Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Mundos possíveis
Compreende-se e discute-se melhor esta versão do
argumento de Anselmo se usarmos o conceito de mundos
possíveis, que foi inicialmente explorado por Leibniz. Este
conceito tornou-se muitíssimo importante na filosofia
contemporânea, tendo recebido tratamentos bastante
sofisticados em lógica. Mas a ideia crucial pode ser
entendida sem dominar a lógica.
Há várias concepções de mundo possível. Para
compreender uma das mais promissoras, considere-se
primeiro o modo como as coisas são: Sócrates nasceu em
Atenas e ontem choveu numa cidade da Síria. Estes
acontecimentos são modos de ser das coisas: as coisas são
desse modo.
Quando as coisas não são de um dado modo, mas
poderiam sê-lo, estamos a falar do que poderia ter ocorrido
mas não ocorreu. Por exemplo, Sócrates poderia ter nascido
no Egipto, mas não nasceu; ontem poderia não ter chovido
numa cidade da Síria, mas choveu. Esses são modos de ser
das coisas porque as coisas poderiam ser desse modo, mas
não são.
É aos modos de ser das coisas que chamamos «mundos
possíveis», o que inclui o modo como as coisas são e os
muitos modos como as coisas poderiam ter sido mas não
são.
Ao modo como as coisas são chamamos «mundo
efectivo»; aos modos como as coisas poderiam ter sido,
mas não são, chamamos «mundos meramente possíveis». O
mundo efectivo é um dos mundos possíveis, só que não é
meramente possível: além de possível, é efectivo.
Por «mundo» não entendemos, pois, o planeta Terra, e
nem sequer o universo (com tudo o que contém, como
árvores e rios, estrelas e átomos), mas antes um modo de


ser das coisas. Assim, ao afirmar que Sócrates poderia ter
nascido no Egipto apesar de ter nascido em Atenas,
estamos a falar de dois modos de ser de Sócrates: um modo
como Sócrates poderia ter sido mas não é, e um modo
como ele é.
Podemos agora traduzir os conceitos de contingência,
possibilidade e necessidade na linguagem dos mundos
possíveis e vice-versa:
— «Sócrates nasceu contingentemente em Atenas» quer
dizer, na linguagem dos mundos possíveis, que no modo
como as coisas são, no mundo efectivo, Sócrates nasceu em
Atenas, mas há modos como as coisas poderiam ter sido,
outros mundos possíveis, em que Sócrates nasceu noutra
cidade.
— «Sócrates poderia ter nascido no Egipto» quer dizer que
há pelo menos um modo como as coisas poderiam ter sido,
ou seja, um mundo possível, em que Sócrates nasceu no
Egipto.
— «Sócrates é necessariamente um ser humano» quer dizer
que ele é um ser humano em todos os mundos possíveis em
que existe.
— «Sócrates é um existente contingente» quer dizer que
Sócrates existe no mundo efectivo, mas não em todos os
mundos possíveis.
Assim, afirmar que Deus é um existente necessário é
afirmar que Deus existe em todos os mundos possíveis.
Deus contrasta com os existentes contingentes — como o
leitor e eu. Nós somos existentes contingentes porque,
apesar de existirmos, poderíamos não ter existido, ou seja,
há vários mundos possíveis em que não existimos.


Ora, parece razoável que o ateu conceda que poderia
existir um ser, Deus, que existisse em todos os mundos
possíveis, apesar de tal ser não existir. Contudo, se o ateu
aceitar 
isto, 

argumento 
anselmiano 
conclui
imediatamente que Deus existe. Será este argumento
correcto? Se for possível que algo exista em todos os
mundos possíveis, conclui-se correctamente que existe no
mundo efectivo?
Note-se que esta última pergunta é diferente da
pergunta «se algo existe em todos os mundos possíveis,
conclui-se correctamente que existe no mundo efectivo?»
Esta última pergunta tem uma resposta banal: sim, se algo
existe em todos os mundos possíveis, então existe também
no mundo efectivo, dado que este é um dos mundos
possíveis.
A pergunta que nos interessa não é esta; o que
queremos saber é se da possibilidade de algo existir em
todos os mundos possíveis se conclui correctamente que
existe no mundo efectivo. Esta é a pergunta que
corresponde ao argumento anselmiano.



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