Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer


parte das actividades que as pessoas mais valorizam. É



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107

parte das actividades que as pessoas mais valorizam. É
irónico que assim seja, pois a reflexão sobre a vida boa, de
que vimos um exemplo, dificilmente poderia ser mais
prática.
Os capítulos 1, 2 e 5 mostram a falsidade histórica da
ideia de que a filosofia trata de questões humanas — que
estuda o Homem, como por vezes se diz, na linguagem
gasta do machismo. A verdade histórica é que em filosofia


temos estudado, ao longo dos séculos, vários tipos de
problemas insusceptíveis de investigação científica, sendo
poucos os que têm a ver com os seres humanos.
Os seres humanos são com certeza interessantes, mas
há muitas outras coisas interessantes. Queremos saber, por
exemplo, se há alguma coisa de comum — a vermelhidão —
em todas as coisas vermelhas, e, caso haja, o que é isso;
queremos saber se há identidade das coisas ao longo do
tempo e, caso haja, como ocorre; e queremos saber se duas
coisas diferentes — uma estátua e um pedaço de barro —
podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.
Assim, apesar de ser verdadeiro que em alguns casos
investigamos em filosofia problemas relacionados com os
seres humanos (capítulos 3 e 4), muitos outros casos há em
que isso não é verdadeiro (capítulos 1, 2 e 5); e noutros
casos (capítulos 6 e 7) só tangencialmente se trata de
problemas relacionados com os seres humanos.
Este livro inclui informação histórica, mas ficou patente
que, sem compreender os aspectos teóricos em causa,
nenhuns elementos históricos nos permitirão fazê-lo. Os
problemas filosóficos, assim como as teorias que lhes dão
resposta, surgem certamente em contextos históricos, e
poderão até ser motivados por eles. Mas só nos seus
próprios termos podemos compreendê-los correctamente.
Qualquer redução dos problemas filosóficos, e das teorias
que lhes dão resposta, a explicações históricas é uma
simplificação grosseira.
O contexto histórico que permitiu o desenvolvimento de
lentes e telescópios permitiu também os estudos
astronómicos de Galileu, mas as suas teorias astronómicas
só podem ser entendidas em termos astronómicos, e não
históricos; o mesmo ocorre em filosofia. Se não a
entendermos em termos filosóficos, o resultado será o
género de simplismo caricatural de que se queixava Kant:


«Mais ou menos como se alguém, que nunca tivesse
ouvido falar ou nada tivesse visto de geometria, ao
encontrar um exemplar de Euclides e sendo-lhe
pedido um juízo a seu respeito, dissesse, depois de,
ao folhear, ter notado muitas figuras: ‘o livro é uma
instrução sistemática para o desenho: o autor serve-
se de uma língua particular para dar prescrições
obscuras, incompreensíveis, que, no fim, nada mais
podem conseguir do que o que cada um pode fazer
mediante um bom olhar seguro natural, etc.’»
(Prolegómenos a Toda a Metafísica Futura, p. A204-
205)
Kant insurge-se contra a atitude de quem desconhece a
filosofia, mas para não o deixar transparecer faz
comentários laterais sobre contextos históricos, etimologia
de 
palavras, 
mitologia 
grega, 
etc. 
— 
evitando
cuidadosamente explicar e discutir os problemas, teorias e
argumentos especificamente filosóficos que estão no texto.
Os problemas filosóficos são insusceptíveis de
investigação adequada por quaisquer outros métodos que
não os filosóficos. Enfrentar a sua complexidade e
dificuldade exige o melhor de nós, e a experiência dessa
entrega é maravilhosa. Todavia, quando não se vê da
filosofia senão simplismos caricaturais, quando não se vê o
que os filósofos efectivamente têm feito, e continuam
fazendo, torna-se difícil compreender o deslumbramento e
realização pessoal que a filosofia pode proporcionar.
Pergunta-se então para que serve a filosofia, e sugere-se
que não serve para coisa alguma. Mas a pergunta está feita
ao contrário porque a filosofia não é como um rio que já
existe e acerca do qual perguntamos para que serve; a
filosofia é antes como uma casa que construímos para
responder às nossas necessidades. Assim, a pergunta
correcta é por que fazem os filósofos filosofia. E a resposta é


que a fazem porque essa é a única maneira de responder a
problemas que nos fascinam e que queremos esclarecer
tanto quanto possível, mesmo que sejamos incapazes de
lhes dar respostas definitivas.



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