Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Felicidade e truísmo
Aristóteles reconhece que a conclusão de que o bem último
é a felicidade — ideia em que John Stuart Mill (1806-1873)
irá insistir mais de dois mil anos depois — parece um
truísmo. Todavia, é algo que só pode ser alcançado depois
de uma análise cuidadosa dos conceitos de bem último e
instrumental.
Além disso, aceitar que o bem último é a felicidade
implica rejeitar duas ideias: que sem Deus tudo é permitido,
e que, se Deus não existir, nenhum valor objectivo existirá.
Para começar pela segunda ideia, se o raciocínio de
Aristóteles estiver correcto, exista ou não qualquer
divindade, o valor existirá objectivamente — incluindo não
apenas o valor instrumental, mas mesmo o valor último.
Pois o valor último é apenas o que nós valorizamos em si e
não apenas instrumentalmente, depois de uma reflexão
cuidadosa. E, se não nos enganarmos a raciocinar, esse
valor será objectivo no sentido em que é realmente último e
não uma ilusão da nossa parte.
Quanto à primeira ideia, se Aristóteles tiver razão, exista
ou não qualquer divindade, nem tudo é permitido, no
sentido em que nem tudo contribui instrumentalmente para
o bem último. Claro que se não houver uma divindade
castigadora, não seremos castigados se promovermos o mal
e não o bem; todavia, promover o mal e não o bem é, em si,
mau. Claro que podemos pensar promover o bem para nós
à custa de provocar mal aos outros — mas isto é admitir
que não estamos, de facto, a promover o bem,
irrestritamente, mas apenas o bem pessoal.
Além disso, Aristóteles não concebe a felicidade como
um estado interior e subjectivo, mas antes como uma
actividade de acordo com a nossa natureza. Ora, a nossa
natureza é tal que precisamos não apenas de satisfazer as


nossas 
necessidades 
mais 
elementares, 
como 
a
alimentação, a diversão e o conforto, mas também as
nossas necessidades intelectuais e emocionais. Esta
concepção é perfeitamente compatível com a plasticidade
dos seres humanos, que tanto podem ser pianistas ou
futebolistas, filósofos ou padeiros, professores ou políticos.
Mas é incompatível com uma vida dedicada a satisfazer
apenas as nossas necessidades físicas, por exemplo — não
por um qualquer moralismo provinciano da parte de
Aristóteles, mas apenas porque um ser humano não pode
sentir-se plenamente realizado se não realizar o seu
potencial enquanto ser humano.



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