Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Conclusão
É isto que significa o famoso «penso, logo existo» — que na
versão das Meditações perdeu a aparência inferencial e
passou a ser apenas «eu sou, eu existo». A ideia é que a
crença de que existo como ser pensante é, por um lado,
insusceptível de refutação e, por outro, constitui — por isso
mesmo — a justificação última de todas as nossas crenças.
Vejamos brevemente este segundo aspecto.
Tome-se uma crença perceptiva, como a de que o leitor
está com este livro na mão. Trata-se de uma crença muito
diferente das crenças matemáticas. Estas últimas não se
justificam recorrendo à experiência, mas antes ao cálculo
matemático: ao pensamento puro.
Já no que respeita às crenças perceptivas, faz sentido
justificá-las recorrendo à experiência perceptiva: o leitor
sabe que está com este livro na mão porque é isso que
sente e vê. Mas Descartes considera que esta justificação,
apesar de perfeitamente adequada, não é última — pois se
formos vítimas do génio maligno, o facto de parecer que o
leitor vê e sente o livro é compatível com a inexistência do
livro. O que justifica a confiança nos sentidos terá de ser
outro conjunto de considerações que Descartes procura
retirar do próprio cogito. Daí que Descartes pense que a
justificação última das nossas crenças, incluindo as
perceptivas, não repousa nos sentidos.
Deste modo se vê que uma posição filosófica
aparentemente absurda — como poderá alguém crer que o
conhecimento do que vemos não se baseia inteiramente
nos sentidos? — não é, afinal, tão absurda assim. Poderá ser
falsa, mas é avisado começar por compreendê-la bem para
tentar então defender que o é.


CAPÍTULO 2


E
SEI QUE NADA SEI
stamos em 399 a.C. Vive-se na Grécia um período de
inovação científica e cultural. Heródoto (c. 484-420
a.C.) introduzira na Europa, havia menos de um século, a
história científica — isto é, o relato e explicação de
acontecimentos do passado recorrendo a documentos e
fontes fidedignas, procurando separar o mito do facto. O
teatro, a escultura e a arquitectura atingem grande
sofisticação e originalidade.
Um século mais tarde, ocorrerá um dos maiores feitos
intelectuais dos muitos que marcaram a Grécia Antiga: a
sistematização científica da geometria levada a cabo por
Euclides, por volta de 300 a.C. Claro que alguns
conhecimentos práticos de geometria eram desde há muito
usados pelos egípcios — de quem os gregos receberam a
disciplina, segundo Heródoto — mas esta não fora objecto
de uma sistematização com o grau de generalidade e
precisão presentes no trabalho de Euclides. Poucas décadas
depois, com base na geometria e muito engenho,
Eratóstenes (c. 276-194) calculou a dimensão da Terra, com
surpreendente precisão.
Infelizmente, nem tudo é um mar de rosas. A
mentalidade grega é imperialista e guerreira, o que dá
origem a guerras constantes com os seus vizinhos — os
bárbaros, cujo termo grego original significa literalmente
«que balbucia», ou seja, que não fala grego. Como os norte-


americanos, muitos séculos depois, a arrogância grega
conduzirá a aventuras militares desastrosas. Mesmo depois
de se tornarem uma mera província do império romano,
persistia a arrogância grega, a que os romanos achavam
graça, como talvez os chineses um dia acharão graça à
arrogância norte-americana.
Além disso, a vida dos intelectuais não é isenta de
perigos. Sócrates é acusado de impiedade e de corromper
os jovens, sendo condenado à morte em 399 a.C., com
setenta anos, por uma maioria não muito significativa dos
501 concidadãos que o julgaram. Este género de
perseguição não é a primeira, nem será a última: há uma
predisposição popular para crer que os filósofos são ateus.
Na comédia As Nuvens (423 a.C.), publicada vinte e quatro
anos antes da condenação de Sócrates, Aristófanes retrata-
o como um ateu que ofende os deuses perscrutando os
segredos dos corpos celestes. Cerca de cinquenta anos
antes da condenação de Sócrates, Anaxágoras (c. 500-428
a.C.) fora acusado de ateísmo, sendo obrigado a fugir de
Atenas, em grande parte por ter ousado declarar que o Sol
— o deus Hélio, na religião grega — era uma massa de
metal incandescente um tudo-nada maior do que a região
do Peloponeso.



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