Sousa, C. R. Literatura e imagologia Pandaemonium, São Paulo, n. 17, Julho/2011, p. 159-186



Baixar 424.37 Kb.
Pdf preview
Página10/19
Encontro08.10.2019
Tamanho424.37 Kb.
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   19
Aquém e além-mar. Relações culturais: Brasil e França (2000), organizado por Sandra 

N

ITRINI



. Além deste grupo, outro mais recente, nesta mesma universidade, denominado 

“Relações 

linguísticas 

literárias 



Brasil-Alemanha” 

(RELLIBRA 

– 

www.rellibra.com.br) também trabalha nesta direção. 



Deixando o âmbito europeu da problemática, pode-se observar algo semelhante 

na relação Brasil-Europa: não aparece a Europa também edulcorada em tantas obras da 

literatura brasileira? E o Brasil não aparece como país/povo essencialmente exótico em 

obras da literatura europeia? As mesmas perguntas são válidas para a América  Latina. 

Investigar imagens do Brasil (e da América Latina), ou como consta de Do cá e do lá. 

Introdução à Imagologia,  



172 

Sousa, C. R. – Literatura e imagologia 

 

 

 



Pandaemonium, São Paulo, n. 17, Julho/2011, p. 159-186 – 

www.fflch.usp.br/dlm/alemao/pandaemoniumgermanicum

 

 

 



perseguir  e  analisar  [sua]  trajetória  é  despir  a  imagem  do  Brasil  de  toda  a  fantasia 

medieval e de outras aí ainda impregnadas.  

 

[A]s imagens de países e de povos [...] veiculadas [em criações poéticas e ficcionais], 



apesar  de  artísticas,  e  de  serem  recebidas  pelo  leitor  médio  no  plano  do  imaginário, 

acabam,  com  o  tempo,  ficando  registradas  [como  referencialidades,]  como  verdades. 

(S

OUSA


 2004: 31 e 32).  

 

E  ainda:  desconstruir,  analisar  e  discutir  a  gênese  não  só  das  hetero,  mas  também  das 



autoimagens  é  um  modo  de  um  país/povo/grupo  se  apropriar  da  própria  voz  num 

contexto de cultura globalizada, em que a 

 

conscientização  amplamente  divulgada  desse  processo  pode  ter,  cremos,  até  mesmo 



conseqüências políticas e econômicas, no plano das relações interpessoais envolvendo 

negociações,  na  medida  em  que  [torna]  possível  entender  as  imagens  em  que  os 

interlocutores  se  apóiam  para  defender  seus  pontos  de  vista  e  construir  sua 

argumentação [...]. (S

OUSA

 2004: 267);  



 

afinal, mais do que nunca, é necessário ter “consciência do que nos convém trocar e do 

que nos convém preservar”. (S

OUSA


 2004: 354).  

 

 



2.Literatura Comparada e Imagologia  

 

O que é, afinal, Imagologia? A Imagologia em sua dimensão literária (komparatistische 



Imagologie: a Imagologia é originalmente literária, porque nascida no seio da Literatura 

Comparada no século XIX) é uma área do saber que investiga imagens de nações e ou 

de  povos  ou  de  grupos,  veiculadas  em  textos  literários  (poéticos,  de  história  da 

literatura,  de  crítica  literária  e  respectivas  traduções).  Hoje  a  Imagologia,  tendo 

expandido  seu  alcance  e,  dado  o  fato  de  que  possui  objeto  e  método  próprios,  pode 

mesmo ser considerada uma disciplina, que alcança o exame de imagens de países, de 

povos  e  de  grupos  em  quaisquer  textos  escritos  (de  antropologia,  de  etnologia,  de 

história,  de  sociologia,  de  jornalismo,  de  política,  de  psicologia,  de  didática  de  língua 

estrangeira etc.). 



173 

Sousa, C. R. – Literatura e imagologia 

 

 

 



Pandaemonium, São Paulo, n. 17, Julho/2011, p. 159-186 – 

www.fflch.usp.br/dlm/alemao/pandaemoniumgermanicum

 

 

Ainda  hoje,  pode-se  perguntar  pela  pertinência  da  Imagologia  aos  estudos 



literários. Eu diria que num mundo cada vez mais globalizado, em que os preconceitos, 

mal-entendidos,  afloram  com  mais  visibilidade  e  com  consequências  de  intensidade 

vária,  é  possível  achar  na  investigação  imagológica  literária  (e  na  investigação 

imagológica em geral) chaves para entender muitos desses obstáculos ao entendimento 

entre povos, ao entendimento de culturas diferentes. Dessa forma, Hugo Dyserinck, com 

seu  artigo  de  1966,  iluminou,  na  Alemanha,  a  importância  da  Imagologia  dentro  da 

Literatura  Comparada  e  resgatou,  em  bases  absolutamente  literárias,  sua  dimensão 

investigativa imagológica, de certo modo, perdida.  

