Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer


Um planeta com dois nomes



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Um planeta com dois nomes
O planeta Vénus é o primeiro corpo celeste brilhante, visível
a olho nu, a aparecer pela tarde, ao pôr-do-sol, e o último a
desaparecer de manhã, pouco antes do Sol nascer. Hoje
sabemos que é o mesmo corpo celeste, mas no passado as
pessoas não o sabiam. Então, deram o nome «Véspero» ao
corpo celeste que aparece à tarde, e «Fósforo» ao que
aparece de manhã — dando, sem saber, dois nomes à
mesma coisa.
Se Mill tivesse razão e os nomes próprios fossem meras
etiquetas, reflectiu Frege, afirmar que Véspero é Véspero e
afirmar que Véspero é Fósforo deveria ser igualmente
informativo. Mas não é igualmente informativo: a segunda
afirmação é uma importante descoberta astronómica, mas a
primeira não. Logo, Mill não tem razão.
O problema, a que por vezes se chama «quebra-cabeças
de Frege», é explicar como pode uma das afirmações ser
informativa e a outra não. Para o fazer, Frege deitou mão
dos sentidos (Sinn, em alemão). A ideia é que os nomes
próprios afinal não são meras etiquetas: diferentes nomes
têm diferentes significados, chamados sentidos, que são
responsáveis pela sua referência — mesmo que refiram a
mesma coisa. Daí que seja informativo afirmar que Véspero
é Fósforo, mas não que Véspero é Véspero: apesar de
estarmos nos dois casos a falar da mesma coisa, Vénus,
estamos a falar dela de modos diferentes.
Para desempenhar adequadamente o seu papel,
contudo, os sentidos associados aos nomes não podem ser
meras idiossincrasias pessoais — caso fossem, o leitor não
entenderia o que estou dizendo ao falar de Vénus, pois eu
poderia associar a este nome um sentido pessoal diferente
do seu. E como, nesta teoria, o sentido determina a


referência, o leitor não saberia o que estou referindo se
desconhecesse o meu sentido pessoal de «Vénus».
Assim, Frege volta a introduzir a ideia de que os termos
singulares são como os termos gerais: referem por meio de
descrições de atributos. Os sentidos dos termos singulares
dão-lhes os mesmos mecanismos de referência dos termos
gerais. O sentido de «Véspero», por exemplo, seria algo
como «primeiro corpo celeste brilhante a surgir à tarde, ao
pôr-do-sol». O sentido de «Lua» seria, talvez, «satélite
natural da Terra». E assim podemos explicar como consegue
o leitor referir Heraclito: porque o sentido do nome deste
filósofo descreve atributos que só ele tinha.



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