Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer


partida, a crença do seu amigo de que não há verdades, e



Baixar 0.78 Mb.
Pdf preview
Página46/56
Encontro14.07.2022
Tamanho0.78 Mb.
#24256
1   ...   42   43   44   45   46   47   48   49   ...   56
Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107

partida, a crença do seu amigo de que não há verdades, e
conclui que há verdades.


Refutar o insensato
Anselmo procura mostrar que o insensato bíblico, que diz no
seu coração que Deus não existe (Salmos 14 e 53), também
se contradiz, como o amigo do leitor. A natureza de Deus é
tal que a hipótese da sua inexistência é contraditória. E que
natureza é essa? Deus, considera Anselmo, é um ser de tal
modo grandioso que não conseguimos conceber outro que
seja ainda mais grandioso.
Anselmo formula esta ideia usando uma expressão que
ficou famosa: Deus é o ser maior do que o qual nada pode
ser pensado. Contudo, Anselmo não tem em mente a
grandeza física, mas antes a grandiosidade, excelência ou
esplendor. A ideia é que Deus é o mais excelente dos seres,
ou o mais grandioso; tão grandioso, que a hipótese da sua
inexistência implica uma contradição:
«Assim, mesmo o insensato tem de admitir que algo
maior do que o qual nada pode ser pensado existe
pelo menos no seu entendimento, dado que ele o
entende quando o ouve, e o que é entendido existe no
entendimento. E certamente que aquilo maior do que
o qual nada pode ser pensado não pode existir apenas
no entendimento. Pois se existisse apenas no
entendimento, poder-se-ia pensar que existia na
realidade também, o que seria ainda maior. Logo, se
aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado
existe apenas no entendimento, então a própria coisa
maior do que a qual nada pode ser pensado é algo
maior do que o qual algo pode ser pensado. Mas isto é
claramente impossível. Logo, não há dúvida de que o
maior do que o qual nada pode ser pensado tanto
existe no entendimento como na realidade».
(Proslogion, Cap. 2, p. 82)


O texto de Anselmo é maravilhosamente claro, preciso e
directo, mas sofisticado. Acompanhemos o seu pensamento,
passo a passo, com a mesma solicitude com que Anselmo
percorreu mais de setecentos quilómetros em busca da
compreensão.
O insensato admite que as pessoas pensam em Deus,
ainda que este não exista realmente. Isto significa que Deus
existe no pensamento ou entendimento, ainda que não
exista na realidade. O mesmo se pode dizer de qualquer
ficção: é algo que existe no pensamento ou entendimento
do seu criador — um romancista, por exemplo — mas não
existe na realidade. E é isto que o insensato pensa que é
Deus: uma mera ficção.
Contudo, Deus é por definição aquele ser, seja ele qual
for, exista ou não, que é tão grandioso que é impossível
conceber outro que seja ainda mais grandioso. E o insensato
aceita também esta ideia — apenas continua a insistir que
esse ser é uma fantasia, não existindo na realidade.
Ora, é aqui que Anselmo desfere o seu golpe mortal. Se
Deus existisse apenas no entendimento, poderia haver
outro ser, exactamente como ele, mas que existisse
também na realidade. Este ser seria certamente mais
grandioso do que Deus, pois teria existência real, o que é
certamente uma excelência.
Se virmos bem, chegámos a uma contradição. Isto
porque admitimos que Deus é por definição o ser mais
grandioso do que o qual nenhum pode ser pensado, e
depois pensámos num ser mais grandioso do que Deus.
Para negar esta contradição, rejeitamos a hipótese de
Baixar 0.78 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   42   43   44   45   46   47   48   49   ...   56




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal