Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Teorização ética
Aristóteles tinha plena consciência do que era desenvolver
teorias com elevado grau de precisão. Ele mesmo
desenvolveu, com extrema precisão, um tipo de lógica
formal a que hoje chamamos «silogística» — da palavra
grega 
usada 
por 
Aristóteles 

que 
significa
aproximadamente «dedução». Um par de décadas depois
da sua morte, Euclides desenvolveu um exemplo tocante de
precisão teórica, baseando-se em parte em trabalhos
anteriores — incluindo trabalhos estudados e publicados na
Academia de Platão e que Aristóteles conhecia.
Neste género de teorização partimos de alguns princípios
e construímos uma teoria que nos dá respostas para todos
os problemas da área. No caso da geometria, por exemplo,
podemos demonstrar qualquer resultado partindo apenas
dos dez princípios originalmente usados por Euclides. A
física é, hoje, uma teoria deste género: partindo de um
conjunto limitado de princípios gerais, podemos prever
qualquer ocorrência física, com elevado grau de precisão.
Se for possível fazer o mesmo em ética, teremos uma
teoria que nos diz, em cada situação da vida, o que é
correcto fazer. Tem sido assim que se tem entendido a
teorização em ética, desde o séc. XVIII. As duas teorias
éticas mais debatidas e desenvolvidas entre os filósofos
contemporâneos são o utilitarismo, que tem em Mill um dos
seus primeiros proponentes, e a ética deontológica (termo
derivado do grego deon, que significa «dever» ou
«obrigação»), cuja versão mais famosa devemos ao filósofo
alemão Immanuel Kant (1724-1804). Nas suas versões mais
habituais, trata-se de teorias que visam estabelecer uma
maneira de decidir o que é correcto fazer em cada caso.
Muito simplificadamente, o utilitarismo determina que
temos sempre o dever de fazer o que tiver mais


probabilidades de promover a felicidade do maior número
de pessoas afectadas pelas nossas acções. E o
deontologismo determina que temos sempre o dever de agir
de tal modo que pudéssemos querer que a máxima que
orienta a nossa acção fosse uma lei universal.
Aristóteles, contudo, vê a teorização em ética de modo
diferente. Logo no início da Ética Nicomaqueia (Livro I, Cap.
3), adverte que não devemos exigir mais precisão, numa
dada área, do que o objecto de estudo permite:
«É uma marca da pessoa instruída procurar em cada
área apenas aquele grau de precisão que a natureza
do tema permite. Aceitar de um matemático
afirmações que sejam meras probabilidades é como
exigir demonstrações de um retórico». (Ética
Nicomaqueia, 1094b)
Ora, Aristóteles considera que em ética não é possível o
grau de precisão que há noutras áreas, porque a realidade
relevante é demasiado diversificada: uma dada acção pode
ser correcta numa dada circunstância, mas não noutra; um
princípio moral poderá promover a vida boa em certos
casos, mas não noutros. Assim, temos de adoptar uma
postura a que hoje chamamos particularismo, que exige que
deliberemos em cada caso sem pretender aplicar princípios
gerais:
«As esferas de acções e do que é bom para nós, como
acontece na saúde, estão longe de ser fixas. Dado que
a explicação geral não tem precisão, a explicação ao
nível dos aspectos particulares é ainda menos precisa.
Pois não constituem uma qualquer habilidade ou
conjunto de regras: os agentes precisam sempre de
ver o que é apropriado em cada caso, à medida que


acontece, como fazem os médicos e navegadores».
(Ética Nicomaqueia, 1104a)
Assim, teorizar em ética é esclarecer o que é uma pessoa
virtuosa; será então ela a decidir, em cada caso, o que é
correcto fazer. Mas a teoria em si não pode dizê-lo
directamente porque a realidade é demasiado diversificada.
A virtude está, assim, no centro da teoria de Aristóteles,
mas não como um princípio que possa dizer-nos, por si, o
que é correcto fazer em cada caso.



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