Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Uma dificuldade central
A teoria de Kant enfrenta uma dificuldade mais central, que
é tanto mais difícil de nos darmos conta dela quanto mais a
sua teoria se parece com algo que todos aceitamos. Todos
aceitamos que vemos a realidade de várias perspectivas
diferentes, e que essas perspectivas nos dão imagens
diferentes da realidade: «o caminho a subir e a descer»,
escreveu Heraclito, «é um e o mesmo», dependendo de
onde estamos nós. (A afirmação de Heraclito foi-nos
transmitida por Hipólito, um teólogo romano do séc. III, e é
hoje conhecida como fragmento DK 108.)
Assim, quando Kant faz a sua revolução coperniciana e
afirma que visa explicar o nosso conhecimento fazendo os
objectos da cognição depender das nossas estruturas
cognitivas, ao invés do contrário, a ideia parece-nos
plausível. Parece que tudo o que Kant está a dizer é que as
nossas estruturas cognitivas influenciam o modo como
vemos a realidade, o que parece bastante pacífico.
Só que Kant não está apenas a afirmar isso. Afirma
também que o próprio tempo e espaço são estruturas por
nós projectadas sobre a realidade. Isto significa que entre a
nossa representação da realidade e a realidade nenhuma
relação espácio-temporal pode existir.
Kant está por isso muitíssimo longe da nossa ideia banal
de que vemos de maneiras diferentes a mesma coisa: é que
esta ideia pressupõe a existência de uma relação causal
entre a realidade e a nossa representação dela. A nossa
ideia banal é que vemos o mesmo caminho ora a subir ora a
descer porque a nossa localização espacial é diferente,
relativamente ao mesmo caminho, num e noutro caso; a
relação causal entre o caminho e a nossa percepção dele é
por isso diferente, nos dois casos.


Segundo a teoria de Kant, contudo, nenhuma relação
espácio-temporal 
poderá 
existir 
entre 

nossa
representação da realidade e a realidade, dado que é o
próprio espaço e tempo que são projecções da nossa
estrutura cognitiva. Kant fica assim com um dilema
desagradável: ou elimina a realidade independente da
nossa representação dela, o que ele de modo algum quer
fazer, opondo-se veementemente a esta hipótese; ou
admite que a sua teoria deixa por explicar o mais
importante que teria de explicar: a relação existente entre a
realidade e a nossa representação dela.
Afinal, este é o problema de fundo que está em causa no
debate entre os racionalistas e os empiristas. Ao passo que
os segundos defendem que nada de substancial podemos
saber sobre a realidade excepto em resultado do contacto
causal com ela, os primeiros insistem que podemos ter
conhecimento de aspectos cruciais da realidade por meio do
pensamento puro. O preço a pagar pelo empirismo é a
incapacidade para explicar como poderemos saber algo de
fundamental sobre a realidade, como é o caso das leis da
física, ao invés de meras contingências que se sucedem
entre si sem qualquer real conexão. O preço a pagar pelo
racionalismo é a dificuldade de explicar o processo que nos
permite ter conhecimento de aspectos fundamentais da
realidade por meio do pensamento puro.
A teoria de Kant deixa este dilema filosófico na mesma.
Não explica, nem pode explicar, como conhecemos nós seja
o que for sobre a realidade em si; e não explica, nem pode
explicar, que relação existe entre a nossa representação da
realidade e a realidade em si.



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