SeçÃo temática: Lygia Fagundes Telles



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escura e mais eu (1995) é o último livro de contos inéditos da autora. 

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 Tout le monde triche: “todo o mundo trapaceia”, “todo o mundo finge” (tradução nossa). 




––––––––––––    Nilton Resende

 

 



estud. lit. bras. contemp., Brasília, n. 56, e563, 2019.     

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sem  horizontes  para  os  quais  possam  dirigir  o  olhar:  um  olhar  ferozmente  centrado  nos 



limites da própria impotência (Bosi, 2013, p. 113). 

 Ao viverem assim, as personagens alijam-se de seu valor simbólico, o que as joga em um 

estado  de  diabolismo.  A  palavra  “diabólico”  provém  do  grego  diabállein,  formado  por 

bállein  (lançar/jogar)  e  dia  (separado).  Esse  vocábulo  traz  o  sentido  de  jogar  de  forma 

desagregada,  separadamente,  opondo-se  ao  sentido  de  “simbólico”,  que  provém  de 



symbállein,  formado  por  bállein  (jogar/lançar)  e  syn  (junto).  Se  no  simbólico  há  a  ideia  de 

integridade,  no  diabólico  há  a  desintegração.  Um  é  união;  o  outro,  dispersão.  Suas 

personagens vivem a experiência da desagregação, que se dá ora no âmbito interpessoal ora 

no âmbito intrapessoal, havendo então uma cisão da personagem, a fundação de um abismo 

nela mesma. E por essas personagens tentarem esconder suas verdades – e por algo precisar 

ser dito ao leitor –, as coisas desempenham esse papel:  

[...] Então os objetos como que se promovem a personagens. Porque os desencontros são 

cada vez mais agudos. Já ninguém sabe de ninguém. [...]. Os objetos são cada vez mais, em 

L.F.T., coisas-sinais, sem deixar de ser coisas. São elementos de composição de um drama 

tão importantes como uma atitude, um esgar, uma fala. [...] atrevo-me a afirmar que Lygia 

Fagundes Telles adquiriu este alto dom de fazer falar as coisas (Lopes, 1971, p. 2). 

Esse “alto dom de fazer falar as coisas” alcança o ponto alto em seu “conto total”, em que 

características temáticas e formais da autora vão atingir sua culminância.  Assim, não há nele 

uma  fábula  com  eventos  cotidianos  narrados  por  uma  terceira  pessoa  ou  por  uma  primeira 

pessoa  comum.  Também  não  é  ele  uma  alegoria  com  elementos  tirados  de  qualquer  espaço 

cotidiano. No “conto total” de Lygia Fagundes Telles, em que se condensa uma obra sempre 

às voltas com personagens decaídas e conscientes de sua “própria impotência”, personagens 

em  constante  diabolismo,  e  uma  obra  cuja  autora  “adquiriu  este  alto  dom  de  fazer  falar  as 

coisas”, temos um narrador que é um anão de pedra instalado num jardim que nos remete a 

um  Éden  pós-Queda.  Tudo  isso  vazado  numa  alegoria  grotesca,  dando-nos  o 

“superverdadeiro, o excessivamente real” (Kayser, 2003, p. 133). Talvez esta imagem nos seja 

oportuna:  se  os  outros  contos  de  Lygia  Fagundes  Telles  são  leite,  seu  “conto  total”  é  leite 

coalhado. O grotesco é um leite coalhado. E, assim como  o leite se solidifica nessa situação, 

solidificam-se  também  as  personagens  lygianas  ao  serem  representadas  no  narrador  de 

“Anão  de  jardim”,  de  modo  a  recrudescer  seu  diabolismo  e  sua  impotência.  Nessa  alegoria 

grotesca, o protagonista e narrador é um anão de pedra que quer tornar-se humano.  

Um mundo alegórico “nos oferece os objetos perfeitamente alinhados [...] as relações entre 

as ideias se encontram submetidas a um forte controle lógico” (Fletcher, 2002, p. 107, tradução 

nossa). “Anão de jardim” é um texto cujos elementos têm uma intrincada relação simbólica, e 

cujas  desarmonias  intrapessoais  e  interpessoais  são  representadas  na  harmonia  intratextual, 

que concorre para nos dar uma condensação da obra de Lygia Fagundes Telles, trazendo-nos 

então uma harmonia intertextual. Eis a fábula: Kobold, um anão de pedra, está instalado no 

jardim de uma propriedade particular em vias de ser demolida – também ele será destruído. 

Enquanto espera, o anão fala dos eventos a seu redor: a madame adúltera às voltas com seus 

amantes;  o  homem  bom  e  morno,  envenenado  aos  poucos  com  pequenas  doses  de  arsênico 

que  a  esposa  coloca  em  seu  chá;  as  chantagens  que  a  madame  sofre  por  parte  de  sua 

empregada; o gato que mija  em seus pés (do anão); o cachorro dissimulado; as crianças que 

Kobold  diz  serem  vermes.  O  anão  de  pedra  fala,  sobretudo,  de  seu  desejo  de  tornar-se 

humano, pois, ele afirma, não teria as mesmas atitudes dos homens, que parecem não estar à 

altura de sua (deles) condição. Ele conta seu desejo e reza a Deus para que se realize. 

Em sendo o narrador uma estátua falante, podemos dizer que ele é “um monstro”: 

Em relação à maioria, monstro  – maravilha ou prodígio – distingue-se pela raridade [...]. 

Monstro  é  aquele  com  cujo  aspecto  não  estamos  acostumados,  pela  forma  de  seu  corpo, 

pela  cor,  pelos  movimentos,  pela  voz,  e  “mesmo  pelas  funções,  partes  ou  qualidades  de 

sua natureza” [...] Nele, a natureza afastou-se de seu curso habitual (ab usitato cursu), saiu 

de sua órbita (exorbitasse) (Kappler, 1994, p. 299–300). 



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