SeçÃo temática: Lygia Fagundes Telles


     estud. lit. bras. contemp



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     estud. lit. bras. contemp., Brasília, n. 56, e563, 2019. 

“O menino e o velho”.

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 A desenfreada busca material liga-se, inevitavelmente, à destruição 



do humano no que ele pode ter de elevado:

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[...]  os  demolidores  estão  chegando  à  ultima  parede  da  casa.  Logo  eles  virão  com  as 

picaretas nesta direção, já disse que o mais jovem (e mais forte) me escolheu. E até que 

esses operários sabem fingir eficiência, a pressa porque apressado mesmo é o corretor-

amante,  ontem  ele  andou  por  aqui.  Deu  suas  ordens  com  a  maior  ênfase,  está 

impaciente, o terreno é grande e está localizado num bairro elegante, quer fazer logo o 

negócio.  Quando  foi  embora  no  seu  belo  carro,  fiquei  olhando  o  jardim  com  sua 

folhagem  desgrenhada  enfrentando  bravamente  o  capim  furioso.  Um  jardim  selvagem 

mas fácil de abater, trabalho vai dar a figueira brava com suas raízes agarradas à terra, se 

descabela às vezes quando fica em pânico (Telles, 2009a, p. 103). 

A  imagem  da  figueira  em  pânico  faz-nos  lembrar  que  essa  árvore  significa  abundância, 

conhecimento superior, imortalidade (Chevalier e  Gheerbrant, 2005, p. 428); e que a imagem 

da  árvore  nos  remete  ao  Paraíso  (Silva,  1985,  p.  47).  Assim,  pode-se  dizer  que  o  seu 

descabelar-se  e  o  seu  agarrar-se  à  terra  para  não  ser  destruída  dão-nos  uma  tentativa  da 

natureza no sentido de dizer não ao estado de coisas que se instaurou no jardim, unindo-se ela 

à voz de Kobold – ambos sofrendo o Éden destruído.  

Não  tendo  carne,  Kobold,  ao  mesmo  tempo  em  que  a  deseja,  condena  aqueles  que  a  têm, 

como se ignorasse que, simbolicamente, tê-la é estar sujeito à queda. 

Para Bernardo de Clairvaux, a carne é o primeiro inimigo da alma; corrompida desde seu 

nascimento, manifesta-se viciada por seus maus hábitos e obscurece a visão interior. [...] A 

carne  designa,  então,  o  princípio  mais  profundo  da  pessoa  humana,  a  sede  do  coração, 

entendido no sentido de princípio e de ação (Chevalier e Gheerbrant, 2005, p. 188-189). 

Feito de pedra, Kobold não estaria sujeito à ação. No entanto, não tendo carne, ele tem alma, 

a parte imaterial concupiscente – o que justifica ser também movido por paixões, afeito a elas. 

Paixões  que  ele  não  pode  vivenciar,  visto  que  é  feito  de  pedra:  matéria  que,  quando  bruta, 

relaciona-se com o divino e, quando talhada, com o humano, obra dessacralizadora da obra de 

Deus. Se a pedra bruta simboliza a liberdade, a talhada simboliza a servidão e a treva (Chevalier 

e  Gheerbrant,  2005,  p.  696),  mas  Kobold  fere  a  natural  hierarquia  pois,  sendo  pedra  talhada, 

numa  escala  hierárquica  ele  deveria  dirigir  sua  fala  a  um  ser  humano,  mas  busca  falar  com 

Deus, Criador do criador – afinal, o homem não o ouve. E Kobold, fazendo jus a seu nome, vai 

contra as regras: o próprio pedido para mudar de natureza já é em si uma infração, uma busca 

de ir contra o estabelecido, uma subversão. Kobold dirige-se a Deus, implorando ser uma outra 

criatura  que  não  a  que  é  agora;  implorando  ser  talvez  algo  pouco  sublime,  mas  dotado  de 

movimento – um escorpião, a ponta de sua cauda ou, ainda, a menor estrela da constelação de 

Scorpio, a que se situa na ponta da cauda, que contém, simbolicamente, toda a força do próprio 

animal  (Chevalier  e  Gheerbrant,  2005,  p.  765).  A  estrela  situada  na  ponta  do  ferrão  –  a  que 

inocula o veneno, pois Kobold não é confiável. Sobre o simbolismo do escorpião, diz-se: 

Muitos africanos evitam pronunciar-lhe o nome, pois ele é maléfico: chamá-lo pelo nome 

equivaleria a desencadear forças contra si mesmo (Chevalier e Gheerbrant, 2005, p. 383). 

Segundo  uma  lenda  do  Mali,  o  escorpião  diz:  Não  sou  um  espírito  dos  elementos  e 






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