Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer


A possibilidade do cepticismo



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Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer - Desidério Murcho
1518-Texto do artigo-4511-1-10-20171107
A possibilidade do cepticismo
Afirmar que só sei que nada sei seria obviamente incoerente
se a ideia fosse, literalmente, que nada sei — afirmando de
seguida que o sei. Isso seria como afirmar que toda a gente
é loura, mas eu não: se toda a gente, literalmente, é loura,
eu também o sou. Mas esta não é uma boa interpretação da
afirmação. Ao invés, a ideia é que há uma e uma só coisa
que sei: que nada sei, excepto isto mesmo.
Interpretada assim, esta afirmação parece captar o que o
céptico pensa. Ele põe em causa as nossas teorizações
acerca da natureza da realidade; põe em causa as nossas
convicções morais e as nossas memórias. E ao fazê-lo não é
incoerente, porque não afirma nada saber, mas antes que
sabe uma e uma só coisa: que não sabemos tudo o resto
que julgamos saber.
A primeira dificuldade desta posição é um mero
pormenor — mas na teorização os pormenores são muito
importantes, podendo fazer a diferença entre uma boa e
uma má teoria. A dificuldade é esta: como se conta
conhecimentos?
Esta pergunta é estranha, mas considere o leitor o
seguinte: há coisas que podemos contar, e há coisas que
não podemos contar. Tecnicamente, diz-se que as primeiras
são discretas ou contáveis e as segundas contínuas ou não-
contáveis.
Por exemplo, as maçãs são contáveis, porque cada maçã
é uma unidade. Uma dada quantidade de maçãs é
composta por várias unidades, que podem ser contadas.
Já a manteiga não é contável, porque não é composta
por unidades. O que podemos contar são porções de
manteiga, o que contrasta com as maçãs, que podem ser
contadas directamente, sem formar primeiro porções de
maçãs.


Este pormenor é importante porque o céptico afirma que
só sabe uma coisa, o que pressupõe que os conhecimentos
podem ser contados, como as maçãs. Mas se os
conhecimentos podem ser contados, então o céptico não
sabe só uma coisa, ao contrário do que afirma. Afinal, para
cada crença nossa, o céptico assevera saber que não há
justificação adequada para ela. Portanto, em rigor, o céptico
sabe pelo menos tantas coisas quantas as que cremos
saber: sempre que alguém afirma saber algo, o céptico
afirma que não há justificação adequada para essa crença.
Esta dificuldade não é muito significativa, mas sugere
outra que o é — constituindo, aliás, uma ilusão cognitiva
recorrente. Se o céptico não souber que é preciso haver
justificação adequada para que haja conhecimento, nenhum
dos seus raciocínios tem qualquer relevância. Os raciocínios
cépticos põem em causa as justificações que invocamos a
favor das nossas crenças. Mas isto só é relevante se
aceitarmos que sem justificação adequada não há
conhecimento. Portanto, o céptico tem de aceitar esta tese
filosófica quanto à relação entre a justificação e o
conhecimento — não pode saber apenas que nada sabe.
Para saber que nada sabe tem de saber, além disso, que
sem justificações adequadas nada se sabe.
Mas mesmo isto não basta. Se o céptico soubesse
apenas que nada sabe e que sem justificação adequada
nada se sabe, não saberia que os seus raciocínios estão
correctos. Ora, se o céptico não souber que os seus
raciocínios estão correctos, não saberá também que os
outros não sabem o que julgam saber — pois isso é o que
ele conclui com os seus raciocínios.



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