Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
Conclusão
O céptico professa saber apenas que nada sabe, mas isso é
logicamente impossível. Isto porque ou o céptico sabe que
sem justificação adequada não há conhecimento e que os
seus raciocínios são correctos, ou não o sabe. Se sabe
qualquer destas coisas, então não sabe apenas que nada
sabe. E se não sabe qualquer destas coisas, não sabe que
nada sabe. Ora, se não sabe que nada sabe, também não
sabe apenas que nada sabe. Logo, em qualquer caso, o
céptico não sabe apenas que nada sabe.
Do mesmo modo que não podemos escrever uma
gramática da língua portuguesa sem usar uma qualquer
língua — portuguesa ou outra qualquer — também não
podemos suspender de uma vez só todas as nossas crenças
para pô-las em causa, sem professar quaisquer crenças. A
ilusão de que o podemos fazer resulta de estarmos
habituados a, ao pôr outras crenças em causa, aceitar
inúmeras crenças, sem reparar nelas. Por isso, não
reparamos que o céptico faz precisamente o mesmo: aceita
inúmeras crenças ao pôr outras em causa. Foi isso que viu
Bertrand Russell (1872-1970):
«É claro que é possível que todas ou qualquer uma
das nossas crenças possa estar errada, e
consequentemente todas devem ser adoptadas com
pelo menos um ligeiro elemento de dúvida. Mas não
podemos ter razão para rejeitar uma crença excepto
com base noutra crença qualquer». (Os Problemas da
Filosofia, p. 87)
Assim, apesar de a lenda atribuir a Sócrates uma
afirmação memorável, há fortes razões para pensar que
nem ele nem ninguém pode saber apenas que nada sabe.


Talvez devido a críticas deste género, o referido Sexto
Empírico insiste em distinguir o cepticismo académico do
seu próprio cepticismo, chamado pirrónico. Segundo Sexto,
são os primeiros que caem na armadilha de afirmar algo —
nomeadamente, que nada sabem. E são por isso
vulneráveis a algo como a argumentação aqui apresentada
contra eles.
Sexto esforça-se então por explicar que não sabe que
nada sabe; apenas lhe parece, perante cada afirmação de
hipotético saber, que não é saber. Deste modo, Sexto não
afirma nada saber, mas apenas que lhe parece nada saber.
Poderá esta diferença bloquear realmente o género de
argumentação aqui apresentada contra o céptico? Esta é
uma pergunta a que o leitor pode tentar responder por si.



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