Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer


partida: a ideia do insensato de que Deus, o ser mais



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107

partida: a ideia do insensato de que Deus, o ser mais
grandioso do que o qual nada pode ser pensado, não existe.
Logo, Deus existe.


Duas objecções clássicas
Gaunilo, um monge beneditino da abadia de Marmoutier,
contemporâneo de Anselmo, apresentou uma objecção
famosa ao argumento ontológico, a que Anselmo responde
e que fez questão de ver publicada juntamente com a sua
obra. Gaunilo argumenta que com o mesmo tipo de
raciocínio alguém poderia defender que existe a ilha mais
perfeita, dado que esta pode ser pensada, e não seria a
mais perfeita se existisse apenas no pensamento. Mas esta
ilha não existe; logo, conclui Gaunilo, perante este
argumento «não saberia quem devo pensar que é mais
insensato: eu próprio, se lhe conceder tal conclusão, ou ele,
se pensar que estabeleceu a existência de tal ilha» (Em
Nome do Insensato, § 6, p. 102).
Anselmo, todavia, tem uma resposta para esta objecção:
é que nem tudo é tal que seja o mais grandioso do que o
qual nada possa ser pensado. Um exemplo torna isto claro:
não há um número maior do que o qual nenhum possa ser
pensado, pois para cada número podemos sempre pensar
num número maior. Do mesmo modo, não há uma ilha mais
perfeita do que a qual nenhuma se possa pensar, pois
podemos sempre pensar numa mais perfeita do que a
anterior. O conceito de Deus, contudo, é precisamente o de
o ser mais grandioso do que o qual nada pode ser pensado.
Logo, a objecção de Gaunilo não é tão obviamente bem-
sucedida como pode parecer à primeira vista.
Se insistirmos que nada nos garante que Deus seja o ser
mais grandioso do que o qual nada pode ser pensado,
Anselmo tem também uma boa resposta: o que está em
causa é mostrar que existe o ser mais grandioso do que o
qual nada pode ser pensado, seja ele ou não a divindade
cristã. Depois de provada a sua existência, poderemos
então tentar descobrir se os atributos do ser mais grandioso


do que o qual nada pode ser pensado correspondem ou não
aos atributos tradicionais da divindade cristã.
Outro género de objecção inspira-se em Kant que, na
Crítica da Razão Pura, obra publicada pela primeira vez em
1781, procura refutar a versão de Descartes e Leibniz do
argumento ontológico. A objecção baseia-se na ideia de que
a existência não é um predicado genuíno, como «é
grandioso» ou «é ateniense». Nestes dois casos, trata-se de
exprimir uma propriedade que um existente pode ou não
ter. Mas a existência não é uma propriedade que um
existente pode ou não ter, dado que todo o existente existe;
a existência é, ao invés, a condição de possibilidade de toda
a predicação. Logo, o predicado da existência não pode
conferir grandiosidade, dado não ser sequer um predicado
genuíno, no mesmo sentido em que «é ateniense» é um
predicado.
Contudo, mesmo que a existência não seja um predicado
genuíno (o que está longe de ser pacífico), desta tese não
poderá resultar que a afirmação banal «O Pai Natal não
existe, mas poderia ter existido» seja destituída de
significado. Esta afirmação tem obviamente significado e diz
algo muito simples: que, tal como as coisas são, o Pai Natal
não existe, mas poderia ter existido se as coisas fossem
diferentes. Podemos ter razões para pensar que o Pai Natal
não poderia ter existido; mas mesmo para pensar tal coisa
temos de aceitar que a afirmação não é destituída de
significado. Ora, nesse caso, também a afirmação de que
Deus não poderia não existir não é destituída de significado.
E isso, como veremos, é tudo o que precisamos para
apresentar uma versão plausível do argumento ontológico
de Anselmo.



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