Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer



Baixar 0.78 Mb.
Pdf preview
Página30/56
Encontro14.07.2022
Tamanho0.78 Mb.
#24256
1   ...   26   27   28   29   30   31   32   33   ...   56
Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Sintético a priori
Hume não distingue, nos seus textos, entre três categorias
filosóficas importantes: o necessário, o a priori e o analítico.
A tudo isto chama Hume simplesmente «relações de
ideias», que contrastam com as questões de facto, onde
também não distingue o contingente, o a posteriori e o
sintético. É uma questão de facto que está agora a chover,
por exemplo, mas basta relacionar ideias, pensa Hume, para
saber que cinco é um número ímpar.
Kant introduziu uma distinção entre o a priori e o
necessário, por um lado, e o analítico, por outro. Apesar de
continuar a não distinguir com rigor o a priori do necessário,
como fazemos hoje, distinguiu cuidadosamente o analítico
deste par conceptual. Usando a concepção contemporânea
de analítico, que é ligeiramente diferente da de Kant, uma
afirmação é analítica quando podemos saber que é
verdadeira, ou falsa, com base apenas no significado das
palavras que nela ocorrem, e é sintética caso contrário.
Assim, «Nenhum solteiro é casado» é uma afirmação
analítica, mas «Nenhum solteiro é feliz» é sintética.
Contudo, Kant via a diferença entre o analítico e o
sintético de modo algo diferente: considerava que numa
afirmação analítica nada se acrescenta na segunda parte da
afirmação que a primeira não contenha já, ao passo que é
precisamente isso que faz uma afirmação sintética. Assim,
dado o conhecimento que temos do que é ser solteiro, já
sabemos que nenhum solteiro é casado; mas esse
conhecimento não nos diz se os solteiros são felizes. Neste
sentido, as afirmações analíticas não seriam informativas,
ou ampliativas, ao passo que as sintéticas o seriam.
Quanto ao necessário e ao a priori, trata-se de conceitos
que hoje distinguimos claramente, mas que Kant trata como
se fossem irmãos gémeos. O a priori é um conceito que diz


respeito ao modo como conhecemos: quando conhecemos
algo recorrendo exclusivamente ao pensamento, como é o
caso da matemática, trata-se de conhecimento a priori;
quando conhecemos algo recorrendo pelo menos
parcialmente à experiência, trata-se de conhecimento a
posteriori.
A introdução deste par conceptual constituiu um
desenvolvimento crucial na história da filosofia, e deve-se
em parte a Kant. Filósofos como Locke e Descartes usavam
ao invés os conceitos de conhecimento inato e adquirido.
Ora, apesar de ser razoável defender que não nascemos a
saber que cinco é um número ímpar, por exemplo, pelo que
este não é um conhecimento inato, sabemo-lo sem recorrer
à experiência, raciocinando apenas sobre os conceitos
relevantes — ao passo que por mais que raciocinemos sobre
os conceitos relevantes, nunca saberemos, raciocinando
apenas, qual é a velocidade da luz. Deste modo, quem
defender a tese de que há conhecimento a priori pode
rejeitar a tese mais implausível de que há conhecimento
inato.
Porque Hume não distinguia o par analítico/sintético do
par a priori/a posteriori, estava condenado a considerar que
tudo o que sabemos a priori é analítico. Mas se
considerarmos que as verdades analíticas não são
informativas ou ampliativas, torna-se óbvio que a
matemática, dado ser muitíssimo informativa, não pode ser
analítica nesse sentido, apesar de parecer a priori. Kant
defendeu então que há verdades sintéticas que no entanto
são conhecíveis a priori e considerou que a tarefa preliminar
a toda a metafísica consistia em explicar como era isso
possível: como podemos alargar o nosso conhecimento por
meio do raciocínio puro?
Explicar como é possível o sintético a priori é também
explicar como é possível a metafísica — pois esta é
tradicionalmente concebida como uma disciplina a priori
que, no entanto, alarga o nosso conhecimento; e é explicar


também como podem as verdades científicas fundamentais,
apesar de serem obviamente sintéticas, ser necessárias
(considerando, como Kant, que o necessário e o a priori são
irmãos gémeos).



Baixar 0.78 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   26   27   28   29   30   31   32   33   ...   56




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal