Simpósio Nacional de História


O desenvolvimento e apogeu



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O desenvolvimento e apogeu 

A Associação Cultural do Negro iniciou suas atividades em 1955, depois da aprovação 

do Estatuto Social. No primeiro artigo deste documento, ficava estabelecido que a ACN era 

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  Pedido   de   demissão   do   cargo   de   membro   do   Conselho   Superior   de   João   Vicente   Ferreira.   São   Paulo, 



11.06.1956. Pasta 04. Conselho Superior – Correspondência. Coleção ACN. Acervo da UEIM-UFSCar.

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uma sociedade civil, com a “finalidade de propugnar pela recuperação social do elemento 

afro-brasileiro”. No terceiro artigo, ficava estipulado que a entidade visava:



a) coordenar, esclarecer e orientar em todas as atividades de caráter econômico,  

educacional,  cultural,  político  e  social,  o  elemento  negro  preferencialmente;   b) 

estimular   e   desenvolver   o   pensamento   cooperativista,   procurando   instituir  

cooperativas  econômicas   e culturais,  principalmente  cooperativas  de  ensino;  c)  

promover, na medida de suas possibilidades financeiras, a prestação de serviços de 

assistência social e jurídica; d) estimular a arregimentação à base de famílias,  

para um maior congregamento, no sentido do permanente espírito de solidariedade  

e fraternidade; e) dedicar especial atenção e amparo à mulher e à infância de  

maneira   a   consolidar   as   bases   da   educação   como   fator   fundamental   da  

recuperação social do elemento afro-brasileiro.

A ACN tinha uma organização político-administrativa centralizada, formada por dois 

órgãos diretivos. Um Conselho Superior, incumbido da “direção coordenadora, consultiva e 

deliberativa”,   com   vinte   e   cinco   membros;   e   uma   Diretoria   Executiva,   responsável   pela 

efetiva administração da entidade e por sua representação legal, com sete membros escolhidos 

entre os componentes do Conselho.   A Diretoria Executiva era constituída pelos seguintes 

cargos: presidente, vice-presidente, secretário geral, 1º. e 2º. secretários, 1º. e 2º. tesoureiros. 

Os conselheiros poderiam ser homens e mulheres, tendo em vista que a ACN não 

impunha barreira de gênero à participação nos cargos de direção. Ao longo de sua trajetória, 

algumas   mulheres   atuaram   como   secretárias,   tesoureiras   e   até   mesmo   conselheiras.   Para 

facilitar   a   administração   burocrática   e   execução   dos   projetos,   a   ACN   dividia-se   em 

departamentos. Havia o Departamento de Educação e Cultura, o de Esportes, o de Finanças, o 

de Recreação, o Social, o Estudantil, o Feminino e o da Sede Própria.     

Em seus vinte e dois anos de existência, a ACN oscilou períodos de agito e intensa 

atividade (sobretudo na segunda metade da década de 1950) e outros marcados pelo refluxo e 

esvaziamento (quase toda década de 60 e 70). 

A ACN organizou, fomentou ou participou de diversos eventos, sempre almejando 

alcançar seu objetivo precípuo de “recuperação social do elemento afro-brasileiro”, a partir da 

cultura,   das   artes   e   da   educação.   Criou   um   coral,   promovia   semanalmente   palestras, 

denominadas “Os encontros de Cultura Negra”, desenvolveu um projeto para a implantação 

de um centro  cultural  em sua sede, formou  uma biblioteca  para  uso  de seus  associados, 

publicou   os   “Cadernos   de   Cultura”   e   um   jornal   intitulado  O   Mutirão.   Em   seu   primeiro 

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número, José Correia Leite – em nome do Conselho Superior da ACN – saudou a iniciativa 

do grupo de jovens que publicava o jornal:

Sejam as palavras do Conselho Superior da A.C.N. uma saudação do regozijo a essa 

“Juventude Estudantil” que, hoje, nos brinda com o primeiro fruto de seus esforços.



Esses esforços também são frutos de um idealismo, por isso, não temos dúvidas que o  

aparecimento de “O MUTIRÃO” é um acontecimento novo no meio associativo da 

A.C.N., e que por certo, marcará uma época.

[...] Oportunidades não faltam à nossa juventude para prestar bons serviços à nossa 

coletividade.

E  servindo  o  bem   coletivo,  a  mocidade  serve-se  a  si   mesma.   Que  seja  pois   “O  

MUTIRÃO”, o reflexo da inteligência e da capacidade desses moços e moças que  

integram a direção deste pequeno jornal (O Mutirão. São Paulo, 05.1958, p. 1). 

De  todos   os   eventos   promovidos   pela   ACN,   a   comemoração   dos   setenta   anos  da 

abolição foi um dos maiores, senão o de maior envergadura. Com uma programação extensa, 

a comemoração previa a realização de bailes, recitais de poesia, apresentações teatrais, de 

jogos, de uma competição atlética – a III Volta Pedestre 13 de Maio –, de um ciclo de 

conferências   –   sobre   André   Rebouças,   Castro   Alves,   o   abolicionismo   em   São   Paulo,   o 

movimento teatral do negro brasileiro – e festejos relacionados ao centenário de nascimento 

do poeta Cruz e Souza. 

A   entidade   empenhava-se   por   manter   viva   a   memória   de   grandes   personalidades 

negras, sendo Luís Gama – o patrono da entidade – Cruz e Souza, Teodoro Sampaio, André 

Rebouças os mais celebrados. 

No seu apogeu, chegou a ter mais de 700 sócios. Tinha entre seus afiliados membros 

hoje conhecidos, como o bibliófilo José Mindlin, os sociólogos Florestan Fernandes e Otávio 

Ianni. O penúltimo, inclusive, tornou-se o representante da entidade para fins culturais.

Embora sediada em São Paulo, a ACN estabeleceu intercâmbio com muitas entidades 

negras do interior paulista, nas cidades de Campinas, Piracicaba, Araraquara, São Vicente, 

entre outras.

A entidade buscou ficar em sintonia com tudo o que acontecia ao negro no Brasil e no 

mundo e, quando necessário, posicionava-se em defesa dele. Ela se manifestou contra vários 

casos de discriminação racial no Brasil. Pode-se dizer, inclusive, que sua atuação tinha uma 

perspectiva diaspórica, daí ela ter se posicionado em defesa dos negros dos Estados Unidos e 

do outro lado do Atlântico. 

Em 1957, alguns conflitos explodiram nos Estados Unidos, originados pela aplicação 

de uma lei que determinava o fim do segregacionismo racial nas escolas. A ACN organizou 

um ato de solidariedade aos negros estadunidenses e, ao mesmo tempo, enviou uma carta ao 

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então presidente Dwight Eisenhower, congratulando-o por sua posição favorável à integração 

racial. Em 1960, a entidade promoveu um ato público em apoio aos negros que estavam sendo 

vítimas de violência na África do Sul e, em 1961, liderou os protestos a favor dos refugiados e 

mortos na luta pela liberação nacional de Angola.






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