Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer


O problema das mãos sujas



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
O problema das mãos sujas
O filósofo norte-americano Michael Walzer (n. 1935)
publicou, em 1973, na referida Philosophy & Public Affairs, o
artigo «Acção Política: O Problema das Mãos Sujas», que
deu os contornos e até o nome à discussão contemporânea
do que poderíamos designar por «maquiavelismo».
Nicolau Maquiavel (1469-1527) ficou famoso por ter
retratado em O Príncipe (1532) o pensamento amoral dos
dirigentes políticos. Mas a convicção de que estes são
fundamentalmente amorais, agindo apenas em termos
estratégicos, e excluindo quaisquer considerações morais, é
recorrente na história da humanidade. É assim que muitas
pessoas vêem hoje os políticos, com ou sem razão, e era
esta a mentalidade existente na Grécia da Antiguidade, a
que Platão dá voz e que procura refutar no livro I de A
República. Maquiavel, todavia, expôs de modo sistemático
essa maneira amoral de pensar — a que hoje se chama por
vezes Realpolitik.
Walzer usou a peça de teatro As Mãos Sujas (1948), do
dramaturgo e filósofo existencialista francês Jean-Paul
Sartre (1905-1980), que versa precisamente sobre a
possibilidade de governar obedecendo a restrições morais.
A ideia subjacente de que não é possível fazê-lo dá origem à
expressão o problema das mãos sujas.
O dilema do prisioneiro ajuda uma vez mais a esclarecer
o que está em causa. Numa das suas versões mais simples,
o dilema constitui um bom modelo não apenas das relações
entre pessoas, mas também entre estados.
Nessa versão, o dilema ocorre reiteradamente. Imagine-
se que o leitor tem vários hectares de terra e vive da
agricultura. Sempre que é tempo de recolher os frutos do
seu trabalho, teria muito a ganhar em poder contar com a
ajuda do seu vizinho — que, quando chega a altura de fazer


as colheitas, precisa também da sua ajuda. Quando o seu
vizinho lhe vem pedir ajuda, o leitor poderá ajudar ou não.
Se ajudar, está a perder o seu tempo — mas seria óptimo
se, na altura própria, ele o ajudasse também. Contudo, será
terrível se, chegada a altura, ele não o ajudar. O que fazer?
Cooperar ou não?
Este problema do dilema reiterado do prisioneiro foi
estudado pelo norte-americano Robert Axelrod (n. 1943),
especialista em ciência política. A questão que se colocou
foi a de saber que estratégia seria mais vantajosa. Sempre
pressupondo que estamos a decidir sem ter em conta
considerações morais, qual é a melhor maneira de agir?
Evidentemente, cooperar é o melhor — mas como evitar
que o leitor seja explorado pelo seu vizinho? O problema é
saber como castigar a falta de cooperação e recompensar a
cooperação de modo a impedir dois extremos: que a pessoa
seja explorada ou que se dê origem a um ciclo de não-
cooperação, em que todos ficam pior.
Várias estratégias complicadas foram propostas. A que
se mostrou mais vantajosa em muitíssimas situações é tão
simples — e intuitiva — que surpreendeu muita gente.
Consiste em começar por cooperar, e castigar cada não-
cooperação da outra pessoa com igual não-cooperação —
mas voltar a cooperar na circunstância seguinte. Portanto,
quando o seu vizinho lhe pede ajuda, o leitor ajuda. Se
quando chegar a altura de o ajudar a si ele se recusar, você
faz o mesmo na próxima vez que ele pedir ajuda. Mas se ele
voltar a cooperar, você volta a cooperar também. A
estratégia é só isto.
Por que razão funciona tão bem? Três são as razões
principais. Primeiro, não permite que o leitor seja explorado
pelo seu vizinho. Segundo, não dá origem a ciclos de não-
cooperação — em que você acaba em guerra com o seu
vizinho, ficando ambos pior. Mas o mais importante é a
terceira razão: é uma estratégia transparente, pelo que o
seu vizinho vê claramente o que se passa e, portanto, sabe


que ficará melhor se cooperar e em maus lençóis no caso
contrário.
A descoberta de que esta estratégia, a que se chama
«pagar na mesma moeda», funciona tão bem em algumas
circunstâncias é muitíssimo importante. Em primeiro lugar,
é uma refutação do princípio cristão de dar sempre a outra
face: se cooperarmos sempre, seremos explorados pelos
pulhas, e isso dá origem a uma sociedade iníqua. Em
segundo lugar, é também a refutação do maquiavelismo: se
não formos transparentemente cooperativos, ficaremos
todos pior. Aristóteles parece ressurgir aqui: nem Jesus nem
Maquiavel, mas antes um meio-termo entre ambos.
Assim, pode ser um erro crer, como Maquiavel, que é
vantajoso agir amoralmente quando não há instituições
superiores que nos possam castigar, como ocorre nas
relações entre os estados. O dilema do prisioneiro mostra
que, em muitas circunstâncias, a guerra de todos contra
todos entre estados pode ser evitada, com vantagens
comuns, e ainda que não existam instituições superiores
aos estados: isso consegue-se encetando uma estratégia
transparente de pagar na mesma moeda, o que é
incompatível 
com 
mentiras, 
jogos 
de 
bastidores,
desinformação, espionagem e todos os restantes truques de
caserna rotineiramente usados por estadistas antigos e
contemporâneos.



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