Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer


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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107

particularmente calorosa, inicialmente, e o que estava em
causa ficou por compreender. Kant decidiu então explicar-se
melhor, numa linguagem mais simples e, sobretudo, num
tratado de menor dimensão, hoje conhecido como


Prolegómenos a Toda a Metafísica Futura (1783), mas cujo
título completo acrescenta Que Possa Apresentar-se Como
Ciência.
A palavra «ciência» do título completo é para ser
entendida literalmente, apesar de hoje poder parecer
surpreendente a mistura com a metafísica. No tempo de
Kant, contudo, a filosofia e a ciência não tinham conhecido o
divórcio que viria a tornar-se a marca de grande parte da
filosofia alemã e francesa dos sécs. XIX e XX. Como Wolff,
Leibniz e Descartes, Kant tinha simultaneamente interesses
filosóficos e científicos. Na verdade, a sua opção pela
filosofia ficou a dever-se sobretudo à falta de laboratórios da
universidade da sua cidade natal, Königsberg (que hoje se
chama Kaliningrado e pertence à Rússia). Mesmo assim, em
História Geral da Natureza e Teoria dos Céus (1755), Kant
conjectura que o sistema solar se formou a partir de uma
imensa nuvem de gás e poeiras — teoria que ainda hoje é
considerada correcta.


Metafísica
De todas as áreas da filosofia, a metafísica é talvez a mais
incompreendida hoje em dia. Originalmente, o termo
«metafísica» não era usado pelos mais importantes
metafísicos da Antiguidade grega, como Parménides,
Heraclito, Platão ou Aristóteles. Estes limitavam-se a
publicar tratados que exploravam temas metafísicos, sem
dar a esse estudo qualquer designação especial; Aristóteles
chama «filosofia primeira» ao que hoje vemos como uma
mistura de temas fundacionais de metafísica, epistemologia
e filosofia da lógica e da linguagem; e muitos dos filósofos
pré-socráticos davam apenas o título «Sobre a Natureza»
aos seus tratados.
Foram os responsáveis pela Biblioteca de Alexandria, e
talvez também Andrónico de Rodes (c. 60 a.C.), que deram
à obra de Aristóteles em catorze livros o título grego de «o
que está depois da física» — expressão que, em grego,
inclui as palavras meta physica. Este acaso histórico
contribuiu para dar a ideia falsa de que a metafísica é o
estudo esotérico de matérias espirituais para lá da física ou
da materialidade, relacionadas com a condição humana. O
desenvolvimento subsequente da física experimental deu
origem a outra ideia falsa da metafísica: como esta procede
principalmente por raciocínio intenso e não, como a física,
por experimentação, ficou a ideia de que o metafísico é uma
pessoa algo tola, que considera ilusoriamente poder fazer
qualquer coisa parecida à física, mas sem se incomodar
com a experimentação nem a quantificação.
A metafísica, contudo, não é nem um discurso
espiritualista sobre a condição humana, ou sobre o reino do
além, nem uma rejeição do experimentalismo científico. Em
metafísica estuda-se problemas filosóficos sobre os
aspectos mais gerais da realidade. Por se tratar de


problemas 
filosóficos, 
não 
podem 
ser 
tratados
experimentalmente, como se faz com os problemas
científicos; por se tratar dos problemas mais gerais da
realidade, a metafísica não tem grande coisa a dizer sobre a
condição humana, pois os seres humanos estão longe de
estar no centro da realidade; e dá bastante mais atenção à
natureza da realidade física, do que a uma eventual
realidade que esteja para lá da física, pela simples razão de
que a realidade física já levanta suficientes perplexidades
filosóficas.
A física e astrofísica actuais são herdeiras directas da
metafísica, tal como esta era feita pelos filósofos gregos da
Antiguidade. Se estes se tivessem inibido de especular
metafisicamente, esperando primeiro que a ciência
experimental se desenvolvesse, esta nunca teria surgido: foi
a curiosidade que levou os seres humanos a desenvolver a
ciência experimental, não foi a ciência experimental que
determinou em absoluto o rumo da curiosidade humana.
Contudo, com o avanço extraordinário da ciência
experimental a partir dos sécs. XVII e XVIII, a tentação de
abandonar a metafísica como se de uma infantilidade se
tratasse não se fez esperar. Esta atitude não é
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