Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer


Convencionalismo e naturalismo



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Convencionalismo e naturalismo
Na tragédia Romeu e Julieta (1599), William Shakespeare (c.
1564-1616) escreveu:
«Que tem um nome? O que chamamos rosa
Seria igualmente doce com qualquer outro
nome;
Assim, caso Romeu não se chamasse Romeu,
Continuaria a ter a querida perfeição…»
A ideia aqui presente é que os nomes das coisas são
meramente convencionais, não tendo qualquer relação com
a natureza das coisas designadas. Mas a pura
convencionalidade dos nomes (incluindo aqui nomes
próprios como «Romeu» e substantivos comuns como
«rosa») nem sempre foi pacífica em filosofia.
Na Antiguidade Grega discutia-se se os nomes eram
puramente convencionais ou se, pelo contrário, revelavam a
natureza do que referem. No diálogo Crátilo, de Platão, o
protagonista homónimo defende esta última posição, a que
hoje chamamos naturalismo. Hermógenes, em contraste,
defende a posição contrária, a que chamamos hoje
convencionalismo.
A discussão não era particularmente profícua, por duas
razões. Primeiro, porque é evidente que os nomes são
convencionais se com isso queremos dizer que se chama
água à água mas poderia chamar-se outra coisa — dado que
noutras línguas se chama realmente outra coisa, como
water, em inglês, ou eau, em francês. O problema genuíno
não pode ser este, mas antes a questão de os nomes
referirem descritivamente ou não. Mas que problema é
esse?


Um nome refere descritivamente quando refere por meio
de descrições de atributos da coisa referida, referindo-a
precisamente por ela ter esses atributos. Por exemplo,
«satélite natural da Terra» refere a Lua descritivamente,
porque a refere em virtude de ela ter os atributos
mencionados: é um satélite natural da Terra. Mas o nome
«Lua» não parece referir a Lua por meio de quaisquer
atributos, pelo menos explicitamente presentes no nome.
Assim, o problema é saber se os nomes referem
descritivamente, ainda que de modo disfarçado, ou se
referem de qualquer outro modo.
Em segundo lugar, na Antiguidade não se distinguia
entre substantivos comuns, nomes próprios e adjectivos,
nem entre termos singulares e termos gerais. Considere-se
o termo singular «Lua» e o termo geral «satélite natural da
Terra». Ambos referem a mesma coisa, mas fazem-no de
modo aparentemente diferente. No segundo caso, a
referência resulta de a coisa referida ter os atributos
descritos: ser um satélite natural da Terra. Os termos gerais
referem o que referem deste modo descritivo, abrangendo
seja o que for que tenha os atributos descritos.
Em contraste, termos singulares como os nomes próprios
não parecem referir descritivamente, nomeadamente
porque em muitos casos não parecem descrever quaisquer
atributos: que atributos são descritos por «Heraclito» ou
«Lua»? Sem dúvida que usamos o termo geral «lua» — com
minúscula — para falar de qualquer satélite natural de
qualquer planeta, mas, mesmo considerando que esse
conteúdo descritivo está presente no termo singular «Lua»,
isso não seria suficiente para referir apenas o satélite
natural da Terra: referiria qualquer lua, incluindo as luas de
Júpiter. Além disso, um dia poderíamos descobrir que a Lua
era afinal uma nave extraterrestre muito sofisticada, e não
uma lua; mesmo nesse caso, o termo singular «Lua»
continuaria a referir essa nave, o que não aconteceria com
o termo geral «lua».


Assim, não é muito avisado discutir se os termos referem
descritivamente ou não sem distinguir primeiro diferentes
tipos de termos. Isto porque pode ocorrer que alguns termos
refiram descritivamente (os termos gerais) e outros não (os
termos singulares).
Shakespeare fala indiferentemente do termo geral «rosa»
e do termo singular «Romeu», sem se dar conta das
diferenças. No que respeita ao termo geral «rosa», o
aspecto convencional diz apenas respeito ao facto de
qualquer outra palavra — nomeadamente, de outra língua
— poder referir o mesmo que «rosa». Mas o termo em si só
refere as rosas porque descreve o atributo relevante que
todas as rosas têm: são rosas. Contudo, no que respeita ao
termo singular «Romeu», o aspecto convencional não diz
apenas respeito ao facto de Romeu poder ter outros nomes.
Além disso, o seu nome não parece referi-lo por meio de
qualquer descrição de atributos. Mas então, como o refere?



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