Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
O génio maligno
Muito bem; aceitemos então que não é insensata a
pergunta filosófica muito geral «Será que sabemos
realmente o que cremos saber?». Mas o que está em causa?
Quatro anos apenas depois da publicação do Discurso,
Descartes publicou — em latim, desta vez — uma obra
filosófica mais pormenorizada, cujo título completo é
Meditações sobre a Filosofia Primeira, nas quais são
Demonstradas a Existência de Deus e a Distinção entre a
Alma e o Corpo. Foi nesta obra que Descartes inventou o
famoso génio maligno, ajudando a compreender melhor o
que está em causa:
«Vou supor, por consequência, não o Deus
sumamente bom, fonte da verdade, mas um certo
génio maligno, ao mesmo tempo extremamente
poderoso e astuto, que pusesse todo o seu engenho
em me enganar. Vou acreditar que o céu, o ar, a Terra,
as cores, as figuras, os sons, e todas as coisas
exteriores não são mais do que ilusões de sonhos com
que ele arma ciladas à minha credulidade».
(Meditações sobre a Filosofia Primeira, pp. 113-114)
O génio maligno é um ser poderoso, mas tão perverso,
que nos engana continuamente: sempre que cremos ver
algo, estamos a ser vítimas de uma ilusão, de maneira que
esse algo não existe ou é totalmente diferente do que nos
parece.
Sem dúvida que a hipótese do génio maligno é esquisita.
Não é o género de hipótese que consideramos todos os
dias. Imagine-se o leitor a justificar a sua falta ao emprego
no dia anterior com as seguintes palavras: «Como sabe que
realmente eu não estive cá? Talvez um génio maligno o


tenha enganado e, por causa disso, não me viu!» Não seria
de espantar que o seu empregador recusasse pagar-lhe, no
fim do mês, com o argumento de que no mês passado lhe
pagou o dobro, mas o leitor não o viu devido a uma ilusão
provocada pelo génio maligno. E assim por diante.
De modo que a hipótese do génio maligno pode parecer
ociosa. Não é, certamente, o género de hipótese que
levemos a sério quotidianamente. Contudo, nenhumas
interrogações são levadas a sério em quotidianos estéreis,
se não forem imediatistas: imagine o que seria o leitor
justificar a sua falta ao emprego dizendo que ficou em casa
preocupado com a questão histórica lancinante de saber se
Nefertari foi realmente a esposa preferida de Ramsés II.
Sem dúvida que a preocupação filosófica com a hipótese
do génio maligno é de maior generalidade. Mas a sua
estranheza não resulta tanto da sua generalidade quanto da
sua atipicidade, quando comparada com as preocupações
dos quotidianos estéreis, pondo-a a par de qualquer
preocupação que não seja imediatista. Quem manifestar
impaciência com a hipótese do génio maligno mas não com
problemas da história ou da química é por considerar que só
vale a pena fazer perguntas a que já sabemos responder.
Mas esta atitude, como vimos, não é particularmente
recomendável.
A hipótese do génio maligno torna mais nítido um
problema central de uma área da filosofia a que se chama
«teoria do conhecimento» ou «epistemologia» (que deriva
do termo grego episteme, que significa «conhecimento»).
Entre outras coisas, nesta disciplina trata-se de investigar
qual é a justificação última das nossas crenças. Mas o que é
isso de «justificação última»? E, já agora, o que é uma
crença?



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