Os  limites  oferecidos  por  tais  estudos,  em  particular  pela  Imagologia  literária, 

repousam na própria natureza de seu objeto que é simbólico, ou seja, a margem de erro 

neste  tipo  de  investigação  é  comparativamente  alta  em  relação  a  outras  disciplinas. 

Entretanto, é preciso dizer que é possível realizar análises e interpretações literárias de 

cunho imagológico com  absoluto  rigor metodológico,  a partir do instrumental deixado 

pelo Formalismo Russo e emprestado da Linguística e da Semiótica. 

É importante que tais estudos chamem constantemente o pesquisador à reflexão, 

à análise, ao diálogo e não permitam a utilização de estereótipos e de preconceitos além 

do estritamente necessário ao processo da aquisição e transmissão do conhecimento. 

A Imagologia, tal como Dyserinck a apresenta, e tal como é definida em Do cá e 



do lá. Introdução à Imagologia,  

 

constitui uma valiosa parte constitutiva da comparatística geral e tem como tarefa, não 



descobrir novos perfis nacionais, nem perguntar pelos "caráteres nacionais", mas almeja 

alcançar  e  analisar,  em  primeiro  plano,  as  configurações  das  imagens  de  países 

presentes  na  literatura,  o  modo  como  elas  se  estruturam,  assim  como  estudar  seu 

desenvolvimento  e  sua  repercussão.  Além  disso,  a  imagologia  também  pretende 

contribuir para esclarecer o papel que tais imagens literárias desempenham no encontro 

de culturas. Acima disso, uma preocupação mais alta ainda se sobrepõe: a imagologia 

não  faz  parte  de  nenhum  pensamento ideológico,  mas  é,  isso sim,  uma  contribuição  à 

desideologização.  Pretende,  a  partir  da  análise  das  imagens,  chegar  ao  modo  como 

funciona  o  pensamento  e  às  suas  estruturas.  Assim,  ela  participa  da  destruição  dos 

estereótipos e dos imagotipos, ao mesmo tempo em que ajuda a dar conta da influência, 

do poder e da manipulação de correntes ideológicas e políticas. [...] 

 

A  imagologia,  melhor  que  outras  disciplinas,  pode  mostrar  de  que  maneira 



surgem  determinadas  opiniões,  não  raro  nascidas  no  vasto  território  da 

literatura. (S

OUSA

 2004: 70). 



 


174 

Sousa, C. R. – Literatura e imagologia 

 

 

 



Pandaemonium, São Paulo, n. 17, Julho/2011, p. 159-186 – 

www.fflch.usp.br/dlm/alemao/pandaemoniumgermanicum

 

 

Na  verdade,  nem  sempre  que  se  trata  de  “imagens  e  miragens”  estamos  fazendo 



referência aos estrangeiros e suas diferentes literaturas e culturas. O espaço estrangeiro 

pode  tornar-se,  e  isso  acontece  com  frequência,  reflexo  da  representação  do  que  é 

próprio. Isto é, enquanto se tenta retratar o outro, usa-se a perspectiva do eu, de modo 

que o outro sempre se apresentará como um reflexo deste em toda a sua complexidade. 

Trata-se  de  um  fenômeno  muitas  vezes  identificado  com  a  metáfora  do  espelho:  na 

heteroimagem projetam-se elementos de autoimagem. É do conhecimento geral que as 

primeiras  imagens  do  Brasil  na  Europa  são  fruto  da  imaginação  exacerbada  europeia, 

recém-saída da Idade Média, ainda à procura do paraíso na Terra, tal como se pode ler 

em  Retratos  do  Brasil.  Heteroimagens  literárias  alemãs,  de  minha  autoria.  Assim, 

estudar a heteroimagem  de um país  em uma literatura é também investigar o modo de 

pensar do construtor de tal imagem, e rastrear tal pista pode-nos levar à constatação de 

que,  dentro  de  uma  determinada  literatura,  há  juízos  impregnados  de  imagens  de  um 

outro país, mas que são motivados por acontecimentos que lhe são estranhos. Chegar a 

esses acontecimentos para estabelecer a gênese e evolução de uma determinada imagem 

também  faz  parte  dos  objetivos  da  Imagologia.  E,  como  disse  Caetano  Veloso  em 

Sampa: “Narciso acha feio o que não é espelho”. 




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   19


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal