Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
O sono dogmático
O sono dogmático de Kant é a tese racionalista de que
podemos justificar pelo pensamento apenas o nosso
conhecimento de aspectos substanciais da realidade física.
É contra esta ideia que Hume argumenta, insistindo que um
dos conceitos fundamentais para compreender a realidade
— e para fazer física — é inteiramente empírico: o conceito
de causalidade. Kant ficou impressionado com as ideias de
Hume, e viu nelas duas consequências importantes.
Em primeiro lugar, se Hume tivesse razão, as ciências
empíricas, precisamente por serem empíricas, nada de
estritamente universal ou necessário poderiam dizer-nos
sobre a realidade: teriam de ser meras descrições de
regularidades contingentes, e não corpos de verdades
necessárias e estritamente universais, como a geometria.
Isto não parece particularmente promissor, dado que nos
obriga a rever a convicção de que a ciência revela aspectos
fundamentais da natureza, e não apenas meras
contingências. A afirmação científica de que uma dada
porção de água é H
2
O não parece estar ao mesmo nível da
afirmação de que essa porção de água está em Lisboa. O
mundo tem muitíssimos factos e a ciência não parece uma
mera enumeração de quaisquer factos, mas antes uma
selecção dos que são particularmente centrais e
importantes, reveladores da natureza profunda das coisas.
Em segundo lugar, não seria possível a própria
metafísica, tal como era tradicionalmente concebida, pois
trata-se de estudar problemas filosóficos sobre a realidade,
insusceptíveis de estudo empírico. Se Hume tiver razão,
nenhum raciocínio puro permitirá descobrir quaisquer
verdades fundamentais sobre a realidade. Na verdade,
Hume encerra com as seguintes palavras a sua Investigação


sobre o Entendimento Humano, obra publicada trinta e
cinco anos antes dos Prolegómenos, em 1748:
«Ao passarmos os olhos pelas bibliotecas, persuadidos
destes princípios, que devastação devemos fazer? Se
pegarmos num volume de teologia ou de metafísica
escolástica, por exemplo, perguntemos: Contém ele
algum raciocínio acerca da quantidade ou do número?
Não. Contém ele algum raciocínio experimental
relativo à questão de facto e à existência? Não.
Lançai-o às chamas, porque só pode conter sofisma e
ilusão». (p. 165)
Do ponto de vista de David Hume, só há dois tipos de
conhecimento: empírico, sobre questões de facto, onde
encontramos ciências como a física; e a priori, sobre
relações de ideias, onde encontramos a matemática.
Nenhum cruzamento entre estes domínios é possível e
consequentemente ou a metafísica nada nos diz sobre a
estrutura fundamental da realidade — deixando por isso
mesmo de ser propriamente metafísica — ou transforma-se
em mera ciência empírica, deitando-se às chamas toda a
tradição metafísica europeia. Que a própria obra de Hume
seria quase certamente lançada às chamas, pelos seus
critérios, parece evidente — pois não encontramos nela
nem matemática nem física, mas antes especulação
filosófica tradicional.
Despertar do sono dogmático é deixar de tomar como
óbvio que podemos justificar pelo pensamento puro o nosso
conhecimento de aspectos fundamentais da realidade física.
Mas se nos limitarmos despertar do sono dogmático, caímos
num pesadelo céptico, no qual nem a ciência nem a
metafísica, tal como tradicionalmente concebidas, são
possíveis. A engenhosa saída de Kant para esta dificuldade
foi a responsável, em parte, pela sua fama como filósofo.



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