Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Sócrates
Quando uma sacerdotisa do templo de Delfos declara que
nenhum ateniense é mais sábio do que Sócrates, este fica
perplexo, pois não defende teoria alguma, pelo menos
explicitamente, ao contrário de muitos outros filósofos. Não
tem uma teoria sobre a natureza última da realidade, como
Heraclito (c. 500 a.C.), Parménides (c. 515-445 a.C.) ou os
atomistas Leucipo (c. 450-420 a.C.) e Demócrito (c. 460-371
a.C.). Não desenvolveu a geometria nem a matemática, que
no seu tempo não se distinguia da filosofia.
De modo que Sócrates parte em busca de outros homens
(não lhe ocorreu procurar mulheres!) que sejam mais sábios
do que ele, para poder apresentá-los à sacerdotisa como
refutação da sua estranha afirmação. Mas não encontra
senão homens que se julgam sábios quando, afinal, não o
são. Sócrates faz, então, a seguinte reflexão, depois de
conversar com um deles:
«Sou, sem dúvida, mais sábio que este homem. É
muito possível que qualquer um de nós nada saiba de
belo nem de bom; mas ele julga que sabe alguma
coisa, embora não saiba, ao passo que eu nem sei
nem julgo saber. Parece-me, pois, que sou algo mais
sábio do que ele, na precisa medida em que não julgo
saber aquilo que ignoro». (Apologia, 21d)
É desta passagem da Apologia que nos chegou a famosa
expressão «só sei que nada sei». No entanto, Sócrates não
diz exactamente o que lendariamente lhe é atribuído. Ainda
que possa tê-lo dito, não temos disso qualquer prova
documental; o que mais se aproxima da lenda são estas
palavras da Apologia. Acresce que esta obra é da autoria de
Platão (427-347 a.C.), que tinha vinte e oito anos quando


Sócrates morreu, e não sabemos até que ponto reproduz
aproximadamente o discurso de defesa de Sócrates,
aquando da condenação à morte por envenenamento.
Platão escreveu inúmeras obras filosóficas, sob a forma
de diálogo, nas quais Sócrates surge como personagem e
muitas vezes protagonista. Dessas obras, e de outros
relatos, incluindo os de Xenofonte (c. 430-354 a.C.) e de
Aristóteles (384-322 a.C.), que nasceu quinze anos depois
da morte de Sócrates, é possível ter uma ideia, ainda que
não muito precisa, do género de conversas que Sócrates
mantinha com os seus concidadãos e também de algumas
das suas ideias.
Tanto quanto sabemos, Sócrates abordava na rua as
pessoas que professavam saber algo e, fazendo perguntas e
levantando dificuldades, fazia-as darem-se conta de que
afinal não sabiam o que julgavam saber. Como se vê, ao
colocar as nossas crenças em causa com a ajuda do seu
génio maligno, mais de dois mil anos depois, Descartes não
fará algo incomum em filosofia. Colocar as nossas crenças
em causa é recorrente, em filosofia, precisamente porque
queremos descobrir a sua justificação última — ou descobrir
que não há tal coisa.



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