Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer


parte de uma reflexão sobre a natureza última desse ser



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107

parte de uma reflexão sobre a natureza última desse ser
hipotético a que chamamos Deus, e conclui, nessa base
apenas, e sem apelar para quaisquer outros factos sobre a
realidade, que esse ser existe. Este argumento contrasta
assim com dois outros grupos de argumentos tradicionais a
favor da existência de Deus, denominados «argumentos do
desígnio» e «argumentos cosmológicos».
O termo «cosmologia» poderá ser surpreendente neste
contexto, se pensarmos apenas na cosmologia científica do
séc. XX. Mas a cosmologia, enquanto teoria sobre a
estrutura geral do cosmos, existia muito antes da recente
cosmologia científica. Os argumentos cosmológicos a favor
da existência de Deus pretendem concluir que Deus existe
com base em certos aspectos da estrutura geral do cosmos.
Tanto os argumentos do desígnio como os cosmológicos
partem de alguns factos sobre a realidade espácio-temporal
e concluem que sem a hipótese de Deus não se consegue
explicá-los adequadamente. Precisamente porque estes
argumentos 
incluem 
informações 
empíricas, 
são
denominados argumentos a posteriori. Isto contrasta com


os argumentos ontológicos, cujas premissas podem ser
conhecidas exclusivamente com base no pensamento,
recebendo por isso a designação de argumentos a priori.


Redução ao absurdo
Há diferentes versões de argumentos ontológicos a favor da
existência de Deus. A versão de Anselmo é um tipo de
raciocínio já conhecido na Antiguidade grega a que se
chama redução ao absurdo, ou reductio ad absurdum, em
latim. Raciocinar ou argumentar por redução ao absurdo é
partir do oposto do que queremos estabelecer e mostrar
que dessa hipótese se conclui correctamente uma
contradição: um absurdo. O que fizemos foi mostrar que
aceitar tal hipótese obrigaria a aceitar uma contradição. Se
agora quisermos rejeitar a contradição, teremos de rejeitar
a hipótese de partida.
O cogito de Descartes, que visitámos brevemente no
Capítulo 1, pode ser apresentado como uma redução ao
absurdo. Aceite-se a hipótese de que todas as minhas
crenças são falsas: há um génio maligno que me engana
constantemente. Daqui conclui-se correctamente que é
falsa a minha crença de que existo. Mas para o génio
maligno me poder enganar, para que eu tenha crenças
falsas, é preciso que eu exista. Logo, é verdadeira a minha
crença de que existo. Eis a contradição: fomos levados a
concluir que uma mesma crença («eu existo») é verdadeira
e falsa. Se agora quisermos rejeitar esta contradição,
teremos de rejeitar a hipótese de partida: a hipótese de que
todas as minhas crenças são falsas, sendo produzidas por
um génio maligno que me engana constantemente.
Eis outro exemplo deste género de raciocínio. Imagine o
leitor que o seu amigo crê que não há verdades: tudo é
ilusão. Perplexo com tal posição, o leitor começa por aceitá-
la, procurando mostrar que dela se conclui correctamente
uma contradição, para então a negar. E isso não é difícil
fazer, pois se não há verdades, é verdadeiro que não há
verdades. Eis a contradição: por um lado não há verdades,


mas por outro é verdadeiro que não há verdades. Para
rejeitar esta contradição, o leitor nega a hipótese de
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