Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Sentidos vagos
Imagine-se que alguém lhe diz casualmente que a Mimi já é
mãe. Como o leitor não sabe de quem se trata, pergunta
«Quem é a Mimi?» É óbvio que o leitor está a fazer uma
pergunta acerca da Mimi — apesar de não fazer a mais
pálida ideia de quem está falando. Aliás, não sabe sequer se
é um nome de pessoa, cadela ou gata, entre outras
possibilidades. É difícil sustentar que quando o leitor usa o
nome «Mimi» a referência ocorre por meio de qualquer
sentido. Que sentido é esse, público ou não?
Vejamos outro caso. Qual é o sentido — público — que as
pessoas comuns associam a Heraclito? Um filósofo da
Antiguidade Grega, talvez. Mas isto não é suficiente para
referir inequivocamente Heraclito. Aliás, mesmo pessoas
com formação em filosofia têm dificuldade em dizer quais
são os atributos de Heraclito que o distinguem de outros
filósofos.
O que está em causa é que, na teoria de Frege, os nomes
referem por meio dos seus sentidos. Mas estes sentidos,
para poderem desempenhar esse papel, não podem ser
ideias vagas. Quando o leitor ouve falar da Mimi tem a ideia
vaga de que será uma pessoa; mas isso não basta para
referir a Mimi, segundo Frege. Quando falamos de Heraclito
temos ideias vagas sobre quem era esse filósofo; mas isso
não basta para referir Heraclito, segundo Frege. A teoria de
Frege exige que cada nome tenha sentidos muitíssimo
precisos. Mas parece falso que os nomes tenham sentidos
com tal precisão. Por isso, a teoria de Frege parece falsa.


Significado e referência
É importante distinguir uma teoria do significado dos nomes
próprios de uma teoria da sua referência — o que é tanto
mais delicado porque não se via a diferença entre as duas
coisas, até muito recentemente.
Uma teoria da referência visa explicar como se dá a
referência dos nomes próprios; procura explicar como se
estabelece a ligação entre o nome próprio e a coisa que o
nome refere.
Uma teoria do significado, em contraste, visa esclarecer
o significado dos nomes próprios. Assim, podemos defender,
por exemplo, que o significado de «Fósforo» é «o último
corpo celeste visível ao amanhecer». Para que isto seja um
resultado correcto de uma teoria do significado, a frase
«Fósforo é o último corpo celeste visível ao amanhecer»
terá de ser uma verdade analítica, como «Nenhum solteiro é
casado».
Historicamente, não se distinguia muito bem as duas
coisas porque Frege, como Russell, tinha uma só teoria para
o significado e para a referência dos nomes próprios. Frege
defendia que os nomes referem por meio dos seus sentidos,
constituindo estes o significado dos nomes. Temos assim
uma teoria elegante que explica as duas coisas.
Perguntamos o que significa «Lua» e a resposta é «satélite
natural da Terra», por exemplo; perguntamos como o nome
refere, e a resposta é que refere por meio do seu sentido,
que por sua vez descreve os atributos que só a Lua tem, e
por isso se aplica apenas à Lua.
Em contraste, se rejeitarmos que os nomes tenham
sentidos, 
porque 
superficialmente 
parecem 
meras
etiquetas, precisamos de explicar adequadamente como
podemos referir Heraclito, mais de dois mil anos depois da
sua morte. Daí que, apesar das dificuldades óbvias da teoria


de Frege, esta permanecesse indisputada até muito
recentemente. Poderemos nós explicar a referência dos
nomes próprios, contudo, sem recorrer a algo como os
sentidos de Frege?



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