Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer


Intencionalidade coordenada



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Intencionalidade coordenada
Imagine que um dia de manhã o leitor vai à cozinha e
encontra escrito no chão a palavra «Mimi». Fica
surpreendido e tenta descobrir quem escreveu tal coisa.
Acaba por descobrir que o frigorífico tem uma avaria e o
fluido escuro que dele sai formou por puro acaso essa
palavra no chão. Pergunta obtusa: quem é a Mimi?
A pergunta é obtusa porque é óbvio que a palavra não
refere coisa alguma. Rigorosamente falando, não é sequer
uma palavra. É apenas um conjunto de traços no chão, que
o leitor interpretou como uma palavra. Mas não refere coisa
alguma, porque o frigorífico não tinha qualquer intenção
comunicativa.
O que isto significa é que não há fenómenos linguísticos
— não há nomes, palavras, frases, perguntas, afirmações —
sem intenção. Afinal, a parte física da linguagem — sons,
inscrições — são em si objectos tão alinguísticos quanto as
árvores e as pedras. O que confere significado a certos
objectos físicos são as nossas intenções.
Contudo, há razões para pensar que a intencionalidade
não basta. Na obra póstuma Investigações Filosóficas
(1953), Ludwig Wittgenstein parece argumentar contra uma
concepção da linguagem que a veja como um fenómeno
privado. A sua ideia, aparentemente, é que seria impossível
constituir as regras de funcionamento de uma linguagem
privada porque não haveria garantia de estarmos a seguir
as regras adequadamente, sem nos enganarmos.
Por exemplo, uma pessoa sozinha decide chamar
«vercinal» a um certo tipo de dor de cabeça que tem por
vezes. Mas, porque nunca o diz seja a quem for e porque
ninguém pode ver se ela se engana ou não, ela mesma não
sabe se ao usar de novo o mesmo termo está a aplicá-lo ao
mesmo género de dor de cabeça ou não. Isto significa que


não conseguiu constituir uma linguagem, pois para haver
linguagem tem de haver regularidade: se «vercinal» refere
um certo género de dor de cabeça, não pode referir seja o
que for, arbitrariamente, noutras circunstâncias.
Se aceitarmos a primeira ideia, segundo a qual é
necessário haver intencionalidade para haver linguagem, e
também a segunda ideia, segundo a qual não há linguagens
logicamente privadas, concluiremos talvez que uma
linguagem é um sistema de intenções coordenadas. Não
basta que uma pessoa, privadamente, tenha a intenção de
usar um certo som, ou uma certa inscrição, para falar da
Mimi; 
é 
preciso 
que 
outras 
pessoas 
tenham,
coordenadamente, a intenção de usar um som ou inscrição
do mesmo tipo para falar também da Mimi. Só temos uma
linguagem quando várias pessoas com intenções
comunicativas coordenam entre si os usos de certos sons ou
inscrições.



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