glauce  da  Fonseca,  feita  no  âmbito  das  Atividades 



Programadas de seu Curso de Doutorado e anexada à sua Tese Iconofilia e iconoclastia em “Mundo dos 

milagres: um encontro brasileiro” de Hugo Loetscher (2004). 


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Pandaemonium, São Paulo, n. 17, Julho/2011, p. 159-186 – 

www.fflch.usp.br/dlm/alemao/pandaemoniumgermanicum

 

 

o caso de Eduardo Campos e o conto Mangoverkäufer (Vendedor de mangas) traduzido 



para  o  alemão  por  Curt  Meyer-Clason  e  publicado  em  Die  Reiher  und  andere 

brasilianische  Erzählungen  em  1967.  Será  que  o  apelo  das  imagens  também  integra 

esses  critérios?  Dito  de  outra  forma:  será  que  o  que  é  traduzido  não  está  sujeito  à 

confirmação de imagens pré-concebidas do Outro?  

Os  fenômenos  atrás  referidos  apontam  diretamente  para  outro  aspecto  literário 

da  Imagologia:  a  existência  de  imagens  na  crítica  ou  nas  histórias  da  literatura.  Se  se 

prestar  atenção  nos  textos  de  história  da  literatura  usados  no  contexto  do  ensino  de 

línguas estrangeiras, ver-se-ão, por vezes, apresentações generalizantes sobre os "traços 

característicos"  da  literatura  em  questão,  sobre  "características  nacionais"  do  país  em 

pauta,  às  vezes,  oferecidos  acriticamente  aos  usuários.  Por  exemplo,  na  edição  da 

tradução do livro São Bernardo, de Graciliano Ramos (1892-1953), lançada em 1962 na 

antiga  República  Democrática  Alemã  (RDA)  pela  editora  Aufbau,  há  um  posfácio, 

necessariamente ideológico, escrito por Alfred Antkowiak, que apresenta em resumo a 

história  do  Brasil  desde  D.  João  VI  a  Getúlio  Vargas.  O  texto  de  Antkowiak  atribui  a 

movimentos  populares  uma  força  política  que,  na  realidade,  não  existiu.  A 

independência  do  país,  por  exemplo,  teria  sido  uma  vitória  popular.  A  abolição  da 

escravatura é apresentada simplesmente como uma conquista da burguesia democrática. 

Graciliano  Ramos  é  apresentado  como  um 

representante  comercial”  e  como  membro 



de  um  grupo  revolucionário  democrático,  enquanto  o  seu  conto  A  terra  dos  meninos 

pelados (1939) é dado como romance. 

A  própria  tradução  de  uma  obra  pode  criar  alterações  de  imagens  contidas  nos 

originais, ou seja, criar novas imagens. Não se trata, aqui, de avaliar traduções através 

de observações pontuais, pois este não é o propósito, nem tampouco o caminho. Trata-

se  apenas  de  mostrar  como  quase  imperceptivelmente  se  vão  alterando  as  imagens  de 

um país/povo com repercussões imponderáveis. Veja-se, por exemplo, o trecho de São 



Bernardo, de Graciliano Ramos, de 1934, traduzido para o alemão por Willy Keller em 

1960: 


 

Pater Silvestre empfing mich kalt. Seit der Oktober-Revolution hat er sich in ein wildes 

Tier verwandelt und fordert strenge Untersuchung und Bestrafung aller, die damals kein 

rotes  Halstuch  trugen.  Er  zeigte  mir  die  kalte  Schulter.  Und  wir  waren  Freunde 




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Pandaemonium, São Paulo, n. 17, Julho/2011, p. 159-186 – 

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gewesen.  Ein  Patriot.  Schon  recht:  jeder  hat  seine  Eigenheiten.  (keller  apud  zimber, 



2003:36).

10

 



 

Trata-se de um trecho da primeira página do romance, em que a personagem narradora, 

Paulo  Honório,  um  pobretão  que,  depois  de  se  ter  tornado  dono  de  fazenda,  isto  é, 

depois de ter se tornado um empreendedor, um incipiente capitalista e, portanto, depois 

de ter introduzido no mundo rural arcaico brasileiro das decadentes oligarquias agrárias 

a  modernidade,  discorre  sobre  a  sua  intenção  de  escrever  um  livro  sobre  a  sua  vida, 

lançando  mão  da  estratégia  capitalista-fordista  da  divisão  do  trabalho:  Padre  Silvestre 

ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira ficaria com a pontuação, a 

ortografia  e  a  sintaxe;  Arquimedes  com  a  composição  tipográfica;  Lúcio  Gomes  de 

Azevedo Gondim com a composição literária, ele mesmo traçaria o plano, introduziria 

na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria seu nome na 

capa. Diz Paulo Honório: “Estive uma semana bastante animado, em conferências com 

os principais colaboradores, e já via os volumes expostos, um milheiro vendido graças 

aos  elogios  que,  agora  com  a  morte  de  Costa  Brito,  eu  meteria  na  esfomeada  Gazeta

mediante lambujem.” (R

AMOS


 1975: 7). Todavia, logo percebeu, ao distribuir as tarefas, 

que as coisas não seriam fáceis. E refere-se, então, ao comportamento estranho do padre 

depois da Revolução de Outubro. 

Ora,  para  o  leitor  brasileiro  esta  “Revolução  de  Outubro”  refere-se  ao  golpe 

getulista  de  1930  que  marca  o  tempo  narrado.  É  uma  época  em  que  os  processos  de 

industrialização iniciados nos  estados sulinos chegam  ao Nordeste brasileiro, abalando 

as  relações  e  os  modos  de  produção  praticados  pelas  oligarquias  agrárias  em 

decadência,  fazendo  surgir  uma  nova  burguesia  industrial.  Personagens  novas, 

pertencentes  à  classe  média,  mas  também  operários  e  imigrantes  de  diversas 

procedências passam a ficar em evidência neste cenário. Trata-se, portanto, no original, 

de salientar o clima de transformação, da modernização da economia (e da política) no 

Nordeste brasileiro, que, no fim, acaba frustrado.  

No texto alemão, entretanto, esta marcação do tempo, assinalada pela “Oktober-

Revolution”,  correta  tradução  de  “Revolução  de  Outubro”,  pode  levar  o  leitor  para 

outras  paragens.  Para  o  leitor  estrangeiro,  desconhecedor  da  história  brasileira,  a 

                                                           

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  “Padre  Silvestre  recebeu-me  friamente.  Depois  da  revolução  de  outubro,  tornou-se  uma  fera,  exige 



devassas  rigorosas  e  castigos  para  os  que  não  usaram  lenços  vermelhos.  Torceu-me  a  cara.  E  éramos 

amigos. Patriota. Está direito: cada qual tem suas manias.” (

RAMOS 

apud 


ZIMBER

 2003:36). 




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referência  pode  associar-se  à  revolução  russa  de  1917,  muito  mais  presente  no 



pensamento europeu. Parece ser este o caso, por exemplo, de Helmut Feldmann em seu 

doutoramento  sobre  Graciliano  Ramos.  Eine  Untersuchung  zur  Selbstdarstellung  in 






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