Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer



Baixar 0.78 Mb.
Pdf preview
Página20/56
Encontro14.07.2022
Tamanho0.78 Mb.
#24256
1   ...   16   17   18   19   20   21   22   23   ...   56
Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Educação moral
Aristóteles propõe um guia educativo para a formação de
um ser humano virtuoso que, depois de formado, decidirá o
que é correcto fazer em cada caso. A educação moral
consiste em parte em discutir vários casos paradigmáticos
de excessos e defeitos: um excesso de coragem é um vício,
mas a falta de coragem também o é, por exemplo. Daí que
se atribua a Aristóteles, algo irresponsavelmente, a ideia de
que no meio é que está a virtude. Mas isto é uma
simplificação grosseira, pois Aristóteles não pensa nem que
em todos os casos há um meio, nem que a sua teoria tenha
por missão estabelecer esse meio.
Aristóteles mostra que em muitos casos podemos errar
por excesso ou por defeito, e por isso devemos ter em
consideração este aspecto. Mas qualquer simplificação
grosseira desta ideia terá resultados inaceitáveis em muitas
circunstâncias: matar apenas duas pessoas inocentes para
lhes roubar o dinheiro, em vez de quatro ou nenhuma, não é
uma acção virtuosa.
Eis o que defende Aristóteles:
«A virtude é um estado que envolve escolha racional,
consistindo num meio-termo relativo a nós e
determinado pela razão […]» (Ética Nicomaqueia,
1106b-1107a)
A virtude envolve escolha racional: trata-se de escolher
ponderadamente, invocando razões. E consiste num meio-
termo relativo a nós: ou seja, consiste em evitar o que,
relativamente a nós, ao que somos, peca por excesso ou por
defeito. Do mesmo modo que a mesma quantidade de
alimento pode ser um excesso para uma pessoa e
insuficiente para outra, sendo o meio-termo relativo a cada


pessoa, também a virtude é relativa a cada pessoa. Por
exemplo, para uma pessoa pobre, é virtuoso dar cinco euros
para ajudar outra pessoa em dificuldades; mas para uma
pessoa muito rica esse não é o meio-termo virtuoso da
ajuda, dado dispor de bastante mais riqueza.
Aristóteles defende, pois, que a virtude consiste num
meio-termo relativo a nós. Mas como se determina, em cada
caso, o que é o meio-termo relativo a nós? Aristóteles
defende que esse meio-termo é determinado pela razão —
«a razão» acrescenta Aristóteles, «por referência à qual a
pessoa de sabedoria prática o determinaria» (idem).
O que isto significa é que a razão que determina o meio-
termo não emana da teoria de Aristóteles, mas antes, em
cada caso, da pessoa de sabedoria prática. É ela, e não a
teoria de Aristóteles, que determina qual é o meio-termo,
invocando uma razão ou justificação. E é isso que conta. O
contraste com as teorias éticas posteriores, como o
utilitarismo ou o deontologismo, não podia ser maior. Estas
teorias visam precisamente estabelecer a razão última que
fundamenta a correcção de uma dada acção. Aristóteles
pensa que quem estabelece tal razão é a própria pessoa
que age, avaliando cuidadosamente a circunstância em que
se encontra.
Numa leitura superficial, a ética de Aristóteles poderia
parecer pura arbitrariedade pessoal: cada qual invocaria as
suas razões, segundo os seus interesses. Mas isso seria não
compreender o que é uma razão. Quando alguém tem uma
razão para considerar que cinco mais sete é doze, esta
razão é por definição universal e é acessível a todos os que
quiserem considerar o cálculo em causa. E cinco mais sete é
sempre doze, não variando consoante sou eu que tenho de
pagar doze mil euros, ou é outra pessoa que tem de mos
pagar a mim. O mesmo ocorre na fundamentação da acção
moral: se tenho uma razão para agir de um modo em vez de
outro porque cheguei a essa conclusão raciocinando


cuidadosamente e não me enganei, essa razão não é uma
mera arbitrariedade pessoal.
Assim, o melhor que temos a fazer para sermos virtuosos
é desenvolver a excelência das nossas capacidades
humanas para o raciocínio prático, responsável por
determinar como agir. Num certo sentido, é virtuoso quem
se esforça genuinamente por ser virtuoso, desenvolvendo
as suas capacidades para o raciocínio prático ponderado, e
procurando assim atingir a excelência. Treinamo-nos a nós
mesmos para sermos virtuosos moralmente, tal como nos
treinamos para ser músicos virtuosos.



Baixar 0.78 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   16   17   18   19   20   21   22   23   ...   56




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal