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Guérande: cidade medieval no oeste da França. Abóboda



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Guérande: cidade medieval no oeste da França.
Abóboda: teto curvilíneo; abóbada.
Provisões: reservas de alimentos.
Flancos: lados.
Página 70

Quis erguer-me, mas batia o crânio com violência. A rocha envolvia-me por todos os lados. [...] Continuava a sufocar, batia os dentes, presa de um arrepio.

De repente, lembrei-me. O horror eriçou meus cabelos e senti a pavorosa verdade fluir dentro de mim, dos pés à cabeça, como um gelo. Saíra finalmente daquela síncope que me atingira por longas horas com a rigidez de um cadáver? Sim, eu estava me mexendo, minhas mãos tocavam as tábuas do caixão. Restava-me fazer um último teste: abri a boca, falei, chamando Marguerite, instintivamente. Eu urrava, e minha voz naquela caixa de pinho adquirira um som rouco tão apavorante que eu mesmo me assustei. Meu Deus! Então era verdade? Podia andar, gritar que estava vivo, e minha voz não seria ouvida, eu estava encerrado, esmagado sob a terra!

[...]


Minhas mãos, tateando, continuavam maquinalmente a passear pela madeira. De repente piquei meu polegar esquerdo, e a dor leve arrancou-me do torpor. O que seria? Procurei de novo, reconheci um prego, um prego que os papa-defuntos haviam enfiado obliquamente e que não alcançara a borda do caixão. Era muito longo, muito pontudo. A sua cabeça estava presa na tampa, mas senti que se mexia. A partir daquele instante, fui tomado por uma única ideia: pegar aquele prego. Passei a mão direita sobre minha barriga, comecei a abalá-lo. Ele não cedia, daria um enorme trabalho. Muitas vezes mudava de mão, pois a mão esquerda, mal colocada, se cansava depressa. Enquanto eu insistia daquela forma, todo um plano desenvolvera-se na minha cabeça. Aquele prego tornara-se a salvação. Eu precisava dela de qualquer jeito. Mas será que ainda daria tempo? A fome me torturava, tive de parar, presa de uma vertigem que deixava minhas mãos moles, a mente vacilante. Sugara as gotas que escorriam da picada em meu polegar. Então mordi meu braço, bebi meu sangue, esporeado pela dor, reanimado por aquele vinho morno e acre que me molhava a boca. E, voltando ao prego com as duas mãos, consegui arrancá-lo. [...]

[...]


ZOLA, Émile. A morte de Olivier Bécaille. Trad. Marina Appenzeller. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 22-38. (L&PM Pocket; v. 73). (Fragmento).

Síncope: perda dos sentidos; desmaio.

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