Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer


Heróis vespertinos e madrugadores



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Heróis vespertinos e madrugadores
Eis um princípio, muitíssimo abreviado, de uma tentativa de
resposta.
Se aceitarmos que um dos aspectos necessários da
linguagem 
é 

intencionalidade 
coordenada,
compreendemos como é possível alguém referir a Mimi sem
conhecer qualquer descrição da Mimi que seja suficiente
para a identificar. Isso é possível porque a pessoa precisa
apenas de ter a intenção de referir seja o que for que a
outra pessoa, de quem ouviu originalmente o termo, estava
a referir. O nome não precisa de incluir qualquer descrição
para referir. Aliás, rigorosamente falando, não são os nomes
que referem: são as pessoas, usando nomes com certas
intenções, quando essas intenções estão adequadamente
coordenadas com as intenções de outras pessoas.
Nos casos em que é informativo descobrir que Véspero é
Fósforo, a pessoa associa certamente informações
diferentes a um e a outro nome. Mas daí não se conclui
correctamente que é em virtude dessas informações que ela
consegue usar os nomes para referir correctamente. Aliás, a
pessoa pode até associar informações falsas aos dois
nomes, e mesmo assim a afirmação de que Véspero é
Fósforo será informativa, num certo sentido, ao passo que a
afirmação de que Véspero é Véspero não o será. Vejamos
um exemplo.
Imagine o leitor que nunca tinha ouvido falar de Véspero
nem de Fósforo, e que ouve uns amigos a usar estes nomes
numa conversa. Por qualquer razão, fica convicto de que se
trata de dois heróis de banda desenhada, costumando o
primeiro aparecer à tarde, para salvar a cidade, e o segundo
pela manhã. Quando ouve dizer que Véspero é Fósforo isto
será para si informativo, porque associa informações
diferentes aos dois nomes. Contudo, nenhuma dessas


informações permite referir correctamente Vénus. Logo, o
que torna informativa a afirmação de que Véspero é Fósforo
não é o que lhe permite usar os dois nomes para referir
Vénus.
Poder-se-ia defender que, na circunstância descrita, o
leitor não refere Vénus com qualquer dos nomes, mas antes
heróis de banda desenhada. Mas isto é muitíssimo
implausível, pois se o leitor disser aos seus amigos, nessa
circunstância, que Véspero não passa de uma ficção, estará
a dizer uma falsidade sobre Vénus, e não uma verdade
sobre um herói de banda desenhada. Mesmo que, no
momento em que o disser, um autor tenha acabado de
inventar, na sala do lado, dois heróis de banda desenhada
chamados «Véspero» e «Fósforo», o leitor não terá uma
crença verdadeira sobre estes heróis da sala do lado, ao
crer que são ficções, mas antes uma crença falsa sobre
Vénus, que, quando está mais próximo da Terra, fica a
quarenta milhões de quilómetros.



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